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Uma noite para o audiovisual carioca.
O Cinema DelArt, no Shopping Barra Point, foi palco de uma edição histórica do Festival Expressa 2026. A Zona Oeste do Rio de Janeiro, frequentemente relegada a coadjuvante nos roteiros culturais da cidade, transformou-se em ponto de encontro obrigatório para profissionais do audiovisual brasileiro.
Idealizado e dirigido artisticamente por Fernando Ferraz, ator, diretor e empresário que acaba de desembarcar do Festival de Cannes, o evento consolidou-se como plataforma de convergência entre televisão, cinema, teatro e comunicação.
A programação mesclou homenagens a profissionais consagrados, pré-estreias de projetos inéditos, debates setoriais e oportunidades de negócio.
O formato reflete a visão de Ferraz sobre a indústria: um ecossistema em que a formação técnica, a circulação de talentos e a produção independente precisam caminhar juntas.
O idealizador: trajetória de dentro para fora.
Fernando Ferraz não é nome novo no cenário artístico. Com mais de 16 anos de carreira construídos no Rio de Janeiro, sua trajetória combina três frentes que raramente se encontram num mesmo profissional: a atuação artística propriamente dita, a formação de novos talentos e a gestão empresarial de projetos culturais.
Como ator e diretor, acumula créditos em novelas, séries e cinema. Como preparador de elenco — ou acting coach, na terminologia internacional — comanda a Escola Oficina FF, instituição voltada à formação de atores no Rio de Janeiro. Como empresário, é CEO da AZ Entretenimento, produtora que vem estruturando pontes entre o mercado brasileiro e o europeu.
Sua presença mais recente no Festival de Cannes e no festival Cine por Mujeres, em Madri, não foi mero passeio institucional. Ferraz participou do Marché du Film, o mercado de coproduções mais relevante do mundo, articulando parcerias criativas que começam a dar frutos no Expressa 2026.
A internacionalização da carreira — com conexões sólidas em Madri e Cannes — reposiciona o Festival Expressa não apenas como evento local, mas como vitrine para coproduções Brasil-Europa.
Programação estratégica
O Festival Expressa 2026 estruturou-se em quatro pilares complementares:
Homenagens — Reconhecimento a profissionais que construíram carreiras significativas no audiovisual brasileiro, muitos deles com trajetórias iniciadas antes da explosão das plataformas de streaming.
Pré-estreias — Exibição antecipada de projetos inéditos, permitindo que produtores independentes testem a recepção do público e da crítica antes do lançamento comercial.
Debates setoriais — Mesas-redondas sobre distribuição, financiamento, diversidade e os desafios da produção independente num mercado cada vez mais dominado por gigantes do streaming.
Networking — sessões estruturadas de conexão entre profissionais, um dos pontos mais valorizados por participantes em edições anteriores.
A escolha do Cinema DelArt como sede não é aleatória. A Barra da Tijuca, como epicentro da Zona Oeste, concentra parcela significativa do público consumidor de cultura da cidade, mas historicamente carece de eventos que reúnam a cadeia produtiva do setor. O Expressa 2026 preenche esse vazio.
A internacionalização como diferencial
O diferencial competitivo do Festival Expressa em relação a outros eventos setoriais é a conexão internacional que Ferraz vem cultivando.
A participação no Marché du Film, em Cannes, e no Cine por Mujeres, em Madri, abriu portas para coproduções que começam a ser anunciadas.
A ponte Brasil-Espanha é estratégica. O mercado hispânico — incluindo o público latino-americano e o europeu de língua espanhola — representa uma das fronteiras de expansão mais promissoras para o audiovisual brasileiro, que tradicionalmente concentra esforços no mercado doméstico e, ocasionalmente, no norte-americano.
Ferraz tem atuado como facilitador desse intercâmbio, utilizando sua dupla inserção — como profissional estabelecido no Rio de Janeiro e com trânsito crescente na Europa — para estruturar acordos de coprodução e distribuição cruzada.
Formação de talentos: a Escola Oficina FF
Um dos braços mais relevantes do ecossistema criado por Ferraz é a Escola Oficina FF, instituição de formação de atores que funciona no Rio de Janeiro. A escola não apenas prepara profissionais para o mercado, mas funciona como viveiro de talentos que alimentam os projetos da AZ Entretenimento e as parcerias internacionais.
O modelo de negócio integrado — escola forma talentos, produtora os emprega, festival os expõe — é raro no mercado brasileiro, onde formação, produção e circulação costumam operar em silos desconectados.
A verticalização proposta por Ferraz reduz a dependência de intermediários e aumenta a sustentabilidade dos projetos.
Perspectivas para o setor
O Festival Expressa 2026 chega num momento de transformação profunda do audiovisual brasileiro. A consolidação das plataformas de streaming, a retomada dos investimentos federais no setor via leis de incentivo e o crescimento das produções independentes criam um ambiente de oportunidades, mas também de competição acirrada por visibilidade e financiamento.
Eventos como o Expressa cumprem função estratégica nesse ecossistema: oferecem vitrine para produções que não têm acesso aos grandes circuitos comerciais, criam pontes entre profissionais de diferentes regiões e especialidades e geram capital relacional indispensável para viabilizar projetos de médio e longo prazo.
A Zona Oeste do Rio — com sua população numerosa, seu potencial de consumo cultural e sua localização estratégica entre a Zona Sul e a Baixada Fluminense — emerge como território fértil para essa proposta.
O Expressa 2026 pode ser o marco inicial de uma ocupação mais sistemática do audiovisual carioca para além do eixo Zona Sul-Centro.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
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