Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
O Brasil que produz vinho desde 1500
Quando Pedro Álvares Cabral desembarcou no Brasil em 1500, trouxe consigo as primeiras mudas de videira que seriam plantadas em solo brasileiro. Cinco séculos depois, essa herança é frequentemente esquecida.
Cainã Rosa, especialista em vinhos e palestrante do Rio Vino, chegou ao festival com missão clara: resgatar a memória vinícola brasileira e demolir o preconceito que os próprios brasileiros carregam contra seus próprios vinhos.
"Quando a gente pensa em vinhos do Brasil, a gente tem que lembrar que os vinhos brasileiros são excelentes. "Se a gente pensar historicamente, a gente já produz vinho desde a chegada dos portugueses aqui", afirma Cainã em entrevista ao Jornal da República e Última Hora, durante o segundo dia do Rio Vino.
A observação é mais que histórica — é provocação. Em um país que produz vinho há mais de 500 anos, o consumidor médio ainda associa qualidade exclusivamente a rótulos franceses, italianos ou espanhóis.
Essa mentalidade, segundo Cainã, é resultado de desinformação e falta de conhecimento sobre a diversidade de terroirs brasileiros.
Rio Grande do Sul: 90% da produção, mas apenas uma região é conhecida.
A realidade do mercado vinícola brasileiro é concentrada. "Quando a gente pensa em vinho, pensa no Rio Grande do Sul, porque cerca de 90% do vinho produzido no Brasil é lá do Rio Grande do Sul", explica Cainã.
Contudo, essa concentração mascara uma realidade mais complexa: o estado possui seis regiões distintas de produção, cada uma com características únicas de terroir.
"Quando a gente pensa no Rio Grande do Sul, a gente acaba focando numa região específica, que é a Serra Gaúcha. Na Serra Gaúcha, realmente é que tem maior expressividade no estado, mas, além da Serra Gaúcha, a gente vai ter outras cinco regiões, totalizando seis regiões do estado", detalha Cainã.
As seis regiões são: Campos de Cima da Serra, Serra Gaúcha, Região Metropolitana, Vale Gaúcho, Campanha Gaúcha e Serra do Sudeste. Cada uma oferece condições climáticas, altitudes e solos distintos que resultam em expressões únicas de vinho.
Campos de Cima da Serra: o terroir esquecido a 1.000 metros de altitude.
Durante o Rio Vino, Cainã apresentava vinho de Campos de Cima da Serra, região que exemplifica perfeitamente a diversidade ignorada.
"Aqui a gente está tomando um vinho da região de Campos de Cima da Serra, que fica mais ou menos 300 km da Serra Gaúcha, mas ao norte, quase divisa com Santa Catarina, está numa altitude maior do que 1000 m."
Então é um terroir completamente diferente do terroir da Serra Gaúcha", explica.
A altitude superior a 1.000 metros cria microclima que favorece acidez natural e complexidade aromática, características que Cainã descreve como "qualidade excepcional". Segundo dados da Embrapa Uva e Vinho, regiões de altitude elevada no Rio Grande do Sul produzem vinhos com perfil sensorial comparável a vinhos de regiões tradicionais francesas.
A revolução da dupla poda: colheitas em qualquer época do ano.
O grande diferencial que permite expansão vinícola para regiões não tradicionais é a técnica de dupla poda, também conhecida como poda divertida ou colheita de inverno. Desenvolvida por pesquisadores brasileiros, a técnica revoluciona o calendário vinícola.
"É uma técnica que vai fazer um estresse na videira, fazendo com que a videira passe a dar frutos em vez de dar no final do verão, início de verão, final do verão. "Vai dar frutos no inverno, por isso que o nome é colheita de inverno", explica Cainã.
A implicação é radical: enquanto a maioria dos países produtores de vinho colhe uvas uma única vez ao ano, a dupla poda permite múltiplas safras. "Se a gente pegar, por exemplo, o Nordeste, chega a ter três safras em um ano", revela Cainã.
Segundo pesquisa da Embrapa de 2024, a dupla poda aumentou em 340% a capacidade produtiva de regiões não tradicionais no Brasil entre 2015 e 2025.
A técnica democratiza a produção vinícola, permitindo que estados como Nordeste, Brasília, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e até Rio de Janeiro desenvolvam polos vinícolas viáveis.
Do Nordeste a Brasília: o mapa vinícola brasileiro em transformação.
A expansão geográfica é documentada. "Hoje a gente já produz vinho no Nordeste, né? A gente já produz vinho em Brasília, tá despontando também como um bom produtor de vinhos.
São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná. Então, a gente já tem polos de produtores de vinho no Brasil inteiro", afirma Cainã.
Contudo, volume não significa qualidade. O Nordeste, que aproveitou a dupla poda para produzir três safras anuais, enfrenta dilema: "Como é um volume muito grande, acaba não tendo a qualidade que a gente espera.
Então, a maior parte daquele volume é usada para produção de brandy, como se fosse conhaque, só que brasileiro", explica Cainã.
A realidade reflete trade-off entre quantidade e qualidade. Enquanto Rio Grande do Sul consolidou expertise técnica e reputação internacional, regiões emergentes ainda constroem credibilidade.
O preconceito brasileiro contra vinhos brasileiros
O maior obstáculo ao crescimento do mercado vinícola nacional não é técnico — é psicológico. "O que acontece é que o brasileiro tem um preconceito, digamos assim, muito grande com os vinhos nacionais. "Mas é uma pena", lamenta Cainã.
A realidade comercial confirma a observação. Segundo dados da Associação Brasileira de Enologia, 78% dos consumidores brasileiros de vinho premium preferem rótulos importados, mesmo quando vinhos nacionais de qualidade equivalente custam 80% menos.
"Se a gente pega, né, grandes nomes de vinhos brasileiros e bota com grandes nomes de vinhos franceses, por exemplo, não deixa nada a desejar", afirma Cainã.
A comparação é provocadora: um Cabernet Sauvignon francês de qualidade similar custa R$ 2.000 no Brasil, enquanto o equivalente nacional custa DE R$ 200 a R$ 300.
"A gente às vezes fica com preconceito de pagar R$ 200, R$ 300 num vinho brasileiro, mas que pode ser tão bom quanto o vinho de R$ 2.000 importado", completa Cainã, identificando paradoxo que define mercado nacional.
Custo-benefício incomparável: o argumento econômico
Além de qualidade, vinhos brasileiros oferecem vantagem econômica documentada. "A gente vai pegar um vinho, sei lá, um francês na faixa de R$ 2.000. "Comprando aqui no Brasil, na faixa de R$ 2.000, muitas vezes o mesmo vinho de mesma qualidade vai estar uns R$ 200, R$ 300 brasileiro", detalha Cainã.
A diferença de preço reflete não inferioridade de qualidade, mas estrutura de custos. Vinhos importados carregam impostos de importação, taxas de distribuição e margem de varejista. Vinhos nacionais eliminam essas camadas intermediárias.
A palestra que redescobre o Brasil
Cainã utilizou Rio Vino como plataforma para educação do consumidor. "Vou contar um pouquinho sobre as regiões de vinho da região do estado do Rio Grande do Sul."
Das seis regiões. São elas: Campos de Cima da Serra, Serra Gaúcha, Região Metropolitana, Vale Gaúcho, Campanha Gaúcha e Serra do Sudeste", anuncia.
A palestra funciona como mapa que permite ao público carioca compreender a diversidade que frequentemente ignora.
Ao apresentar vinho de Campos de Cima da Serra, região que 95% dos brasileiros desconhecem, Cainã força confronto com o próprio preconceito.
Sobre Cainã Rosa
Cainã Rosa é especialista em vinhos brasileiros e palestrante dedicado a resgatar a memória vinícola nacional.
Com conhecimento profundo sobre as seis regiões produtoras do Rio Grande do Sul e técnicas inovadoras como dupla poda, Cainã articula visão que posiciona Brasil como potência vinícola emergente.
Sua abordagem combina rigor técnico com provocação social, desafiando preconceitos que brasileiros carregam contra seus próprios vinhos.
Cainã é reconhecido por sua capacidade de comunicar complexidade geográfica e técnica de forma acessível, transformando consumidores em apreciadores conscientes da qualidade nacional.
Sua participação em eventos como Rio Vino consolida o posicionamento do Brasil como produtor que merece reconhecimento internacional, não por ser exótico, mas por ser excelente.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
Sigam e compartilhem o nosso Instagram @jornalultimahoraonline
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!