A segunda âncora

Bancos centrais voltam a comprar ouro como não se via desde Bretton Woods — não por nostalgia, mas por cálculo estratégico.

A segunda âncora

Por Lívia Louvel

Em 1968, uma fila silenciosa formou-se diante dos cofres da Reserva Federal dos Estados Unidos. Não eram cidadãos comuns — eram governos inteiros, atravessando o Atlântico com certificados e exigindo ouro físico em troca de dólares. A pressão sobre a paridade de US$ 35 por onça atingira seu limite: o London Gold Pool, acordo que sustentava silenciosamente o equilíbrio monetário desde 1961, desmoronava sob o peso da própria promessa. Aquilo que fora concebido como um pilar da ordem financeira internacional — o sistema de Bretton Woods — começava a ceder. A confiança, então, não desapareceu de repente; foi sendo reprecificada, pouco a pouco, conforme os países perceberam que a conversibilidade irrestrita tinha um custo insustentável para quem a emitia. Com Nixon, em 1971, a conversão foi suspensa e o ouro saiu formalmente de cena. Mas ele nunca saiu de fato.

Cinquenta anos depois, as filas são menos visíveis, mas os cofres voltaram a ser visitados. Nos últimos anos, bancos centrais vêm acumulando ouro em volumes que não se viam desde aquele período que precedeu a ruptura do sistema de paridades fixas. Hoje, a cena se repete, com outros rostos e outros instrumentos. Não se trata de um retorno ao passado — a história não se repete dessa forma —, mas há algo de profundamente revelador nesse gesto coletivo: quando o futuro se torna incerto, os Estados reagem com instrumentos que não dependem da confiança em terceiros.

O ponto de inflexão teve natureza essencialmente política. O congelamento das reservas internacionais da Rússia, em 2022, deslocou a percepção de risco soberano de modo mais profundo do que qualquer comunicado de política monetária. Mostrou, de forma inequívoca, que ativos em moeda de reserva carregam também a marca de sua jurisdição. Foi nesse instante — discreto, mas decisivo — que muitos bancos centrais começaram a recalibrar seus portfólios. Não como quem aposta contra uma moeda, mas como quem prepara terreno para cenários que não controla.

A partir daí, o movimento ganhou corpo. As compras oficiais, que voltaram a ganhar fôlego naquele ano, mantiveram-se em patamares historicamente elevados nos anos seguintes. Em 2025, o protagonismo ficou mais nítido: Polônia, Turquia, China e Cazaquistão lideraram o avanço, reforçando a busca por reservas menos dependentes de terceiros. Bancos centrais não compram ouro por impulso. Compram para guardar. E, ao fazê-lo, retiram metal de circulação, apertando silenciosamente a oferta global.

Apesar do predomínio do movimento de acumulação, alguns bancos centrais fizeram ajustes marginais — gestos mais táticos do que estratégicos. Singapura, por exemplo, alienou cerca de 10 toneladas no primeiro semestre deste ano, movimento pequeno diante das centenas de toneladas adquiridas globalmente. Outros, como Uzbequistão, Indonésia e Rússia, venderam por razões fiscais, cambiais ou domésticas, sem alterar a direção do fluxo: em um cenário de incerteza global, o ouro continua sendo acumulado em escala líquida pelos bancos centrais.

Foi então que uma outra camada se formou. Relatórios recentes da Reuters e do World Gold Council descrevem como a wild ride (trajetória vertiginosa) do ouro entrou em nova fase em 2025, impulsionada por especuladores e investidores de varejo. O movimento institucional abriu caminho, e o capital privado acelerou a marcha. O FOMO — essa gramática moderna do medo de ficar para trás — deu contornos definitivos ao movimento.

O resultado foi uma alta acelerada, não muito diferente da pressão sobre a paridade dólar-ouro no final dos anos 1960. Lá, o descompasso vinha do excesso de dólares emitidos para sustentar a hegemonia americana. Hoje, vem da constatação de que nenhum ativo carrega neutralidade perfeita — nem mesmo as moedas de reserva. O ouro não volta a ser protagonista por virtude intrínseca, mas porque ocupa um lugar singular: não promete nada, não depende de ninguém e, por isso mesmo, torna-se relevante quando as promessas perdem peso.

O movimento também tem uma dimensão contábil e institucional, que revela muito sobre sua natureza profunda. O Fundo Monetário Internacional registra as reservas de ouro em uma categoria que inclui metal físico, depósitos e operações de swap. A forma como cada país valoriza esses ativos, porém, varia: alguns usam o preço de mercado, outros mantêm o custo histórico ou criam contas de reavaliação. Como mostram estudos do Bank for International Settlements, essas diferenças não são detalhes técnicos, mas expressões de regimes monetários distintos — uns tratam o ouro como ativo financeiro, outros como pilar de solidez patrimonial. Em última instância, o ouro é simultaneamente contabilidade e política.

Isso ajuda a compreender por que a escalada atual não se confunde com uma corrida especulativa. Trata-se, sobretudo, de uma reconfiguração estratégica, em que autonomia volta a ser palavra-chave. Bancos centrais não abandonaram o dólar — que continua sendo a espinha dorsal das reservas internacionais —, mas estão recompondo pesos relativos, reduzindo vulnerabilidades, adicionando camadas de segurança a portfólios soberanos.

A posição do dólar no sistema internacional é mais sólida no núcleo do que na periferia. Nas reservas cambiais oficialmente alocadas — o coração líquido da arquitetura financeira global — ele responde por cerca de 56% dos ativos. Mas, à medida que o conceito de reserva se alarga e incorpora ouro, fundos soberanos e outros instrumentos, essa participação se dilui. Não porque o dólar tenha encolhido em termos absolutos, mas porque outros ativos ganharam espaço. A hegemonia, nesse plano mais amplo, deixa de ser monopólio e passa a ser predominância.

Mais do que uma decisão financeira, trata-se de um gesto político silencioso. A revalorização do ouro reflete uma leitura estratégica do mundo: quando a confiança se torna variável — e não mais pressuposto —, os Estados buscam lastros que resistam à oscilação das vontades. O movimento atual não é um grito, mas um sussurro coordenado. Não propõe um novo sistema, mas revela que a estabilidade do existente deixou de ser assumida como dado. A segunda âncora não substitui a primeira — apenas a equilibra.

A última vez em que o ouro ocupou esse lugar de bastidor foi num momento em que a ordem monetária internacional estava prestes a mudar. Hoje, ele volta não como instrumento de ruptura, mas como contrapeso silencioso, a segunda âncora de um sistema que já não deposita toda a sua confiança em uma só. O ouro não emite comunicados, não precisa de consensos multilaterais, não depende de legitimidade política. Apenas permanece — e, quando o mundo se torna mais incerto, permanecer é um ato de poder.

 

Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

Por Ultima Hora em 23/10/2025
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