Se Correr o Centrão Pega, Se Ficar o Trump Come

Por Filinto Branco

Se Correr o Centrão Pega, Se Ficar o Trump Come

Lula decidiu que a conciliação tinha prazo de validade e, ao que tudo indica, ele venceu. Depois de um ano e meio de malabarismos políticos, oscilando entre concessões ao Centrão e acenos aos mercados, o presidente optou por uma guinada estratégica: o confronto. Não um embate qualquer, mas uma ofensiva em múltiplas frentes, com o Congresso Nacional e Donald Trump no alvo.

Essa tática audaciosa mistura pragmatismo, cálculo eleitoral e um resgate sutil da velha persona combativa do Lula sindicalista, que parece ressurgir das cinzas para incendiar o debate político.

A primeira cartada de Lula foi o veto ao aumento do número de parlamentares. Uma medida que, para muitos, simboliza a quintessência do corporativismo político: mais cadeiras significam mais cargos, mais verbas, mais poder para as máquinas partidárias.

Lula, contudo, jogou para a galera. Não por uma súbita conversão à austeridade, mas por perceber que o Brasil está farto de uma política que se retroalimenta. Em tempos de redes sociais e transparência compulsória, bancar um Congresso obeso é receita certa para a indignação popular e para a derrocada nos índices de aprovação.

O veto, claro, não veio sem custo. A reação no Congresso foi imediata e feroz, com líderes políticos bradando sobre “afronta” e ameaçando retaliações orçamentárias.

No entanto, Lula parece ter calculado o risco, optando por sacrificar a harmonia legislativa em prol da narrativa. Entre o Planalto e o plenário, o presidente escolheu ficar com a opinião pública, capitalizando o descontentamento popular com os privilégios parlamentares.

Outro front aberto por Lula é o do PL da Devastação, apelido que pegou — e com razão. O projeto, que desmonta barreiras ambientais em nome da expansão do agronegócio e da exploração de petróleo, é visto como um retrocesso civilizatório por ambientalistas e cientistas. Lula ainda não o vetou integralmente, mas já sinalizou que não aceitará o texto aprovado pelo Congresso.

O Planalto trabalha com a hipótese de um veto parcial ou a costura de um acordo que preserve salvaguardas mínimas.

Essa postura, embora gere custo político junto à bancada ruralista, oferece dividendos estratégicos significativos. Internamente, reforça a sintonia com setores urbanos e progressistas que cobram coerência ambiental.

Externamente, garante credibilidade nos fóruns internacionais, como BRICS e G20, num momento crucial em que Trump ameaça romper as regras do comércio global. É uma jogada de mestre para quem busca legitimação tanto em casa quanto no palco internacional.

Enquanto lidava com a artilharia doméstica, Lula foi alvejado do outro lado do hemisfério. Trump, em sua cruzada America First, decidiu mirar no Brasil, impondo uma tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros.

O golpe econômico veio acompanhado de um teste político. Lula respondeu com dureza retórica e ensaia movimentos diplomáticos para reforçar alianças com China, Rússia e demais parceiros do Sul Global, os BRICS.

A crise com Trump transcende o mero comércio. Ela reposiciona Lula no tabuleiro geopolítico e oferece combustível para o discurso anti-imperialista, tão caro à esquerda latino-americana. Para uma base desmobilizada, pode ser a fagulha que reacende a chama e mobiliza o eleitorado para os desafios futuros. Nos bastidores do Planalto, a ordem é capitalizar o conflito.

Dados preliminares — ainda discretos — apontam que a curva de desaprovação pode estar estabilizando, com sinais tímidos de recuperação. Nada espetacular, mas o suficiente para dar sobrevida a um governo que parecia condenado à paralisia.

A judicialização da política também entra na equação. Quando o Congresso derrubou o decreto que elevou o IOF, Lula não hesitou em recorrer ao STF, transformando a Corte na arena preferida de quem perde no plenário. E o ministro Alexandre de Moraes, o Xandão, não só restaurou grande parte do decreto, garantindo fôlego institucional e fiscal ao Planalto, como também autorizou a PF a avançar nas investigações contra Bolsonaro, que se vê cada vez mais acuado e sem rumo.

Para completar a trama, Trump, sempre atento, não perdeu a oportunidade de reclamar das ações contra seu "irmão ideológico" brasileiro, insinuando que o Brasil corre o risco de virar "uma nova Venezuela".

Essa combinação explosiva é, paradoxalmente, benéfica para Lula. O eleitor médio não se aprofunda em planilhas ou PECs, mas adora um presidente que enfrenta os “poderosos”. A narrativa é irresistível: Lula de um lado, Congresso, Trump e Bolsonaro do outro. Um Fla-Flu político em que o governo tenta reassumir o papel de time do povo.

O conflito vende, especialmente quando o adversário é identificável: o Congresso que busca privilégios, Trump que tenta impor tarifas e Bolsonaro que agoniza nas investigações. Lula aposta que, no imaginário popular, bater de frente com ambos soa como coragem — e não como imprudência.

Se a estratégia vingar, Lula não só melhora sua imagem, mas redesenha a disputa eleitoral para 2026. Um governo acuado pelo Centrão e pelas forças de mercado não galvaniza ninguém. Mas um Lula combativo, que peita ruralistas, barra privilégios e enfrenta Trump, pode reanimar um campo progressista órfão de projetos transformadores.

Claro, os riscos são reais. O isolamento legislativo pode paralisar projetos e abrir espaço para chantagens ainda mais caras. O embate com Trump pode ter desdobramentos econômicos severos, alimentando o desemprego e corroendo ganhos salariais. E a linha entre coragem e suicídio político é tão tênue quanto a margem de votos que decide uma eleição.

O veto ao aumento do número de deputados, a resistência ao PL da Devastação e a reação ao tarifaço trumpista são mais que medidas pontuais. São peças de uma estratégia que aposta no confronto como alavanca eleitoral. Em 2026, saberemos se Lula reinventou a roda ou apenas chutou o barraco.

Até lá, a única certeza é que a política brasileira voltou a ser um ringue — e Lula, desta vez, não entrou para dançar, entrou para brigar.

Até a próxima luta de MMA.

Filinto Branco- Colunista Político

Por Ultima Hora em 19/07/2025
Aguarde..