Benedita lidera e Crivella aparece em segundo, mas 59% dos eleitores fluminenses ainda estão indecisos ou vão anular o voto ao Senado

Canella sente efeito da Operação Unha e Carne e cai na pesquisa ao Senado; sete candidatos empatam tecnicamente pela segunda vaga

Benedita lidera e Crivella aparece em segundo, mas 59% dos eleitores fluminenses ainda estão indecisos ou vão anular o voto ao Senado

Quaest: Benedita da Silva lidera com 11% e Crivella aparece com 8% na corrida ao Senado; indecisos e abstenções somam 59%

Rio de Janeiro — A segunda rodada da pesquisa Genial/Quaest sobre a disputa pelas duas vagas do Rio de Janeiro no Senado Federal, divulgada nesta segunda-feira, revela um cenário de acirrada dispersão e alto desencanto do eleitorado. A deputada federal Benedita da Silva, do PT, aparece na liderança com 11% das intenções de voto, seguida pelo ex-prefeito e ex-senador Marcelo Crivella, do Republicanos, com 8%. O dado mais expressivo, no entanto, está no tamanho do eleitorado que ainda não escolheu um candidato ou simplesmente rejeita as opções disponíveis: 22% estão indecisos e 37% afirmam que votarão nulo, em branco ou não comparecerão às urnas. Somados, os dois grupos representam 59% dos eleitores fluminenses.

O levantamento, encomendado pela Genial Investimentos, ouviu 1.200 eleitores entre os dias 21 e 25 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Os números indicam que a corrida ao Senado está ainda mais indefinida que a disputa ao governo do estado, onde Eduardo Paes lidera com 38%.

Benedita da Silva comemora os 84 anos: Da Lei das Domésticas ao combate ao feminicídio. A mulher que moldou os direitos civis no Brasil lidera pesquisas para o Senado

A liderança de Benedita e a força do eleitorado petista

Benedita da Silva, 84 anos, construiu sua vantagem sobre o eleitorado fiel do PT. Primeira senadora negra do Brasil e primeira mulher negra a governar um estado brasileiro (2002-2003), ela carrega uma trajetória que começa na favela do Chapéu Mangueira, no Leme, onde nasceu e foi criada. Filha de pedreiro e lavadeira, formou-se em Serviço Social e tornou-se auxiliar de enfermagem antes de ingressar na vida política ainda nos anos 1980.

Sua candidatura ao Senado foi anunciada em dezembro de 2025, quando declarou ao Valor Econômico que não queria mais concorrer à Câmara dos Deputados — onde está desde 2011 — e que seu objetivo era retornar à Casa Alta, onde ocupou uma cadeira entre 1995 e 1998. O apoio do presidente Lula e a força do PT na capital fluminense sustentam seus 11% nas pesquisas.

O desafio de Benedita é ampliar seu conhecimento fora do eleitorado petista. Seu nome é mais conhecido na capital e entre o eleitorado de esquerda, mas ela precisa crescer no interior e na Região Metropolitana para consolidar uma das duas vagas.

Laei ainda: 'Foi uma das maiores convenções que já participei', diz Crivella ao ser lançado candidato ao Senado ao lado de Garotinho - Ultima Hora Online

Crivella busca a redenção eleitoral

Marcelo Crivella, 67 anos, ex-prefeito do Rio (2017-2020) e ex-senador (2002-2017), aparece em segundo lugar com 8%. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do fundador Edir Macedo, Crivella construiu uma carreira política baseada no voto evangélico e em sua atuação no Senado, onde foi presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Sua candidatura ao Senado pelo Republicanos foi homologada na mesma convenção que oficializou Anthony Garotinho para o governo e Waguinho para a outra vaga ao Senado, realizada no sábado, 25 de julho, no Club Municipal da Tijuca. A chapa de ex-prefeitos aposta na força do recall eleitoral e na base evangélica para reconquistar espaço no estado.

Crivella, no entanto, carrega alta rejeição. Sua gestão à frente da Prefeitura do Rio foi marcada por polêmicas e sua saída foi turbulenta. Ele tenta agora se reabilitar politicamente com um discurso de experiência administrativa e conhecimento de Brasília.

Operação Unha e Carne abala candidatura de Canella

O terceiro lugar na pesquisa traz uma história que merece atenção. O ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), que já figurou na segunda posição em levantamentos anteriores, aparece com 4%, empatado tecnicamente com Carlos Portinho (PL). O recuo de Canella está diretamente ligado aos eventos dos últimos 20 dias.

No dia 7 de julho, a Polícia Federal deflagrou a 6ª fase da Operação Unha e Carne, que investiga a ligação de agentes públicos com organizações criminosas. Canella foi alvo de mandados de busca e apreensão. Durante a operação, os agentes encontraram um fuzil em um de seus carros, o que levou à sua prisão. Três dias depois, ele foi liberado após a confirmação de que a arma estava legalmente registrada em nome de um de seus seguranças.

O episódio, no entanto, deixou marcas na campanha. A imagem do ex-prefeito preso ao lado de um fuzil — ainda que a arma estivesse legal — foi amplamente divulgada e pode ter contribuído para a estagnação de suas intenções de voto. Sem Canella na disputa, os cenários testados pela Quaest mostram Benedita subindo para 12% e Crivella para 9%.

O pelotão intermediário e a briga pela segunda vaga

Abaixo dos líderes, um grupo de sete candidatos aparece empatado tecnicamente na faixa entre 1% e 4%, configurando uma das disputas mais embaralhadas da eleição de 2026 no Rio de Janeiro.

Carlos Portinho (PL), atual senador que busca a reeleição, tem 4%. Sua candidatura sofreu um golpe duro com a desistência de Cláudio Castro de concorrer ao Senado, anunciada em maio após operações da Polícia Federal contra o ex-governador. Sem o apoio da máquina estadual e com o desgaste da gestão Castro — que tem 54% de desaprovação —, Portinho tenta se descolar do governo anterior e capitalizar o voto bolsonarista.

Alessandro Molon (PSB), ex-deputado federal e ex-líder da oposição na Câmara, aparece com 3%. Sua candidatura busca o eleitorado de centro-esquerda, mas ele enfrenta a concorrência direta de Benedita pelo mesmo nicho.

Mônica Benício (PSOL), viúva da vereadora Marielle Franco, também registra 3%. Sua candidatura ao Senado é uma das mais simbólicas do estado, carregando o legado de Marielle e o apoio dos movimentos de direitos humanos. Mônica tem potencial de crescimento entre o eleitorado jovem e progressista da capital.

Pedro Paulo (PSD), deputado federal e aliado de Eduardo Paes, tem 3%. Sua candidatura é vista como parte do acordo político do PSD para compor a chapa majoritária com o ex-prefeito. Pedro Paulo é um nome conhecido do eleitorado carioca, tendo sido secretário municipal de Fazenda e presidente da Câmara dos Vereadores do Rio.

Waguinho (Republicanos), ex-prefeito de Belford Roxo, também aparece com 3%. Sua base está concentrada na Baixada Fluminense, região que concentra cerca de 25% do eleitorado estadual. Waguinho é uma das principais apostas do Republicanos para o Senado, ao lado de Crivella. Sua trajetória — de faxineiro da Câmara Municipal a prefeito de Belford Roxo — é um dos trunfos que ele carrega para a campanha.

Marcos Dias (Podemos) e Sávio Neves (PSDB) aparecem com 1% cada. Hélio Secco, do Missão, registrou 0%.

Abstenção e rejeição dominam o cenário

O dado mais preocupante da pesquisa para os candidatos ao Senado é o altíssimo índice de eleitores que pretendem anular o voto, votar em branco ou simplesmente não comparecer às urnas: 37%. Somados aos 22% de indecisos, o total de eleitores que ainda não estão efetivamente engajados na disputa chega a 59%.

Esse fenômeno não é novo nas eleições para o Senado, onde as candidaturas tradicionalmente têm menos visibilidade do que as disputas majoritárias para o governo e a Presidência. Mas o índice de 37% de abstenção declarada é particularmente alto e revela um desencanto do eleitorado fluminense com a classe política.

A fragmentação das candidaturas — são 12 nomes na disputa — também contribui para a dispersão dos votos. Com tantos candidatos, o eleitor médio tem dificuldade de identificar quem são os postulantes e quais suas propostas. O voto útil, que costuma se consolidar nas semanas finais da campanha, ainda não ocorreu.

O histórico das eleições ao Senado no Rio

O Rio de Janeiro tem um histórico de disputas acirradas ao Senado. Em 2018, Flávio Bolsonaro (então no PSL) foi eleito com 31% dos votos válidos, seguido por Arolde de Oliveira (PSD), com 21%. Em 2022, Romário (PL) foi eleito com 28% dos votos válidos, em uma disputa que também teve alto índice de abstenção.

Desta vez, o cenário é ainda mais embaralhado, em parte porque não há um nome unificado da direita. O bolsonarismo está dividido entre Carlos Portinho (PL) e Douglas Ruas (PL) — que concentra sua campanha no governo. A esquerda está representada por Benedita (PT), Molon (PSB) e Mônica Benício (PSOL). O centro e a centro-direita se fragmentam entre Crivella, Waguinho, Pedro Paulo, Canella e outros.

O que esperar da campanha ao Senado

A pesquisa de julho representa o marco zero de uma disputa que ainda pode passar por transformações significativas. Com 59% do eleitorado entre indecisos e propensos à abstenção, o potencial de crescimento para qualquer candidato que consiga se comunicar efetivamente é enorme.

Dois fatores serão decisivos nos próximos meses. O primeiro é o horário eleitoral gratuito, que começa em agosto. Com 12 candidatos na disputa, o tempo de TV será fragmentado, mas aqueles que tiverem maior exposição podem deslanchar. Benedita conta com o tempo do PT e da federação PT-PCdoB-PV. Crivella e Waguinho dividem o tempo do Republicanos. Portinho tem o tempo do PL.

O segundo fator é a rejeição. Crivella, com seu histórico polêmico à frente da Prefeitura do Rio, tende a ter rejeição elevada, o que limita seu potencial de crescimento. Benedita é mais conhecida e tem rejeição menor, mas precisa ampliar seu alcance além do eleitorado petista. Waguinho e Canella disputam o mesmo eleitorado da Baixada Fluminense e podem se canibalizar.

O cenário mais provável, neste momento, é que Benedita e Crivella cheguem à frente no primeiro turno, mas a disputa pela segunda vaga segue em aberto como nunca. O alto índice de indecisos e abstenções, no entanto, é um lembrete de que a eleição ao Senado ainda não começou de fato para a maioria dos fluminenses.

Biografia: Benedita da Silva

Benedita Sousa da Silva Sampaio nasceu no Rio de Janeiro em 26 de abril de 1942, na favela do Chapéu Mangueira, no Leme. Filha de um pedreiro e uma lavadeira, enfrentou desde cedo as dificuldades da pobreza e do racismo. Formou-se em Serviço Social e tornou-se auxiliar de enfermagem, profissões que a colocaram em contato direto com as demandas das comunidades carentes. Sua militância política começou nos movimentos de base da Igreja Católica e nas associações de moradores, ainda nos anos 70 e 80. Filiou-se ao PT e, em 1982, elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro. Em 1986, foi eleita deputada federal constituinte, participando ativamente da elaboração da Constituição de 1988. Em 1994, fez história ao tornar-se a primeira senadora negra do Brasil. Em 2002, tornou-se a primeira mulher negra a governar um estado brasileiro, assumindo o governo do Rio de Janeiro após a renúncia de Anthony Garotinho para concorrer à Presidência. Foi também ministra do governo Lula e secretária municipal de Assistência Social no Rio. Aos 84 anos, Benedita é uma das figuras mais emblemáticas da política brasileira — símbolo da luta das mulheres negras, das trabalhadoras domésticas e das favelas. Sua candidatura ao Senado em 2026 carrega o peso de uma trajetória de superação que atravessa mais de quatro décadas de vida pública.

Fontes: Pesquisa Genial/Quaest — Registro TSE: RJ-02671/2026 e BR-07670/2026. Realizada entre 21 e 25 de julho de 2026. 1.200 entrevistas. Margem de erro: 3 p.p. Nível de confiança: 95% | O Globo — "Ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, preso pela PF durante Operação Unha e Carne" (11.jul.2026) | G1 — "Quaest para o Senado no RJ: Benedita e Crivella lideram cenários" (27.jul.2026) | UOL — "Genial/Quaest: os números para o Senado no Rio de Janeiro" (27.jul.2026) | Wikipedia — verbete "Benedita da Silva" | Senado Federal — Perfil de Benedita da Silva | Valor Econômico — "Eu estou candidata ao Senado, diz Benedita da Silva" (dez.2025)

#BeneditaDaSilva #MarceloCrivella #Senado #Eleições2026 #PesquisaQuaest #GenialQuaest #RioDeJaneiro #PolíticaCarioca #PT #Republicanos

Por Ultima Hora em 27/07/2026
Aguarde..