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O deputado estadual Val Ceasa (PRD) afirmou, durante a sessão plenária desta quinta-feira (18) na Assembleia Legislativa (Alerj), que estaria sendo alvo de "perseguição política" após a operação deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil. O discurso, no entanto, omite que a investigação é desdobramento de oito meses de apuração, com provas documentais, áudios e testemunhos que apontam para uma suposta relação do parlamentar com o Terceiro Comando Puro (TCP).
A fachada que ruiu: a placa do "projeto social"
A investigação que culminou nos 14 mandados de busca e apreensão desta quinta-feira — um deles cumprido na própria Alerj — começou em outubro de 2024, quando agentes da Polícia Civil encontraram uma placa na entrada do esconderijo do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do TCP no Complexo de Israel.
O banner, com fundo azul e letras brancas e amarelas, anunciava um "Projeto Social da Criança ao Idoso" e trazia estampados os nomes do deputado Val Ceasa, do ex-vereador Ulisses Marins (União) e da deputada federal Dani Cunha (União). O endereço do projeto social, no entanto, era o portão do "Resort Green" — um complexo de luxo do traficante com lago artificial contendo 200 carpas, piscina, sauna, churrasqueira, academia e areia de praia.
A Polícia Civil já na ocasião classificou a iniciativa como "ação social de fachada".
Procurado, Val Ceasa disse desconhecer o projeto e afirmou que nunca esteve no local.
Interferência documentada: o dossiê da Seop
O G1 teve acesso nesta quinta-feira (18) a um relatório da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) que documenta, em detalhes, a interferência política que teria impedido a demolição do resort por um ano e meio.
Segundo o documento, a operação foi marcada para dezembro de 2023 e cancelada após pressão de políticos. Remarcada para outubro de 2024, foi novamente abortada. O relatório descreve "pressão política direta", vazamento de informações da operação e sucessivos adiamentos viabilizados por articulações nos bastidores do poder utilizando a farsa do projeto social como escudo administrativo.
O resort só veio abaixo em março de 2025. As imagens de crianças da comunidade tomando conta do lago artificial do traficante correram o país.
Os números da operação
Na manhã desta quinta, agentes da Coordenadoria de Segurança e Inteligência do MP-RJ e da Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro da Polícia Civil cumpriram 14 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a três agentes públicos:
Val Ceasa (PRD) — deputado estadual, alvo principal
Ulisses Marins — ex-vereador e atual servidor municipal
Ex-assessor parlamentar — funcionário de empresa pública de energia
Na residência do deputado, os agentes apreenderam valores em espécie que variam, conforme a fonte, entre R$ 166 mil e R$ 341 mil. A Polícia Civil também encontrou cinco armas de fogo e munições, segundo informações do portal TNH1.
Os investigadores agora analisam a compatibilidade do montante com a renda lícita declarada pelo parlamentar — cujo subsídio bruto como deputado estadual é de aproximadamente R$ 35 mil mensais.
Áudios e o voto no curral do tráfico
Além das provas materiais, as investigações encontraram áudios que apontam para a tentativa do grupo de impedir a demolição do resort. O conteúdo completo das gravações ainda não foi divulgado.
Um levantamento de março de 2025 mostrou ainda que Val Ceasa e Ulisses Marins têm votação expressivamente maior nas áreas sob domínio territorial do TCP, padrão que investigadores apontam como indício de "curral eleitoral" sustentado pela simbiose entre mandato parlamentar e poder armado.
O discurso na tribuna
Na sessão plenária desta quinta, Val Ceasa utilizou a tribuna da Alerj para rebater as acusações. Disse que considera "normal" ser investigado e comparou seu caso ao do ex-vereador Salvino Oliveira (PSD), que teve uma investigação arquivada por "uso político da Polícia Civil".
"Todo ser humano pode ser investigado, isso é normal. Por que eu não posso ser investigado? O filho do Lula está sendo investigado, quanto mais eu, um deputado humilde da Zona Norte", afirmou.
A comparação, no entanto, encontra resistência entre juristas ouvidos pela reportagem. O caso Salvino Oliveira envolvia investigação por suposta quebra de decoro parlamentar — arquivada por falta de provas. O caso de Val Ceasa, por sua vez, baseia-se em evidências materiais: dinheiro em espécie apreendido, áudios, relatório oficial da Seop documentando interferência, e a placa do projeto social de fachada.
"Eu estou sofrendo essa perseguição política, mas Deus e a justiça vão provar que a gente é gente de bem", concluiu o deputado.
O que vem pela frente
Com as buscas concluídas, o MP-RJ tem prazo legal para oferecer denúncia. Os próximos passos incluem:
Análise dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos investigados
Oitiva formal dos três alvos
Perícia nos celulares e documentos apreendidos
Decisão sobre eventual pedido de medidas cautelares, como suspensão do mandato
A Alerj informou estar à disposição para colaborar com as investigações. O deputado, que integrava a Corregedoria da Casa — órgão responsável por investigar a conduta dos próprios colegas —, não informou se pretende se afastar do cargo.
Com informações de G1, O Globo, UOL, CNN Brasil, Veja e Agência Brasil.
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