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* Por Jorge Tardin
O Brasil chega a 2026 com uma virtude que nunca lhe faltou e um defeito que insiste em acompanhá-lo. A virtude é perceber o ridículo. O defeito é conviver com ele por tempo demais. A política segue performática, ruidosa e cheia de certezas que duram até a próxima manchete. Discute-se muito o futuro enquanto se administra mal o presente. O país não sofre por falta de ideias, sofre por excesso de discurso e escassez de consequência.
Essa acidez não é ideológica. É prática. O Brasil não emperra por conflito de opiniões, mas por informalidade estrutural. Tudo parece provisório, reinterpretável, negociável. A regra existe, mas sempre há alguém disposto a tratá-la como sugestão. O problema nunca foi o debate. O problema sempre foi a tolerância com a esperteza quando ela se fantasia de normalidade.
Esse padrão escorreu, com naturalidade, para o mundo dos investimentos. A malandragem financeira brasileira raramente nasce fora do sistema. Ela costuma surgir bem-vestida, falando difícil, cercada de siglas, relatórios e instrumentos “sofisticados”. O truque não é simples. É elegante. Promete inovação, entrega opacidade e cobra confiança em vez de prova. Funciona até alguém pedir o rastro.
As investigações em curso envolvendo casos como Americanas, a Operação Carbono Oculto e estruturas financeiras associadas ao caso Master revelam um traço comum: narrativas complexas demais para sustentar desenhos frágeis demais. Tudo junto e misturado. Mercado, política, interesses paralelos. Não se trata de antecipar conclusões, mas de reconhecer um padrão que começa, finalmente, a perder proteção simbólica.
Nesse cenário, a atuação da Polícia Federal tem cumprido um papel silencioso e relevante. Menos espetáculo, mais método. Seguir o dinheiro, exigir documentação, cruzar dados, desmontar camadas de opacidade. Quando a luz acende, muita “engenharia financeira” se revela improviso com vocabulário técnico. A malandragem perde charme quando precisa prestar contas.
Talvez por isso comece a se impor um novo ritmo. Mais sóbrio, menos sedutor, porém mais sólido. Um direito que não se satisfaz com promessa, mas exige prova. Um mercado que começa a entender que tecnologia não é marketing, é infraestrutura.
Como professor de Direito, confesso que estou aprendendo — e apostando — nesse movimento. Blockchain, inteligência artificial e estruturas tokenizadas não como moda ou fetiche, mas como instrumentos capazes de devolver algo essencial ao sistema jurídico: rastreabilidade, previsibilidade e responsabilidade. Não substituem o Direito. Reorganizam sua execução. Talvez seja isso que se aproxime de uma nova ordem jurídica silenciosa, menos retórica e mais verificável.
Esse movimento conversa diretamente com soberania. Não a soberania inflamada de discurso, mas a soberania operacional. Saber onde estão os ativos, quem responde por eles, qual é o lastro e como a regra se executa. Menos confiança pessoal. Mais sistema. Menos fé em narrativas. Mais prova.
No fundo, Havaianas e calcinhas vermelhas continuam sendo uma boa metáfora. Pé no chão e coragem por dentro. O Brasil talvez esteja aprendendo que sorte ajuda, mas método sustenta. E que criatividade sem regra vira risco, enquanto criatividade com estrutura vira país.
Se 2026 cumprir metade do que está insinuando, já será um avanço respeitável. Sem alarde. Sem fantasia. Com regra, rastro e responsabilidade.
* Jorge Tardin - [email protected]
Advogado, professor e Embaixador da Coalizão Veredicto do Capital
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