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Rio de Janeiro, junho de 2026. Enquanto o burburinho do Festival Express tomava o Del Arte no Barra Point na noite deste fim de semana, uma figura de terno sóbrio circulava entre produtores, cineastas e jovens realizadores com a desenvoltura de quem conhece os dois lados do balcão: o do comércio internacional e o das câmeras.
Adair Roberto Carneiro, presidente da Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE), não era apenas mais uma autoridade no coquetel de Fernando Ferraz.
Ele é o decano da casa. 42 anos de instituição, e talvez o único líder empresarial do país que pode dizer, com propriedade, que entende tanto de balança comercial quanto de bilheteria.
E não por acaso: nos anos 1990, foi produtor associado de O Quatrilho (1995), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e de O Que É Isso, Companheiro? (1997), que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim.
"O audiovisual hoje emprega mais gente do que o setor farmacêutico, mais do que a indústria aeronáutica, a indústria de games, a indústria do cinema, do marketing", afirmou Carneiro em entrevista ao Jornal da República.
"É uma coisa tão fantástica essas transformações que acontecem, e esses eventos aglutinam as pessoas, aglutinam empresários do setor, produtores do audiovisual."
Os números que sustentam a afirmação do presidente da FCCE vêm de fontes robustas.
Um estudo da Oxford Economics, encomendado pela Motion Picture Association (MPA) e divulgado em outubro de 2025, revelou que, em 2024, o setor audiovisual brasileiro movimentou R$ 70,2 bilhões em PIB e gerou 608.970 empregos diretos, indiretos e induzidos, o equivalente a 0,6% de toda a economia nacional.
O setor também recolheu R$ 9,9 bilhões em tributos. Os números mostram que o audiovisual emprega 57% mais pessoas do que a indústria automotiva tradicional.
Soft power como estratégia de Estado
Para Carneiro, no entanto, reduzir o audiovisual a números de emprego e arrecadação é perder o essencial. "Internacionalmente, o soft power é que define toda a política estratégica de formar corações e mentes no futuro", disse.
A frase ecoa um consenso crescente na geopolítica contemporânea: nações que dominam a narrativa cultural dominam também a percepção global sobre si mesmas.
A China, por exemplo, entendeu isso há décadas. Não por acaso, a FCCE, que reúne 68 câmaras bilaterais em 68 países, recebeu 113 delegações chinesas em seus 75 anos de história. O país asiático investe pesadamente na projeção de sua indústria cultural como braço da política externa, e o Brasil, segundo Carneiro, precisa fazer o mesmo.
"Sem o comércio exterior, não temos condições de financiar toda a nossa capacidade de armazenar moedas e pagar as contas externas." "E o comércio exterior não pode existir mais sem o audiovisual", afirmou.
75 anos de história, 25% do PIB nacional.
Fundada em 1950, a Federação das Câmaras de Comércio Exterior é a mais antiga entidade do gênero no Brasil. São 75 anos de atuação ininterrupta, 68 câmaras bilaterais afiliadas e 22 conselhos temáticos que vão do agronegócio ao audiovisual.
Juntas, as empresas representadas pela FCCE respondem por 25% do PIB nacional — aproximadamente R$ 2,7 trilhões, e somam mais de 500 mil companhias associadas.
Carneiro é o quinto presidente da história da federação. "Sou o decano. "Estou lá há 42 anos", resume com a discrição de quem prefere que os números falem por si.
Em outubro de 2025, a FCCE celebrou seus 75 anos em evento que reuniu cônsules, internacionalistas e autoridades no Rio de Janeiro, com a presença da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC).
O produtor que virou presidente
O que poucos sabem é que, antes de presidir a federação, Adair Roberto Carneiro construiu uma carreira paralela no cinema que poucos executivos do setor podem ostentar.
Como produtor associado de O Quatrilho (1995), dirigido por Fábio Barreto, esteve na equipe do filme que levou o Brasil de volta à disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a primeira indicação desde O Pagador de Promessas, em 1963.
Dois anos depois, repetiu a dose como coprodutor de O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, que conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1997.
A dupla conexão, comércio exterior e cinema, faz de Carneiro uma figura singular no debate sobre o futuro da indústria audiovisual brasileira.
Em fevereiro de 2026, ele celebrou a criação do Instituto Cultural da FCCE, plataforma que pretende articular leis de incentivo, festivais e programas de intercâmbio para projetar o audiovisual brasileiro no exterior.
O timing não poderia ser mais oportuno. Em junho de 2026, o Ministério da Cultura lançou edital de R$ 1 milhão para levar profissionais do audiovisual brasileiro ao exterior, dentro de uma estratégia coordenada com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
A FCCE, com seu Conselho de Cultura e Audiovisual, é parte ativa desse movimento.
Festival Express: o encontro que faltava.
O Festival Express, idealizado por Fernando Ferraz, é o tipo de evento que Carneiro considera estratégico.
Realizado no Del Arte, no Shopping Barra Point, o encontro reúne produtores, diretores, atores e empresários do setor em um formato que mescla negócios e exibição, algo que, na avaliação do presidente da FCCE, ainda é raro no calendário carioca.
"É fundamental que existam esses eventos, porque isso dinamiza cada vez mais o setor do audiovisual", afirmou. Eventos assim aglutinam empresários do setor, produtores do audiovisual e produtores dos setores. Cada vez mais é importante a gente apoiar todos esses cenários."
A fala de Carneiro encontra respaldo nos dados mais recentes.
O estudo da Oxford Economics mostra que festivais como o Festival do Rio, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Fantaspoa atraem coletivamente quase um milhão de espectadores por ano.
O Festival Express, em sua primeira edição, sinaliza que o Rio de Janeiro, berço histórico da indústria audiovisual brasileira, segue como polo de articulação entre o mercado e a cultura.
O conselho que virou política pública
A FCCE mantém um Conselho de Cultura, Artes e Eventos que, sob a gestão de Carneiro, ganhou musculatura.
O conselho é responsável por articular leis de incentivo à produção de longas-metragens, curtas-metragens e games, além de promover eventos de confraternização e intercâmbio entre os países afiliados.
Em outubro de 2025, o setor audiovisual brasileiro deu um passo adicional com a criação da Federação da Indústria e Comércio do Audiovisual (FICA), lançada durante o RioMarket.
A nova entidade surge após o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) incluir o audiovisual no projeto da Nova Indústria Brasil.
Carneiro, que participou do lançamento, vê na FICA um complemento natural ao trabalho que a FCCE já vinha desenvolvendo.
"O Brasil precisa exercitar o audiovisual para que ele seja a nossa janela no planeta e no mundo", disse.
O que esperar dos próximos anos
Com 75 anos de história, 68 países afiliados e um presidente que entende de Oscar e de balança comercial, a FCCE se posiciona como uma das poucas entidades brasileiras capazes de articular política externa, cultura e desenvolvimento econômico em uma mesma mesa de negociação.
O desafio, segundo Carneiro, é fazer com que o Brasil, que já tem o audiovisual como um dos setores que mais crescem — transforme essa potência criativa em influência geopolítica real.
Os R$ 70,2 bilhões que o setor movimenta anualmente são um começo. Mas, para o presidente da FCCE, o verdadeiro retorno está no soft power: na capacidade de o Brasil contar suas próprias histórias para o mundo e ser ouvido.
Adair Roberto Carneiro
Adair Roberto de Oliveira Carneiro é presidente da Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE), onde atua há 42 anos como o mais longevo dirigente da instituição.
Quinto presidente da história da federação — fundada em 1950 e responsável por 25% do PIB nacional —, Carneiro comanda uma rede de 68 câmaras bilaterais espalhadas por 68 países, representando mais de 500 mil empresas.
Paralelamente à carreira no comércio exterior, construiu trajetória no cinema brasileiro como produtor associado de O Quatrilho (1995), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e coprodutor de O Que É Isso, Companheiro? (1997), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim.
Em fevereiro de 2026, celebrou a criação do Instituto Cultural da FCCE, voltado à projeção do audiovisual brasileiro no exterior. A federação mantém Conselho de Cultura, Artes e Eventos que articula leis de incentivo à produção audiovisual e à indústria de games.
Carneiro também participou ativamente do lançamento da Federação da Indústria e Comércio do Audiovisual (FICA), em outubro de 2025. A FCCE tem sede no Rio de Janeiro e pode ser acompanhada pelo site www.fcce.org.br e pelo Instagram @fccecomercioexterior.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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