O EQUILÍBRIO DOS GÊNEROS E A EDUCAÇÃO I

O EQUILÍBRIO DOS GÊNEROS E A EDUCAÇÃO I

    O processo mais forte nesse desequilíbrio está nas práticas pedagógicas e, sobretudo, na linguagem que se usa dentro das escolas. Trata-se também de uma linguagem que vem de casa e pertence à sociedade. Estamos, portanto, envolvidos num “linguajear” que, na concepção de Maturana, representa o conjunto de todas as falas através dos tempos, passando de geração em geração por meio de histórias, lendas, parábolas, enfim, toda a literatura hoje reforçada pelas várias formas da mídia.

    Esse linguajear com a estruturação da sociedade patriarcal passou a desenvolver práticas que a escola assimilou, invadindo até as brincadeiras de recreio que também invadem as ruas das cidades de interior. 

    Importante considerar, no estágio da reflexão que faço, os pilares dessa sociedade que a escola retrata através das falas de seus mestres e mestras. A primeira delas é a autoridade que, facilmente, transforma-se em autoritarismo. O modo de agir dentro da sala de aula, as normas vindas de cima para baixo, os projetos pedagógicos escritos sem a participação dos educadores e das famílias representam esse autoritarismo, essa verticalização representativa do mandonismo típico da sociedade patriarcal. 

    Na verdade, essas escolas refletem o que Piaget chama de heteronomia ou leis e normas que vêm de fora e chega à criança. A aceitação pacífica da criança às normas existentes, ao mesmo tempo em que se apresenta uma escola como lugar sagrado ao qual somente alguns têm acesso, temos a estrutura que mais serve ao patriarcado, hoje representado pelos dirigentes da sociedade e do Estado. 

    Uma segunda característica é a propriedade. O patriarcado trouxe o conceito daquilo que “me pertence” e, portanto, a defesa da propriedade passou a ser feita com todas as forças, estendendo-se para os clãs e tribos, chegando mais tarde aos Estados constituídos e levando às guerras nacionais e internacionais. 

    Essas manifestações podem começar nas escolas onde o individualismo é marcante e as normas disciplinares impedem até o empréstimo de um material escolar, eliminando-se a solidariedade. A sociedade matrística pareceu a Maturana uma sociedade mais solidária. As tribos são, de fato, assim. O que um sabe, outros sabem e buscam como meio de sobrevivência. 

    Quando nossas escolas manifestam e justificam uma prática, ela será tão patriarcal quanto mais for mandonista e individualista.

    Uma terceira característica que faz parte dessa estrutura é a competição, menor na era matrística e, muito maior, na era seguinte. As atividades pedagógicas que levam à competição, sobretudo as que destroem a solidariedade entre educandos e educandas aproximam-se demais das características do patriarcado. 

    Mas, quem leva tudo isso para as salas de aula? As nossas professoras por serem a maioria, desenvolvendo um “linguagear” patriarcal que exibe a supremacia do homem sobre a mulher e, portanto, machista; que explora a competição em tudo, inclusive no sistema de avaliação; que reafirma a posse como reflexo de uma propriedade que o patriarca, no passado, adquiriu. 

    O título fala de uma questão de gênero. Pois bem, é verdade. Os gêneros estão em desequilíbrio e, esse desequilíbrio, é reforçado pelas práticas pedagógicas que deixam os alunos em situação de privilégio em relação às alunas. Uma escola que reafirme a sua posição em receber dentro de seus muros somente meninos é uma escola patriarcal dotada de falta de senso de humanidade em equilíbrio, passando, em seu conteúdo não tão oculto, a informação de que os homens são superiores às mulheres. 

    Tal desequilíbrio me faz refletir sobre o quanto uma escola e uma educação não pensam em si mesmas e, em conseqüência, agem como estruturas pensadas por alguém.

 

Professor Hamilton Werneck é pedagogo e doutor em educação.

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Por Ultima Hora em 02/07/2026
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