Um tapa, uma condenação criminal e R$ 163 milhões sob suspeita: O currículo de Quaquá, o vice do PT que quis ditar o suplente de Benedita e agora diz apoiar Pedro Paulo do PSD ‘Não voto em quem tem 80 anos'

Fundador do PT há 40 anos ou neófito de 37 anos: a verdadeira disputa por trás da suplência que rachou o partido no Rio

Um tapa, uma condenação criminal e R$ 163 milhões sob suspeita: O currículo de Quaquá, o vice do PT que quis ditar o suplente de Benedita e agora diz apoiar Pedro Paulo do PSD ‘Não voto em quem tem 80 anos'

Condenado pelo STJ e inelegível em 2018: Quaquá abandona Benedita e tenta dar lição de ética — a ironia que o PT não consegue esconder

Vice-presidente nacional do PT abandonou a candidatura da própria sigla para apoiar Pedro Paulo (PSD) e tenta pautar o debate com acusações de corrupção, mas acumula condenações criminais, eleitorais e no Tribunal de Contas

Quaquá trai o PT e comete suposto crime etário contra Benedita: ‘Não voto em quem tem 80 anos’

Aos 84 anos, sendo mais de 50 dedicados à vida pública, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) talvez nunca tenha vivido uma situação como a atual. Pré-candidata ao Senado com larga vantagem nas pesquisas — 34,2% das intenções de voto, segundo o Paraná Pesquisas —, ela viu o próprio vice-presidente nacional do seu partido, Washington Quaquá, não apenas retirar o apoio à sua candidatura como declarar voto no adversário Pedro Paulo (PSD). O motivo alegado por Quaquá: é ela ter 80 anos e a escolha do primeiro suplente de Benedita, Manoel Severino dos Santos, ex-presidente da Casa da Moeda.

A versão de Quaquá, no entanto, omite um detalhe essencial: Manoel Severino é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, serviu ao partido por décadas em cargos de confiança, foi secretário de Articulação Governamental no governo Benedita no Rio de Janeiro, integrou a Executiva Nacional do PT e sempre foi quadro técnico e político da sigla. Nunca foi condenado criminalmente. Em contraste, Quaquá acumula condenações criminais, eleitorais e administrativas em pelo menos três tribunais diferentes — e o STJ já bateu o martelo sobre uma delas.

O histórico de Manoel Severino: um quadro do partido, não um "enrolado"

Manoel Severino dos Santos não é um aventureiro na política. Fundador histórico do PT, ele foi o homem que Benedita escolheu para ser seu secretário de Articulação Governamental quando ela governou o Rio de Janeiro, em 2002. Foi também o tesoureiro da campanha dela ao governo naquele ano. Em 2016, quando o PT precisou de um nome de confiança para a campanha de Jandira Feghali à Prefeitura do Rio, foi novamente Manoel Severino o escolhido como tesoureiro, ao contrário do que insinua Quaquá, Manoel Severino nunca foi condenado criminalmente. Não há ação penal transitada em julgado contra ele.

Felipe Pires: o neófito de Quaquá

O homem que Quaquá queria ver como suplente de Benedita, o vereador carioca Felipe Pires (PT), tem 37 anos, é advogado e está no primeiro mandato como vereador. Nascido e criado na Vila Aliança, em Bangu, Felipe Pires é líder do PT na Câmara do Rio, mas sua trajetória política é recente — começou na vida pública há poucos anos, bem diferente das cinco décadas de militância de Manoel Severino. A questão que se coloca nos bastidores do partido é simples: por que razão Benedita, que construiu o PT desde a fundação, em 1980, deveria abrir mão de um quadro histórico do partido, com quem trabalha há mais de 40 anos, para colocar em sua chapa um nome indicado por Quaquá? O Vereador Netuno anuncia nas redes dezenas de denuncias, toda semana ele sobe ao plenário com mais irregularidades do Governo Quaquá que envia para o MP e TCE.

O histórico judicial de Quaquá: condenado em múltiplas instâncias

Enquanto Quaquá tenta pautar o debate acusando o suplente de Benedita, seus próprios problemas com a Justiça são extensos e documentados. Diferentemente de Manoel Severino, Quaquá já foi condenado criminalmente, tornou-se inelegível em mais de uma ocasião e responde a múltiplos processos por improbidade administrativa e suspeitas de desvio de recursos públicos.

Condenação criminal confirmada pelo STJ — Em julho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação de Washington Quaquá a 3 anos, 2 meses e 15 dias de reclusão, em regime inicial aberto, por expor aeronaves a perigo ao fechar o aeródromo de Maricá em 2013. A decisão partiu do desembargador convocado Carlos Cini Marchionatti, que entendeu que houve "criteriosa análise das provas e correta aplicação da lei". O MPF o denunciou pelo crime que, segundo a acusação, causou duas mortes ao comprometer a segurança do aeroporto.

Inelegível por oito anos e multado — Em 2013, Quaquá foi condenado pela Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro por abuso de poder político e econômico e tornou-se inelegível por oito anos. A condenação ocorreu porque, candidato à reeleição em 2012, ele reajustou a remuneração de parte dos servidores municipais em até 100% após o período permitido pela legislação. No TSE, o recurso foi derrotado por 7 votos a 0 em 2018, mantendo a condenação por fraude eleitoral e improbidade administrativa.

Condenação por improbidade administrativa — Em 2015, a 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro multou Quaquá por improbidade administrativa, em ação ajuizada pelo Ministério Público.

TCE-RJ mantém condenação por esquema milionário na coleta de lixo — Em março de 2026, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro manteve a condenação de ex-secretários e fiscais de contrato da gestão Quaquá por superfaturamento na coleta de lixo de Maricá. O contrato, firmado originalmente em 2013 no segundo mandato de Quaquá, gerou a determinação de devolução de quase R$ 15 milhões aos cofres públicos. A decisão foi do próprio TCE, que negou os recursos de reconsideração.

Licitação de R$ 106 milhões sob investigação — Em janeiro de 2026, o TCE-RJ abriu investigação sobre uma licitação de R$ 106 milhões para pavimentação em Maricá, na qual concorrentes foram eliminadas em série até a 18ª colocada ser declarada vencedora — uma empresa citada na Lava Jato. Relatório apontou que as desclassificações favoreceram a empresa, que havia ficado em 18º lugar no certame original. A Revista Veja noticiou o caso em janeiro de 2026.

Licitação de R$ 57 milhões suspensa — Em fevereiro de 2026, o TCE-RJ suspendeu outra licitação, de R$ 57 milhões, após apontar riscos aos cofres públicos.

MP Eleitoral pediu impugnação de candidatura — Em agosto de 2024, o Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação da candidatura de Quaquá à Prefeitura de Maricá, após um robô de inteligência artificial detectar irregularidades. A Corte constatou que as contas de Quaquá, quando prefeito, foram rejeitadas pelo TCE.

Candidatura negada pelo TRE — Em 2018, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro negou o registro de candidatura de Quaquá a deputado federal.

Operação Salus da Polícia Federal — Pelo menos três alvos da Operação Salus, que investigou desvios de R$ 70 milhões na Saúde de Maricá, foram indicados por Washington Quaquá, conforme revelou o Metrópoles em fevereiro de 2024.

Movimento interno no PT para expulsão — Desde janeiro de 2025, cresce dentro do PT um movimento para a expulsão de Quaquá, inclusive com a formação de um grupo para avaliar o processo.

Perfil: o tapa, a agressão e o decoro parlamentar

Depois de quase apanhar de um popular durante uma entrevista à Inter TV, afiliada da Rede Globo. Em dezembro de 2023, Quaquá protagonizou um episódio que ganhou repercussão mundial: durante uma sessão na Câmara, agrediu fisicamente o deputado Messias Donato (Republicanos-ES) com um tapa no rosto, após ser chamado de "ladrão" pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). "Dei tapa e daria três", declarou depois. O Conselho de Ética da Câmara analisou a cassação do mandato, e setores da oposição pediram sua cabeça.

Quem é Benedita da Silva

Enquanto Quaquá tenta se cacifrar para o Senado usando o discurso anticorrupção, a história de Benedita da Silva dispensa apresentações, foi a única Governadora a não ser presa e nem processada nos ultimos 30 anos de governo. Aos 84 anos, a ex-vereadora, ex-deputada federal constituinte, ex-senadora e ex-governadora do Rio de Janeiro é uma das figuras mais respeitadas da política brasileira. Pioneira, foi a primeira mulher negra a ocupar cada um desses cargos na história do país. Fundadora do PT em 1980, construiu o partido ao lado de Lula, Lélia Gonzalez e tantos outros. Seu slogan de campanha em 1982 — "negra, mulher e favelada" — tornou-se símbolo de resistência. Hoje, aos 84 anos, ela lidera as pesquisas para o Senado e conta com o apoio do presidente Lula e da Executiva Nacional do PT.

A ironia que o PT não consegue esconder

A situação é, no mínimo, paradoxal. Quaquá, vice-presidente do partido, condenado criminalmente pelo STJ, inelegível por oito anos, multado por improbidade, alvo de duas investigações do TCE que somam R$ 163 milhões em licitações suspeitas e investigado pela PF, abandona a candidatura oficial do PT para apoiar um nome do PSD — e justifica a decisão dizendo que o suplente de Benedita é "envolvido em escândalos".

Para a direção nacional do PT, a situação se tornou insustentável. Em maio de 2026, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, interveio pessoalmente na queda de braço e deu razão a Benedita. Mas Quaquá, contrariado, levou a disputa para as redes sociais e declarou voto em Pedro Paulo.

A pergunta que fica, nos corredores do PT e nas urnas, é uma só: quem, afinal, tem mais condições de falar de ética e corrupção?

Fontes: STJ (Superior Tribunal de Justiça), TRE-RJ, TSE, TCE-RJ, TJ-RJ, Ministério Público Federal, Ministério Público Eleitoral, Polícia Federal (Operação Salus), Congresso em Foco, O Globo, Veja, Estadão, CartaCapital, Folha de S.Paulo, ConJur, G1, UOL, Metrópoles, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Revista Fórum, Temporeal RJ, PlatôBR, InfoMoney, Agência Brasil, Transparência Brasil, JOTA, Paraná Pesquisas, ICL Notícias, Agenda do Poder, Correio Braziliense, Instituto Não Aceito Corrupção

Biografia

Benedita da Silva — Benedita Souza da Silva Sampaio nasceu no Rio de Janeiro em 26 de abril de 1942, numa comunidade carente do Chapéu Mangueira, no Leme. Foi auxiliar de enfermagem, assistente social e professora antes de entrar para a política. Em 1982, elegeu-se vereadora pelo PT com o histórico slogan "negra, mulher e favelada". Em 1986, tornou-se a primeira mulher negra deputada federal constituinte. Em 1994, elegeu-se a primeira senadora negra do Brasil, com mais de 2,4 milhões de votos. Foi vice-governadora do Rio (1998) e, em 2002, tornou-se a primeira governadora negra do país. Foi ministra do Governo Lula e é reconhecida internacionalmente por sua luta pelos direitos das mulheres, da população negra e dos moradores de favelas. É autora da lei que regulamentou a profissão de trabalhador doméstico — um marco na história social do Brasil. Aos 84 anos, segue como uma das vozes mais respeitadas do Parlamento brasileiro.

Washington Quaquá — Washington Luiz Cardoso Siqueira nasceu em São Gonçalo (RJ) em 31 de março de 1971, e cresceu na Favela do Caramujo, em Niterói. Filiou-se ao PT aos 14 anos. Foi prefeito de Maricá por dois mandatos (2009-2016) e retornou ao cargo em 2025 para o terceiro mandato. Foi deputado federal entre 2023 e 2024. Sempre flerta com Bolsonarista como Altineu e Pazzuelo e corruptos e condenados como Eike Batista, Brazão, Sergio Cabral. Acumula condenações criminais (STJ), eleitorais (TRE-RJ, TSE) e administrativas (TCE-RJ), além de ser alvo de investigação da Polícia Federal.

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Por Ultima Hora em 19/06/2026
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