Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
O presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, impediu pessoalmente que a Cedae resgatasse R$ 44 milhões aplicados na instituição — valor que poderia ter reduzido significativamente o prejuízo da estatal fluminense. A revelação consta no relatório final da auditoria interna determinada pelo atual presidente da Cedae, Rafael Rolim, e obtido com exclusividade pelo blog do jornalista Octávio Guedes, do G1.
O documento, encaminhado ao governador em exercício Ricardo Couto, expõe pela primeira vez a cronologia das tentativas da estatal de reaver os recursos aplicados no Banco Master — e o bloqueio imposto pelo próprio controlador do banco.
A auditoria interna comprova que toda a negociação e execução dos investimentos foi conduzida exclusivamente pela Diretoria Financeira da Cedae, sem o compartilhamento das informações com as demais diretorias e órgãos da empresa. A conclusão escancara um vácuo de governança que permitiu que R$ 230 milhões em dinheiro público fossem parar em uma instituição que operava, segundo a Polícia Federal, como pirâmide financeira.
A ata que mudou o destino da estatal
O atual presidente da Cedae, o procurador Rafael Rolim, integrava o Conselho de Administração da estatal em setembro de 2023, quando foi aprovada a flexibilização das regras internas de investimentos da companhia. A mudança abriu caminho para que o dinheiro público chegasse ao Banco Master.
A 788ª Reunião do Conselho de Administração, realizada em 12 de setembro de 2023, aprovou alterações profundas na Política Institucional de Aplicações Financeiras. Entre as mudanças:
A proposta foi apresentada pelo então diretor financeiro, Antônio Carlos dos Santos — indicado de Cláudio Castro — com parecer jurídico favorável e aprovação do Comitê de Auditoria. O Banco Master se enquadrava exatamente no novo perfil de risco.
A ata foi assinada por todos os conselheiros, incluindo Rolim, o então presidente do conselho, Sérgio Cabral de Sá, e o ex-presidente da Cedae, Aguinaldo Ballon.
R$ 230 milhões perdidos e o resgate que não aconteceu
No fim de 2023, a Cedae fez um aporte inicial de R$ 200 milhões no Banco Master. O valor aplicado ultrapassou R$ 230 milhões. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco. Vorcaro foi preso.
A auditoria interna revelou que os servidores da Cedae tentaram resgatar os recursos, mas a ordem de saque foi cancelada por interferência direta de Vorcaro. O empresário impediu que o governo do Rio retirasse R$ 44 milhões que poderiam ter diminuído o prejuízo da estatal.
A partir do momento em que os demais órgãos da companhia tomaram ciência do efetivo investimento no Banco Master, passaram a emitir alertas. Mas já era tarde. O dinheiro estava perdido.
A sindicância que virou delação
Determinada por Rolim como uma de suas primeiras medidas ao assumir a presidência, a Comissão de Sindicância Interna foi composta por quatro funcionários concursados da área de Governança. O relatório final, já nas mãos de Ricardo Couto, aponta infrações na aplicação financeira.
A diretoria executiva não parou por aí. Recomendou o compartilhamento do documento com a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A Cedae também aprovou uma nova política de aplicações financeiras, restabelecendo critérios mais conservadores para investimentos futuros. Em nota oficial, a estatal afirmou:
"Está nas mãos do governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, o relatório final de apuração da Cedae, que aponta uma série de infrações na aplicação financeira da companhia com o Banco Master."
A faxina de Couto e o homem que ficou
A demissão de Aguinaldo Ballon e a exoneração do diretor financeiro Antônio Carlos dos Santos ocorreram em abril de 2026, como parte da reestruturação promovida por Ricardo Couto na máquina pública. Desde que assumiu o governo, em 24 de março, o desembargador já exonerou mais de 544 pessoas nomeadas em cargos comissionados.
Ballon era nome do núcleo duro de Castro. Santos foi apontado como o responsável direto por flexibilizar as regras que permitiram o aporte. Ambos foram exonerados.
Rafael Rolim, no entanto, foi promovido à presidência da estatal. O mesmo Rolim que, como conselheiro, assinou a ata de setembro de 2023. A mesma ata que viabilizou o investimento. O mesmo investimento que, segundo sua própria auditoria, foi executado sem transparência e culminou na perda de R$ 230 milhões.
Procurada, a Cedae confirmou a abertura da sindicância e a aprovação da nova política de investimentos, mas não comentou a participação de Rolim na ata de 2023.
O rombo que não para de crescer
Os R$ 230 milhões perdidos pela Cedae engrossam o prejuízo total do estado do Rio no escândalo do Banco Master, que já ultrapassa R$ 3,6 bilhões — segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que autorizou a nova fase da Operação Compliance Zero em 26 de maio.
O dinheiro do Rioprevidência — fundo de aposentadoria dos servidores fluminenses — responde pela maior fatia do rombo. Mas a Cedae ocupa um lugar simbólico central no escândalo: comprova que a capilaridade do esquema não se limitava ao círculo de Cláudio Castro. Alcançou a diretoria financeira, o conselho de administração e, agora, o próprio presidente indicado pelo governo de transição.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central. Vorcaro está preso. A PF investiga. O STF acompanha. A Alerj briga para instalar uma CPI. E a Cedae, que perdeu R$ 230 milhões, é comandada hoje pelo homem que estava na sala quando as regras mudaram.
Rafael Rolim — Advogado e procurador do Estado do Rio de Janeiro, Rafael Rolim construiu uma trajetória de três décadas na administração pública fluminense. Foi procurador-chefe da Procuradoria Trabalhista da PGE-RJ entre 2009 e 2014, diretor jurídico da Cedae de 2015 a 2019 e subprocurador-geral do Estado entre 2020 e 2024. Professor de Direito do Trabalho na Escola Superior de Advocacia Pública da PGE-RJ, integrou o Conselho de Administração da Cedae por sucessivos mandatos. Nomeado presidente da estatal em abril de 2026 pelo governador interino Ricardo Couto, sua gestão foi marcada por medidas de austeridade — corte de R$ 500 milhões em contratos — e pela determinação da sindicância interna que revelou as infrações nos investimentos no Banco Master. O relatório, encaminhado aos órgãos de controle, demonstra compromisso com a responsabilização, ainda que sua própria trajetória como conselheiro à época das decisões investigadas levante questões sobre os limites da transparência na máquina pública fluminense.


Fontes:
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!