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Deputado Val Ceasa processa Garotinho por danos morais e é alvo de operação do MP por suspeita de ligação com o TCP
A ação judicial contra Garotinho
O deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa (PRD), entrou com uma ação na Justiça pedindo R$ 50 mil de indenização por danos morais contra o ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos). A ação foi protocolada em maio deste ano, antes da operação policial que atingiu o parlamentar na quinta-feira (18).
No pedido, Val Ceasa acusa Garotinho de tentar destruir sua reputação como parlamentar — prestes a se candidatar a um novo mandato — e de abuso de liberdade de expressão. Em seu perfil no Facebook, o ex-governador publicou que o deputado deveria estar preso por associação ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, líder do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de Israel, na zona norte do Rio.
A defesa do deputado nega haver qualquer denúncia, investigação ou procedimento criminal que o associasse ao traficante. Além da indenização, o parlamentar pediu que o Facebook excluísse o vídeo com as acusações, sob pena de multa de R$ 10 mil. O caso tramita na 37ª Vara Civil, que já intimou Garotinho e a plataforma a se manifestarem.
A operação do MP e da Polícia Civil
Na quinta-feira (18), uma força-tarefa do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e da Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão contra Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins (União Brasil) — atualmente servidor municipal — e o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna de Azevedo. As buscas ocorreram na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), na Ceasa e em endereços na capital fluminense e no Espírito Santo.
A investigação teve início após um alerta da Polícia Militar. Em dezembro de 2023, o deputado procurou o 16º Batalhão, em Olaria, para tentar impedir a demolição de imóveis de luxo ligados ao TCP no Complexo de Israel. Um dos imóveis era o chamado "Resort Green", do traficante Peixão, construído em área de preservação ambiental em Parada de Lucas.
Segundo o MPRJ, os investigados usaram a influência dos cargos públicos para alegar que os imóveis seriam destinados à prestação de serviços sociais. As apurações indicam que a justificativa não correspondia à realidade. A operação policial de demolição acabou sendo adiada.
O resort de luxo do tráfico
As investigações revelaram que os imóveis eram descritos como de "grande estrutura e suntuosidade", utilizados por integrantes do TCP para eventos e reuniões. Um deles contava com lago artificial com pedalinho, academia, câmeras escondidas e uma rota de fuga por becos e vielas pouco movimentados.
Imagens obtidas pela Polícia Civil mostram criminosos armados nos arredores da propriedade, um deles com fuzil. O procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, afirmou ao pedir a operação que "a tentativa dos investigados de interceder junto ao Comando do 16º BPM para impedir a demolição dos imóveis consubstancia indício suficiente do comprometimento de ambos com os integrantes da facção criminosa TCP".
Após a movimentação do deputado e do ex-vereador para barrar a derrubada, uma faixa com menção a um suposto projeto social foi instalada na entrada de uma das propriedades, e uma pintura com símbolos do TCP foi removida. A Polícia Militar realizou inúmeras operações para verificar as atividades nos imóveis e nunca constatou qualquer ação social nos endereços.
Salto patrimonial e assessores investigados
Com o avanço das investigações, o Ministério Público encontrou conexões adicionais do deputado com o crime organizado. Val Ceasa empregou, na Assembleia Legislativa, o irmão de um traficante do TCP. Outro assessor do parlamentar foi indiciado em uma investigação sobre homicídio atribuído a Bruno da Silva Loureiro, o "Coronel", líder da facção na Comunidade do Muquiço.
As divergências patrimoniais também chamaram a atenção dos investigadores. Em 2022, Val Ceasa declarou à Justiça Eleitoral R$ 1 milhão em bens. No entanto, segundo as apurações, o deputado tem ligação com empresas e transações imobiliárias que ultrapassam R$ 13 milhões, incluindo a construção de um galpão no Espírito Santo e a aquisição de dois imóveis no Recreio dos Bandeirantes e na Barra da Tijuca, na zona sudoeste do Rio.
Durante as buscas, foram apreendidos R$ 320 mil em dinheiro vivo em endereços ligados ao deputado.
A defesa de Val Ceasa
Em discurso na Assembleia Legislativa, Val Ceasa afirmou sofrer perseguição política e que vai provar que é "gente de bem". Em depoimento, negou manter projetos sociais na comunidade e disse que "não sabe e nem tem ideia do porquê seu nome estar na faixa" instalada na propriedade.
A operação foi autorizada pelo desembargador Gilmar Augusto Teixeira, que destacou na decisão a "gravidade dos fatos investigados". O magistrado também determinou a quebra do sigilo de mensagens dos alvos e autorizou a requisição de relatórios ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para verificar se o deputado e seus aliados receberam recursos de membros da facção.
Em nota, a Alerj afirmou que está à disposição para "prestar toda a colaboração necessária ao andamento das investigações" e que "atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense".
Garotinho e a CPI do Crime Organizado
Em 16 de dezembro de 2025, Anthony Garotinho prestou depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado Federal. Na ocasião, afirmou que 47 deputados estaduais receberiam mesada na Alerj, em um suposto esquema de corrupção envolvendo o governo do estado e a Assembleia Legislativa.
Após a operação contra Val Ceasa, Garotinho publicou um vídeo no Instagram relembrando sua entrevista em um podcast, no qual afirma que pelo menos mais 10 deputados estaduais serão presos por envolvimento com organizações criminosas. "Não tem pra onde escapar, pelo menos mais 10 deputados estaduais vão ser presos. Não vai demorar muito e Val Ceasa vai ser preso. Você chegava no resort do Peixão e estava escrito no muro 'agradecemos a Val do Ceasa pelo apoio que ele nos dá'", declarou o ex-governador.
Biografia
Roosevelt Barreto Barcelos (Val Ceasa) nasceu em Nanuque, Minas Gerais, em 4 de maio de 1969. Aos 18 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar em um negócio familiar na Ceasa, fixando-se no bairro de Irajá, na zona norte. Empresário de formação, iniciou a carreira política como vereador do Rio de Janeiro pelo Patriota entre 2017 e 2019. Em 2018, foi eleito deputado estadual, sendo reeleito em 2022 pelo PRD. Na Alerj, atua em pautas ligadas ao abastecimento, à agricultura familiar e ao desenvolvimento econômico. É conhecido pelo nome político que remete à sua origem profissional na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro.
Anthony William Garotinho Matheus de Oliveira nasceu em Campos dos Goytacazes, em 27 de abril de 1960. Foi governador do Rio de Janeiro (1999-2002), deputado federal, secretário de Segurança Pública do estado e pré-candidato à Presidência da República em 2002 e 2006. Atualmente filiado ao Republicanos, mantém forte atuação nas redes sociais e é uma das vozes mais ouvidas sobre segurança pública no estado, tendo prestado depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado em dezembro de 2025.
Fontes
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