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Os choques que mudam a ordem do mundo raramente se anunciam com estrondo. Quase sempre surgem do que parecia secundário, técnico, invisível — linhas de código que ninguém lê, cabos enterrados sob oceanos, engrenagens microscópicas que passam despercebidas até o instante em que falham.
É nesse subterrâneo silencioso que se decide a política do século XXI. E, entre todas essas engrenagens ocultas, nenhuma moldou tanto o destino recente quanto uma invenção discreta, nascida em laboratório no pós-guerra: o transistor.
Inventado em 1947, o transistor não era ainda um chip, mas o seu alicerce fundamental: um interruptor sólido, grande o bastante para ser visto e manipulado à mão.
Nada tinha de invisível; sua grandeza era quase artesanal. Foi apenas ao ser multiplicado e encolhido que se transformou na matéria-prima dos chips que hoje comandam celulares, satélites, mísseis e supercomputadores.
Ao longo das décadas, esse pequeno artefato foi diminuindo em escala com obstinação quase ritual, até que a engenharia deixou de dialogar apenas com a lógica e passou a lidar com os caprichos da física — agora, da física quântica. Nesse território, elétrons atravessam barreiras como se zombassem das regras, correntes vazam quando deveriam permanecer contidas, o calor insiste em desafiar os limites do silício.
A miniaturização deixou de ser triunfo da engenhosidade para se tornar um duelo desigual: o homem tentando submeter a natureza, enquanto ela devolve — com crueldade elegante e ironia quântica — a conta de cada passo adiante. É por isso que, além de menores, os chips precisam agora de novos materiais e novas arquiteturas: do grafeno ao bismuto, da computação quântica à neuromórfica — esta última inspirada no cérebro humano, tentando reproduzir sua eficiência e capacidade de adaptação.
Esse mosaico tecnológico logo se tornou geopolítico. Taiwan, ilha a poucas dezenas de quilômetros da China continental, abriga a TSMC, responsável por fabricar mais de 90% dos chips de ponta usados pela NVIDIA, Apple e quase todos os gigantes da inteligência artificial. Uma única falha ali — seja um tufão, um terremoto ou um conflito militar — ecoaria em cadeias globais de energia, transporte, defesa e finanças. A concentração não é apenas econômica, mas estratégica.
No coração da disputa há um ator improvável: a Holanda. Não uma superpotência militar, tampouco um império econômico, mas guardiã de uma chave industrial única. A ASML, instalada em Veldhoven, é a única empresa capaz de produzir as sofisticadas máquinas de litografia ultravioleta extrema — as mesmas que permitem desenhar transistores de ponta, abaixo de 7 nanômetros (a TSMC anunciou em abril o mais novo chip de 2 nm, cuja produção em massa se dará até o final do ano). Sem essas máquinas, não há chip de ponta. Cada equipamento pode custar mais de US$150 milhões, e a empresa entrega pouco mais de 50 por ano, disputados por fabricantes no mundo inteiro, como TSMC, Samsung e Intel. É nesse ponto que Washington exerce pressão direta sobre Haia: não se trata apenas de comércio, mas de impedir que a China acesse o que há de mais avançado na fronteira tecnológica.
As pressões não são discretas. Desde meados da década passada — e intensificadas a partir de 2018 — diplomatas e estrategistas americanos percorrem os corredores dos ministérios holandeses, ora com o argumento da segurança nacional, ora com lembretes de alianças históricas.
O recado é claro: vender para a China significa alimentar um rival estratégico; negar as licenças é alinhar-se ao Ocidente, ainda que isso custe bilhões em contratos perdidos. Pequim, por sua vez, faz questão de lembrar que a ASML tem no mercado chinês um de seus maiores clientes potenciais. Entre Washington e Pequim, a Holanda descobre que ser pequena não significa irrelevância - às vezes, significa estar no centro da disputa.
Foi nesse tabuleiro — ou melhor, nesse mosaico — que em 2019 ocorreu o choque mais visível: a Huawei, então segunda maior fabricante de celulares do mundo, foi colocada na lista negra dos EUA, acusada de espionagem e de laços militares. Subitamente, a empresa viu-se impedida de acessar os chips mais avançados da TSMC, suas atualizações do Android e até mesmo componentes básicos de fornecedores ocidentais. A mensagem era inequívoca: na geopolítica dos semicondutores, dependência é vulnerabilidade.
A resposta chinesa foi dupla. De um lado, maciços investimentos domésticos em pesquisa, formação de engenheiros e criação de fábricas próprias — um esforço de décadas comprimido em anos. De outro, a aposta no leapfrog: saltar etapas intermediárias e mirar diretamente em tecnologias disruptivas. Não por acaso, pesquisadores chineses apresentaram, por exemplo, transistores de bismuto em escala laboratorial, apontando para a possibilidade de chips mais rápidos e eficientes que os de silício. Ainda distantes da produção em massa, esses avanços revelam, contudo, um mérito incontornável: a China mostrou mais uma vez que não apenas copia, mas também é capaz de inovar também nas fronteiras da ciência dos materiais.
Essa arquitetura global, ao mesmo tempo sofisticada e frágil, gera uma espécie de monopólio segmentado. A TSMC domina a fabricação; a ASML, as máquinas de litografia; os EUA, o design e a propriedade intelectual; o Japão e a Coreia, insumos químicos e memórias. Cada elo, isolado, não sustenta o sistema; juntos, formam a espinha dorsal da economia digital. É um mosaico que concentra poder, mas também multiplica riscos.
A guerra dos chips não é a disputa pelo “petróleo do século XXI” — analogia exaurida. É, antes, sobre quem controla as chaves invisíveis que ligam e desligam o mundo moderno. Diferentemente do petróleo, não há reservas dispersas: há apenas poucos guardiões, geograficamente frágeis e politicamente disputados. O risco não é só a escassez, mas a irrelevância.
E irrelevância, aqui, significa aceitar a condição de mero importador de futuro. Muitos países do Brasil a dezenas de outros — assistem de fora a essa disputa, condenados a comprar caro o que não sabem fabricar. Dependem não apenas de preços, mas de humores diplomáticos.
No fim, os semicondutores são como um alfabeto da era digital: cada transistor, uma letra microscópica compondo a gramática do poder. Quem os domina escreve a narrativa do século. Quem não os domina, lê de segunda mão — e descobre, tarde demais, que os maiores choques da história não acontecem nas trincheiras, mas no invisível.
Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.
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