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Rio de Janeiro, 21 de junho de 2026 — O sol da manhã refletia nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas quando uma figura dourada cruzou o gramado do Estádio do Remo.
Cabelos loiros presos em duas tranças, vestes brancas e douradas com detalhes azuis, uma espada na cintura e, nos olhos, o brilho de quem encontrou seu lugar no mundo.
Não era uma personagem saída de um videogame — era Luana Jabour, cosplayer carioca, vestida como Lumine, a protagonista viajante de Genshin Impact, um dos jogos mais populares do planeta.
O Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026, que nos dias 20 e 21 de junho celebrou a cultura milenar chinesa com tambores, remadas e inclusão social, ganhou um elemento inesperado: o cosplay.
E, dentro dele, a ponte entre a China ancestral e a China contemporânea — aquela que produz tecnologia, entretenimento e, acima de tudo, narrativas que conectam milhões de jovens no mundo inteiro.
A personagem que nasceu em um estúdio chinês e conquistou o mundo
Luana estava caracterizada como Lumine, a Traveler — a Viajante, protagonista de Genshin Impact, jogo desenvolvido pela miHoYo (atualmente HoYoverse), empresa chinesa fundada em 2012 em Xangai.
Lançado em setembro de 2020, o jogo se tornou um fenômeno global: ultrapassou a marca de US$ 5 bilhões em receita em seus primeiros três anos, segundo a Sensor Tower, e acumula mais de 80 milhões de jogadores ativos mensais espalhados por todos os continentes.
A história de Lumine é a de uma viajante interestelar que, ao chegar ao mundo de Teyvat, é separada de seu irmão gêmeo e precisa explorar sete nações para encontrá-lo.
Uma dessas nações é Liyue, uma região inspirada diretamente na China antiga — com montanhas flutuantes, templos vermelhos e dourados, lanternas flutuantes e uma cultura mercantil que remete à Rota da Seda.
"A Lumini é uma personagem muito conhecida na área do jogo." Ela é protagonista de uma jornada em que explora vários lugares em função de encontrar o irmão perdido.
Em um desses lugares, ela explora um local inspirado na China, que é Liyue.
Ela tem várias aventuras e uma forte conexão com a China, além de o jogo ter sido produzido por uma empresa chinesa", explicou Luana, com a paciência de quem já corrigiu o nome do jogo mais de uma vez.
A pronúncia que faz a diferença.
Antes de falar sobre personagens e cosplay, Luana fez questão de um esclarecimento. "Se pronuncia Genshin Impact, não Genim Impact", corrigiu, com um sorriso que dissipou qualquer constrangimento.
O erro é comum no Brasil, onde a pronúncia aportuguesada do nome do jogo se espalhou entre os jogadores casuais.
O jogo, cujo nome original em chinês é ?? (Yuán Shén), que significa "Deus Original" ou "Espírito Original", tem uma base de fãs no Brasil que cresce a cada ano.
Dados do Newzoo apontam que o país é o quinto maior mercado de games do mundo em número de jogadores, com mais de 80 milhões de brasileiros conectados a jogos digitais. Genshin Impact, por ser gratuito e disponível em português, conquistou uma fatia expressiva desse público.
A música de fundo do Festival das Águas — tambores chineses, címbalos e flautas tradicionais — poderia perfeitamente ser a trilha sonora da região de Liyue dentro do jogo.
Não por acaso: a HoYoverse contratou a Orquestra Filarmônica de Xangai para gravar a trilha sonora de Genshin Impact, muitas vezes utilizando instrumentos tradicionais chineses como o guzheng (uma cítara de 21 cordas) e o dizi (flauta de bambu).
Cosplay como linguagem universal
Quando perguntada sobre sua participação em competições de cosplay, Luana foi sincera: "Eu nunca realmente competi em uma competição de cosplay, mas um dia eu gostaria bastante. Ainda sou muito iniciante, então cada coisa tem seu tempo."
O cosplay — a arte de se fantasiar e interpretar personagens da cultura pop — movimenta no Brasil um mercado que, segundo a Abrademi (Associação Brasileira de Desenvolvimento de Museus e Indústria Criativa), gera cerca de R$ 300 milhões por ano em eventos, vendas de fantasias, acessórios e convenções.
A Comic Con Experience (CCXP), realizada anualmente em São Paulo, e a Anime Friends, em São Paulo e Rio de Janeiro, atraem centenas de milhares de visitantes e são os principais palcos para cosplayers brasileiros.
Mas, para Luana, o cosplay vai além da competição. "Eu participo a fim de me expressar mesmo." A arte vai muito além de ficar igual ao personagem. Pessoas de diferentes tipos podem interpretar diferentes personagens. É mais pela representação do que por uma coerência."
A fala ecoa um movimento contemporâneo dentro da cultura cosplay global.
Cada vez mais, eventos e comunidades têm valorizado a liberdade criativa e a expressão pessoal acima da precisão milimétrica com o personagem original.
Um relatório da Statista de 2025 indica que 67% dos cosplayers ao redor do mundo consideram a diversidade e a inclusão os valores mais importantes da comunidade.
A conexão entre o dragão do jogo e o dragão da Lagoa
A presença de uma cosplayer de Genshin Impact no Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026 não é apenas uma coincidência geek. Há uma linha invisível que conecta os dois dragões — o do jogo e o da tradição chinesa.
Em Genshin Impact, dragões são figuras centrais na mitologia do jogo. O dragão Rex Lapis, também conhecido como Zhongli, é o deus da região de Liyue e um dos personagens mais populares do jogo.
Na cultura chinesa real, o dragão (?, lóng) é um símbolo de poder, sorte e nobreza — e a razão de ser do Dragon Boat, cujas canoas são ornamentadas com cabeças de dragão para a competição.
A Unesco reconheceu o Festival do Barco-Dragão como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2009. E Genshin Impact, em 2022, foi premiado com o Game of the Year no Google Play Awards e considerado um dos jogos mais influentes da década pela revista Time.
Duas expressões da cultura chinesa — uma milenar, outra digital — encontrando-se na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Um mar de possibilidades.
Luana não tem, por enquanto, redes sociais dedicadas exclusivamente ao cosplay. Seu Instagram pessoal é @luajabur, e foi por lá que ela compartilhou com amigos e seguidores a experiência de representar Lumine em um evento que uniu esporte, cultura e inclusão social no Rio de Janeiro.
"É sempre uma grande alegria representar personagens e interpretar, de certa forma", disse, com a simplicidade de quem encontrou na arte da caracterização uma forma de pertencimento.
O Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026 entrou para a história como o primeiro grande evento da modalidade no Rio de Janeiro.
Com 26 equipes, clínicas gratuitas, remadoras sobreviventes de câncer de mama e a presença da cônsul-geral da China, Tian Min, o festival mostrou que a cultura chinesa cabe em muitas formas — nos tambores, nas remadas sincronizadas e, neste domingo, também nas vestes de uma viajante interestelar chamada Lumine.
O convite está feito: Genshin Impact, grátis, disponível para celular, PC, PlayStation e Xbox.
E, para quem quiser ver Lumine de perto, o Instagram de Luana Jabur está de portas abertas. "Cada coisa tem seu tempo", disse ela. O tempo do cosplay, para Luana, ainda está desabrochando.
Luana Jabour
Luana Jabour é cosplayer carioca e entusiasta da cultura geek, com foco em personagens do universo dos games e animes.
Participou como cosplayer convidada do Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026, caracterizada como Lumine, protagonista de Genshin Impact (HoYoverse), estabelecendo uma ponte entre a cultura pop chinesa contemporânea e a tradição milenar do Festival do Barco-Dragão.
Luana valoriza o cosplay como ferramenta de expressão pessoal e representação, acima da competição e da precisão estética. Ainda iniciante no universo cosplay, ela planeja expandir sua presença na cena e, futuramente, participar de competições especializadas.
Atualmente, pode ser encontrada no Instagram pessoal @luajabour.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Antonio Lemos @djportugues
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