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Renata Souza: A Voz da Periferia que Faz História no Parlamento Fluminense
A deputada estadual Renata Souza (PSOL) consolidou-se como uma das principais vozes da política fluminense ao ser eleita líder da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A decisão ocorre em meio às discussões sobre sua possível candidatura na eleição indireta para governador, que deve acontecer nos próximos meses.
Nascida e criada no Complexo da Maré, Renata tornou-se a mulher mais votada da história da Alerj em 2022, quando foi reeleita com 174.132 votos. Sua trajetória política é marcada pela defesa intransigente dos direitos humanos e pela luta contra a violência em comunidades periféricas.
Marco Histórico: Condenação dos Mandantes de Marielle Franco
Durante entrevista exclusiva, a deputada destacou a importância da recente condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. "A condenação dos mandantes do feminicídio político de Marielle Franco e homicídio de Anderson Gomes é um marco histórico na democracia brasileira", afirmou Renata, que foi chefe de gabinete da vereadora assassinada.
A parlamentar enfatizou que o caso expôs o envolvimento de membros do próprio Estado no crime. "A gente vê o quanto que o estado é utilizado como mola para criminosos. Estamos falando dos irmãos Brasão - um era membro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, o outro deputado federal", explicou.

Liderança do PSOL e Possível Candidatura
Como nova líder da bancada do PSOL, Renata assume a responsabilidade de coordenar uma das bancadas "mais aguerridas" da Alerj. "Recebo com muita honra essa incumbência de liderar a bancada do PSOL, garantindo uma liderança comprometida com as políticas públicas", declarou.
Sobre a possível candidatura ao governo estadual na eleição indireta, a deputada demonstrou cautela: "Se assim for decidido pelo meu partido, terei a maior honra de representá-los, mas com a função central de garantir uma união da esquerda e do campo progressista".
Segurança Pública: Proposta de Investimento em Inteligência
Questionada sobre suas propostas para a segurança pública, Renata defendeu mudanças estruturais no modelo atual. "Algo central que falta hoje é investimento na investigação, inteligência e informação das polícias. No estado do Rio de Janeiro, não chega a 1% dos recursos destinados à segurança pública para inteligência e informação", criticou.
A deputada propõe uma abordagem diferente: "Se não há inteligência e informação, sobra tiroteio dentro da favela. A gente precisa racionalizar a atuação policial, seguindo o que está previsto na Constituição: segurança pública é para preservar vidas".
Comissão de Favelas e Periferias: Representando 1/3 da População
Como presidente da Comissão Especial de Favelas e Periferias, Renata trabalha para dar voz a uma parcela significativa da população fluminense. "Um terço da população do estado do Rio de Janeiro vive em favelas e periferias e essas pessoas recebem políticas públicas de segunda categoria", denunciou.
Novo PAC: Esperança para as Periferias
A deputada destacou os investimentos federais nas comunidades fluminenses através do novo PAC.
A parlamentar destacou os investimentos do novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em comunidades como a Rocinha, que receberá mais de 300 milhões para obras de infraestrutura, e o Complexo da Maré, contemplado com 170 milhões.
"Vamos acompanhar e fiscalizar essas obras porque queremos que cheguem na população", garantiu Renata, enfatizando o papel de controle social que sua comissão exercerá sobre os recursos públicos.
Defesa dos Direitos das Mulheres
Na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Renata criou a primeira sala de atendimento às mulheres no parlamento brasileiro. A "Sala Lilás" já realizou cerca de 700 atendimentos em três anos de funcionamento.
Racismo Ambiental e Mudanças Climáticas
Durante a entrevista, a deputada abordou um tema ainda pouco discutido na política brasileira: o racismo ambiental. "São as áreas com maior densidade de população negra em territórios de favelas e periferias que perdem suas casas, que perdem suas vidas numa lógica absurda", explicou.
Renata conecta as questões climáticas com a desigualdade racial, destacando que as enchentes recentes no Rio de Janeiro afetaram desproporcionalmente as comunidades periféricas. "Isso é falta de saneamento básico, falta de políticas públicas de mitigação e enfrentamento do colapso climático", denunciou.
Sala Lilás: Salvando Vidas na Prática
O trabalho da Sala Lilás, primeira sala de atendimento às mulheres em um parlamento brasileiro, vai além dos números. Renata relatou um caso específico que ilustra a efetividade do programa: "Uma pessoa ligou para a comissão da mulher e o agressor estava na porta dizendo que ia matá-la. Conseguimos acionar a Patrulha Maria da Penha. Esse agressor está preso".
O atendimento multidisciplinar conta com assistente social, psicóloga e advogada, oferecendo suporte integral para quebrar o ciclo da violência doméstica. A iniciativa já se tornou referência nacional para outros parlamentos.
Críticas ao Sistema de Justiça
A deputada não poupou críticas ao Poder Judiciário, especialmente após a polêmica decisão em Minas Gerais. "Um poder judiciário que, ao invés de reconhecer o pedófilo como pedófilo, reconhece ele como marido numa relação familiar, a gente ainda está perdendo", afirmou com veemência.
"Pedofilia agora virou outro nome, é relação familiar. Isso é um escândalo", protestou.
Para Renata, casos como esse demonstram que a violência contra mulheres e crianças ainda é normalizada por setores do sistema de justiça, perpetuando ciclos de impunidade e revitimização.
Legado de Marielle Franco
Vinte anos de amizade e militância conjunta com Marielle Franco moldaram profundamente a atuação política de Renata. "Marielle vive e sempre viverá através da sua voz, através da voz da ministra [Anielle Franco], entre outras lideranças", declarou emocionada.
A deputada vê a condenação dos mandantes como um marco que "refunda a democracia brasileira", mas alerta que é necessário reformar as estruturas do Estado que permitiram o crime. "A gente precisa refundar uma estrutura de estado que, em especial no Rio de Janeiro, está comprometida com a lógica criminosa e de banditismo".

Renata Souza ao lado da amiga e vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018 | Foto: Reprodução/Facebook
Desafios da Assembleia Legislativa
Como nova líder do PSOL, Renata herda o desafio de atuar em uma Assembleia Legislativa "em frangalhos", segundo suas próprias palavras. A parlamentar critica a "lógica do banditismo" que permeia a instituição e promete trabalhar pela união das forças progressistas.
A possível candidatura ao governo estadual na eleição indireta representa uma oportunidade de "fazer um debate de união da esquerda do campo progressista" para enfrentar os problemas estruturais do estado.
Trajetória de Superação e Militância
Formada em Jornalismo pela PUC-Rio com bolsa integral, Renata é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pós-doutora em Mídia e Cotidiano pela UFF. Foi a primeira de sua família a ingressar na universidade, superando barreiras econômicas e sociais.
Sua militância intensificou-se após o assassinato de Renan da Costa, de 3 anos, filho de sua ex-cunhada, em 2006. O episódio foi o gatilho para que a segurança pública ganhasse centralidade em suas ações.
Reconhecimento Nacional e Internacional
Renata articula redes nacionais e internacionais de direitos humanos, tendo atuado como interlocutora com relatores da ONU e da OEA. Apresentou denúncias sobre violações de direitos humanos no Brasil em encontros com autoridades internacionais.
A deputada é autora de quatro livros, incluindo "Cabeça Erguida" (2022), "Cria da Favela" (2020) e "Ubuntu: Negras Utopias" (2020), consolidando-se também como intelectual e escritora.
Ameaças e Perseguições: O Preço da Luta por Justiça
A trajetória de Renata Souza na política tem sido marcada não apenas por conquistas, mas também por ameaças constantes e ataques racistas. Em junho de 2024, a deputada registrou ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) após receber e-mails com ameaças de morte e conteúdo racista.
O episódio mais grave ocorreu em novembro de 2023, quando Renata denunciou ataques racistas nas redes sociais após expor o racismo algorítmico em plataformas de inteligência artificial. A situação evidencia como mulheres negras na política enfrentam dupla vulnerabilidade: por serem mulheres e por serem negras.
Impacto Nacional e Internacional
O reconhecimento do trabalho de Renata Souza transcende as fronteiras fluminenses. Sua atuação junto a organismos internacionais de direitos humanos coloca o Brasil no centro dos debates sobre violência policial e direitos das mulheres negras.
A deputada se consolidou como uma das principais vozes da nova geração de lideranças negras no país, inspirando jovens de periferias a ocuparem espaços de poder tradicionalmente negados a essa população.
Perspectivas Futuras
Com a liderança da bancada do PSOL e a possível candidatura ao governo, Renata Souza se posiciona como figura central na política fluminense dos próximos anos. Sua agenda combina pautas tradicionais da esquerda com questões contemporâneas como racismo algorítmico e mudanças climáticas.
A deputada representa uma nova forma de fazer política, que conecta a militância de base com a atuação parlamentar, mantendo sempre o compromisso com as comunidades periféricas que a elegeram.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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Fontes consultadas:
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