Tambores na Lagoa: o barco-dragão chinês que cruzou oceanos e encontrou no Rio um palco de superação, inclusão e esperança

Com 26 equipes, remadoras que venceram o câncer e crianças da Rocinha, o 1º Open Dragon Boat Brasil transformou o Estádio de Remo da Lagoa em um símbolo da união entre China e Brasil, e provou que um esporte de 2 mil anos ainda tem muito a ensinar ao mundo

Rio de Janeiro, 21 de junho de 2026. O som dos tambores ecoou sobre as águas da Lagoa Rodrigo de Freitas durante todo o fim de semana. Não era apenas uma competição.

Era o encontro de duas culturas separadas por um oceano, unidas por um barco de 13,5 metros de comprimento, 20 remadores, um timoneiro e um baterista.

O 1º Open Dragon Boat Brasil, realizado nos dias 20 e 21 de junho no Estádio de Remo da Lagoa, marcou a estreia carioca de uma modalidade que a UNESCO reconhece como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade e que, no Brasil, já começa a escrever sua própria história.

O som do tambor que atravessa milênios

O Dragon Boat — ou barco-dragão — não é um esporte comum. Sua origem remonta ao século III a.C., na China antiga, quando o poeta Qu Yuan, símbolo de lealdade e patriotismo, saltou nas águas do rio Miluo em protesto contra a corrupção.

Diz a lenda que os moradores locais correram em barcos para salvá-lo, batendo tambores para afastar os peixes. O gesto deu origem ao Festival do Barco-Dragão, celebrado até hoje no quinto dia do quinto mês do calendário lunar chinês.

Mais de dois milênios depois, a tradição desembarcou no Rio de Janeiro com apoio da State Grid, patrocinadora oficial do evento, e organização técnica da Confederação Brasileira de Canoagem e da Federação de Canoagem do Estado do Rio de Janeiro.

"O Dragon Boat não é apenas um esporte, mas também uma cultura milenar de mais de 2 mil anos. "É um esporte aquático diferenciado", afirmou Arthur Chen, empresário e idealizador do evento, em entrevista exclusiva ao Jornal da República.

26 equipes em busca do título histórico.

A competição reuniu 26 equipes de diferentes estados brasileiros, divididas em baterias de quatro por vez. No sábado (20), as eliminatórias classificatórias definiram os finalistas. No domingo (21), as finais coroaram os campeões da primeira edição do Open.

Cada barco de Dragon Boat comporta 20 remadores distribuídos igualmente em ambos os lados, um timoneiro na popa e um baterista na proa, responsável por marcar o ritmo com um tambor.

A sincronia é tão importante quanto a força — um erro individual compromete o desempenho coletivo. Por isso, a modalidade é considerada uma das mais exigentes em termos de trabalho em equipe e disciplina.

A organização do evento, que contou com entrada franca, transformou a orla da Lagoa em um ponto de encontro para famílias, atletas e curiosos. "Estou convidando todo mundo a vir aqui assistir e conhecer o Dragon Boat", disse Arthur Chen. "É um evento familiar, com entrada gratuita, das 9h às 18h."

A ciência por trás da remada que cura

Entre os competidores, um grupo chamou a atenção do público e da imprensa: as Remadoras Rosas do Brasil.

Formado por mulheres que enfrentam ou já enfrentaram o câncer de mama, o movimento tem origens científicas. Nos anos 1990, o Dr. Don McKenzie, da Universidade de British Columbia, no Canadá, comprovou que o movimento repetitivo da remada em Dragon Boat reduz e previne o linfedema — um dos efeitos colaterais mais debilitantes do tratamento contra o câncer de mama.

O estudo derrubou o mito médico de que sobreviventes de câncer de mama deveriam evitar exercícios com os braços. Desde então, equipes de "remadoras rosas" se espalharam pelo mundo.

No Brasil, o movimento é liderado pela entidade Remadoras Rosa do Brasil, fundada por Cleusa Alonso, que fomenta a formação de equipes em todas as regiões do país.

As participantes competiram nas categorias BCS e BCP, representando diferentes estados. Para elas, o esporte vai além da competição — é reconstrução de autoestima, retomada da confiança no próprio corpo e fortalecimento de laços de solidariedade.

"O Dragon Boat representa união, superação e pertencimento. "Ver mulheres que enfrentaram o câncer encontrando no esporte uma nova forma de reconstruir a confiança e a qualidade de vida é uma das maiores conquistas deste projeto", afirmou Arthur Chen.

A Rocinha encontrou a Lagoa.

O festival também incluiu uma ação de inclusão social que emocionou os presentes. Crianças da Rocinha, uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro, participaram de atividades esportivas e educativas na Lagoa.

Para muitas delas, era o primeiro contato com modalidades náuticas — e, em alguns casos, a primeira vez no espelho d'água que define a paisagem da Zona Sul carioca.

A iniciativa conecta dois Brasis que raramente se encontram: o da comunidade e o do esporte de alto rendimento.

Ao levar crianças da Rocinha para remar lado a lado com atletas de ponta e sobreviventes de câncer, o Dragon Boat Brasil cumpriu uma função que transcende a competição: a de criar pontes sociais onde antes existiam muros invisíveis.

Brasil e China: um intercâmbio que vai além do esporte.

O Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026 foi concebido como um evento de intercâmbio cultural entre Brasil e China. Além das competições, a programação incluiu atrações culturais, experiências gastronômicas e atividades que celebraram a diversidade entre os dois países.

A escolha da Lagoa Rodrigo de Freitas como sede não foi casual. O Estádio de Remo da Lagoa é um dos cenários esportivos mais emblemáticos do Rio, palco de competições olímpicas e paralímpicas.

Receber ali um evento inédito, com entrada gratuita e programação familiar, representa uma democratização do acesso ao esporte náutico — tradicionalmente associado a clubes privados e alto poder aquisitivo.

Arthur Chen já projeta a continuidade do evento. "Quero continuar para trazer segunda edição, terceira edição, quarta edição, quinta edição." "Com certeza vai ser um sucesso", afirmou.

O barco que carrega esperança

O Dragon Boat carrega, literalmente, mais do que remadores. Carrega história, superação, ciência e inclusão. No mesmo barco em que sobreviventes de câncer encontram cura para o corpo e para a alma, crianças da Rocinha descobrem um esporte novo e atletas de elite disputam títulos.

Não há hierarquia a bordo — todos remam juntos, no mesmo ritmo, ouvindo o mesmo tambor.

Talvez seja essa a lição mais profunda que o barco-dragão trouxe para o Rio de Janeiro: a de que a verdadeira competição não é contra o outro, mas contra os próprios limites. E que, quando se rema junto, a força de um multiplica a força de todos.

Arthur Chen

Arthur Chen é empresário e idealizador do Dragon Boat Brasil e do Festival das Águas, responsável por trazer ao Rio de Janeiro a primeira edição do Open Dragon Boat Brasil.

Empreendedor com atuação na promoção do intercâmbio cultural entre China e Brasil, Chen articulou parcerias com a Confederação Brasileira de Canoagem, a Federação de Canoagem do Estado do Rio de Janeiro e a State Grid para viabilizar o evento na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Sua visão alia esporte, cultura, inclusão social e tradição milenar em um festival que une dois países e celebra a diversidade.

Arthur planeja dar continuidade ao evento, com edições anuais que consolidem o Dragon Boat como modalidade esportiva no calendário carioca. O festival pode ser acompanhado pelo site dragonboatbrasil.org e pelo Instagram @dragonboatbrasil.

 

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Ultima Hora em 21/06/2026
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