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.Enquanto o Brasil discute namoro de celebridade, o país real segue parcelado em 12 vezes sem juros para o banco , e com juros de agiota para o povo.
Na mesma semana em que o governo brasileiro buscava negociar nos Estados Unidos temas decisivos para o nosso presente e futuro , minerais críticos, tarifas, combate ao crime organizado, cooperação econômica e desenvolvimento nacional , o debate público brasileiro parecia anestesiado entre fofoca, algoritmo e distração coletiva. Um país que deveria estar discutindo soberania, desigualdade, trabalho e desenvolvimento prefere muitas vezes se perder entre cortes de podcast, brigas digitais e escândalos que duram menos que um story.
Enquanto isso, o brasileiro continua sendo assaltado diariamente pelo rentismo, pelos spreads bancários obscenos e pela lógica perversa de um sistema que transforma dívida em política pública permanente. O “Desenrola” tenta reorganizar minimamente a vida de uma população esmagada pelo crédito caro, pela inflação da sobrevivência e por salários incompatíveis com a dignidade humana. Mas há algo ainda mais cruel: convenceram parte do povo de que ter direitos trabalhistas e ter emprego seriam coisas opostas.
A escala 6x1 talvez seja o maior retrato contemporâneo da nossa escravidão socialmente aceita: trabalha-se muito, vive-se pouco e descansa-se quase nunca. E tudo isso num país que ainda naturaliza a morte social de pessoas pretas e pobres , seja pela violência armada, seja pela exclusão econômica, cultural e afetiva.
Ao mesmo tempo, o debate sobre Previdência vira sempre uma caça às bruxas contra trabalhadores tratados como “vagabundos” depois de uma vida inteira gerando riqueza que quase nunca retorna em bem-estar. No Brasil, o pobre precisa provar o tempo inteiro que merece existir. Já os muito ricos, curiosamente, só precisam conhecer as pessoas certas.
E aí chegamos ao chamado “caso Master”, talvez uma das maiores aulas práticas sobre como funcionam as relações de poder no país. Afinal, quantos brasileiros têm amigos para quem podem pedir R$ 130 milhões “dados ” para cinebiografia, imóveis ou projetos variados? E mais curioso ainda: quantos negam a amizade depois que o assunto vem à tona? Parece que no Brasil amizade sincera é aquela que desaparece junto com a quebra do sigilo bancário.
Fica a dica aos produtores culturais independentes: talvez o problema nunca tenha sido a falta de talento. Talvez tenha sido apenas a falta de um jantar com as pessoas certas.
Mas nada revela mais o Brasil do que a forma como tratamos Vinícius Júnior.
Vinícius Júnior é um jovem preto brasileiro que saiu das categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo, venceu no maior clube do mundo, enfrentou o racismo mais nojento da Europa, transformou sua dor em luta pública e decidiu usar sua fama para discutir racismo, violência e desigualdade. Um atleta bilionário, vencedor, influente, engajado e consciente.
Mas o que mobiliza parte das redes sociais? Seus relacionamentos.
E é aí que o racismo brasileiro mostra sua face mais sofisticada: a que sorri enquanto desumaniza. A que chama homens pretos de “feios”, “violentos”, “indignos de afeto”, “bons para o esporte, mas não para o amor”. O Brasil até aceita o preto vencedor ,desde que ele não ocupe espaços simbólicos demais. Desde que não ame demais. Desde que não seja admirado demais. Desde que não pareça humano demais.
Porque o racismo brasileiro não é apenas o insulto explícito. É também o estranhamento diante da autoestima preta. É a tentativa constante de recolocar pessoas negras em lugares historicamente subalternizados.
Ao mesmo tempo, seguimos falhando miseravelmente no debate sobre paternidade, afeto e responsabilidade emocional. Mulheres seguem sustentando lares material, emocional e culturalmente, enquanto muitos homens ainda acreditam que pagar pensão ocasionalmente encerra o conceito de presença paterna. Não encerra. Paternidade não é PIX. Afeto não é depósito bancário. Crianças precisam de convivência, cuidado, referência e presença.
Mas até esse debate sério vira ruído num país hipnotizado pela distração permanente.
E talvez esse seja o grande drama brasileiro contemporâneo: transformamos tudo em entretenimento para não encarar nada profundamente. A política vira meme. A desigualdade vira estatística. O racismo vira “opinião”. A violência vira rotina. E a precarização da vida vira empreendedorismo motivacional com música de fundo e filtro bonito.
Tem eleição batendo à porta. E metade do país parece disposta a entregar novamente o futuro a projetos que flertam abertamente com retirada de direitos, violência social e aprofundamento das desigualdades históricas. Como se o problema do Brasil fosse excesso de direitos e não excesso de privilégios.
Enquanto isso, seguimos anestesiados entre sertanejo, futebol e fé , três paixões legítimas, mas frequentemente usadas como sedativo social num país que evita discutir quem concentra riqueza, poder e influência desde a invasão portuguesa.
No fim, Vinícius Júnior talvez seja mais do que um craque. Talvez seja um espelho desconfortável. Porque sua existência desafia estruturas históricas demais ao mesmo tempo: um homem preto, rico, amado, inteligente, politizado, global e impossível de ser invisibilizado.
E isso, para parte da sociedade brasileira, continua sendo imperdoável.
Baila, Vini.
Porque cada drible seu incomoda muito mais do que zagueiros.
Incomoda séculos de violências, exclusões , mortes e privilégios .
Vini você incomoda , porque você é a vida , é sempre possível vencer e viver !
Rodrigo Nascimento É Produtor Cultural E Gestor Publico
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