A GUERRA ERRADA, CONTRA O INIMIGO ERRADO, NA HORA ERRADA

Gen Marco Aurélio Vieira – Junho 2026

A GUERRA ERRADA, CONTRA O INIMIGO ERRADO, NA HORA ERRADA

“O primeiro ato de avaliação, o maior deles, de maior alcance que o político e o comandante devem fazer é estabelecer em que tipo de guerra estão se envolvendo, não se enganando com relação a ela, e nem tentando transformá-la em algo que seja alheio à sua natureza. Esta é a primeira de todas as questões estratégicas e a mais abrangente.

Carl Von Clausewitz in Da Guerra

A história da humanidade é, em sua essência, uma crônica das guerras. Estima-se que, em 5.600 anos, vivemos apenas 268 anos de paz plena — meros 8% do tempo histórico registrado. Esse realismo sangrento desautoriza teses otimistas, como a do "fim da história" do cientista político nipo-americano Francis Fukuyama. O mundo não convergiu para uma paz liberal; ao contrário, assistimos ao ressurgimento de impérios autoritários, ao capitalismo de Estado chinês e ao pragmatismo militarista.

Nesse tabuleiro, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA marca uma "chacoalhada geoestratégica" global. Sob o lema "América Primeiro", Washington recalibrou suas prioridades: contenção tecnológica da China, protecionismo econômico e a reafirmação da Doutrina Monroe. Enquanto o mundo se fragmenta atualmente em cerca de 120 conflitos armados ativos, e na consolidação do que podemos chamar de Primeira Guerra Híbrida Mundial, o Brasil parece navegar sem bússola, guiado por impulsos ideológicos que ignoram a realidade do poder.

Ao longo de seus mandatos, o Presidente Lula tem falhado em definir uma orientação geopolítica coerente com o peso do país. Em vez de uma estratégia de Estado, o que se vê são opiniões pessoais descoladas das raízes culturais e dos interesses econômicos da nação. A atual política externa brasileira opta pelo alinhamento com regimes totalitários e por um “pacifismo moralista de diretório acadêmico", enquanto trava uma "guerra fria" retórica contra os EUA — nosso aliado histórico e maior potência militar do globo.

As declarações presidenciais, que comparam adversários ideológicos ao nazismo, consideram traficantes como vítimas dos usuários de drogas, ou questionam a hegemonia do dólar no comércio global, sem uma devida retaguarda econômica, ou mínimo poder militar, expõem o país ao ridículo internacional. Esse cenário torna-se ainda mais grave diante do "sincericídio estratégico" do Ministro da Defesa, José Múcio, ao admitir que a proteção do território brasileiro é "precaríssima" e incompatível com nossas necessidades estratégicas.

Há três interpretações possíveis para o atual comportamento do Executivo: uma ignorância profunda sobre segurança nacional; uma desarticulação total entre a presidência e o comando militar; ou, no pior dos casos, um conluio para provocar reações externas e capitalizar politicamente sobre uma suposta "violação da soberania".

Enquanto o governo foca em narrativas ideológicas e críticas ao "imperialismo", e atribui superpoderes de influência na política externa americana a um deputado autoexilado que mal sabe falar inglês, a soberania real se esvai internamente: cerca de 30 milhões de brasileiros vivem sob o domínio de facções criminosas e milícias; o capital chinês já ocupa uma posição de domínio estratégico no país; e não há qualquer planejamento de Estado para fazer frente à fragmentação econômica global. O Brasil está totalmente exposto às retaliações comerciais, enquanto o crime organizado transnacional já bate à porta, lucrando com a falta de uma estratégia de defesa robusta e integrada. Detalhe: países não têm amigos, e presidentes americanos têm interesses americanos.

A herança cultural brasileira é ocidental e democrática. Não há afinidade popular ou histórica que legitime o atual flerte com o autoritarismo russo, chinês ou islâmico, ou ainda que justifique o isolamento em relação aos nossos parceiros comerciais tradicionais. Fomentar hostilidades contra o governo Trump, e fabricar uma imagem de defensor da “soberania” do país, apenas para alimentar dividendos eleitoreiros internos, não só é hipocrisia e cinismo, mas também um erro histórico de proporções trágicas.

O Brasil não pode se dar ao luxo de brincar de geopolítica com uma defesa desaparelhada e uma diplomacia paroquial. Um governo sem estratégia reduz-se à sobrevivência diária, e é incapaz de construir futuros. Ao virar as costas para a realidade e abraçar a barbárie ideológica, o atual governo não protege a soberania; ele a sabota. Soberania sem poder militar é suicídio; diplomacia sem inteligência é cilada. O custo dessa vaidade ideológica será cobrado em atraso, isolamento e na irrelevância internacional do Brasil, no restante século.

 

 Gen Marco Aurélio Vieira

 Foi Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de Infantaria Paraquedista

Por Ultima Hora em 17/06/2026
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