Milei autoriza militares a fazer Uber e ter segundo emprego, expondo crise salarial, evasão de quadros e pressão sobre a defesa.

Ministério da defesa autoriza militares da Argentina a trabalhar de UBER e Rappi

Milei autoriza militares a fazer Uber e ter segundo emprego, expondo crise salarial, evasão de quadros e pressão sobre a defesa.

Escrito por Robson Augusto

A remuneração recebida do quartel já não basta para pagar as contas. Na Argentina, militares das três Forças Armadas pela primira vez na história agora poderão sair do serviço e buscar renda extra como motoristas de aplicativo, entregadores, vigilantes privados ou em outras ocupações civis compatíveis com a função.

A medida foi oficializada pelo governo nacional e impulsionada pelo Ministério da Defesa. Ela alcança soldados, suboficiais e oficiais, e representa uma mudança relevante em uma carreira que, por décadas, manteve limites rígidos para atividades paralelas no setor privado.

Na prática, a decisão reconhece algo que já ocorria de maneira informal em muitos casos: parte do pessoal militar vinha procurando formas alternativas de complementar a renda para enfrentar o custo de vida.

Governo libera segundo emprego para militares

Há algumas semanas o chefe do Exército argentino, Oscar Santiago Zarich, havia baixado uma ordem proibindo militares de trabalhar com Uber, Rappi e outros aplicativos de transporte e entregas, a polêmica acabou incendiando os ânimos e autorização definifiva para o trabalho, com recuo das Forças Armadas, chegou essa semana, segundo revelado pelo jornalista argentino Eduardo_Feinmann, do jornal La Nación.

“na Marinha, muita gente… pessoal da Marinha na ativa, sei lá, tenente, por exemplo, tenente fazendo Uber, fazendo Uber, fazendo Uber. Como o salário na Marinha não é suficiente, ele sai para trabalhar de Uber. Não de Rappi. Ou seja, você percebe que a deterioração salarial nas forças de segurança e nas Forças Armadas é realmente… nunca aconteceu na história uma coisa assim”, disse o jornalista.

A informação, já veiculada em periódicos tradicionais da Argentina, também ressalta que esses trabalhos não podem interferir nas obrigações operacionais nem comprometer temas ligados à segurança nacional. Entre as ocupações mencionadas estão plataformas de transporte e de entrega, serviços de segurança privada e outras funções consideradas compatíveis com a vida militar.

O governo tenta apresentar a iniciativa como ampliação das liberdades individuais e das possibilidades de trabalho do efetivo. Mas, dentro do ambiente militar, a leitura é outra: a medida é vista como reconhecimento implícito de que a remuneração já não dá conta de sustentar parte significativa do pessoal.

Crise salarial atinge a base das Forças Armadas

A discussão sobre os salários militares na Argentina não começou agora. Ela se arrasta desde a interrupção de um processo de recomposição que vinha sendo conduzido na gestão anterior, quando houve uma tentativa de aproximar os vencimentos das Forças Armadas dos pagos às forças federais de segurança.

Desde então, a perda de poder de compra virou um dos principais focos de insatisfação. Informes citados por setores vinculados às Forças Armadas sustentam que os salários militares ficaram para trás diante da inflação acumulada.

O impacto seria mais duro nos postos mais baixos, justamente onde a renda tende a ser mais apertada e o peso do custo de vida é maior. É nessa faixa que a necessidade de procurar uma segunda fonte de renda se torna mais evidente.

Nesse contexto, a autorização para trabalhar legalmente fora do quartel não aparece como simples modernização administrativa. Ela surge como resposta prática a uma dificuldade concreta de sobrevivência econômica.

O militar no volante do Uber virou símbolo do problema

A possibilidade de um militar da ativa dirigir para aplicativos depois do expediente tem força simbólica. Não se trata apenas de uma renda extra. Trata-se de um Estado admitindo, ainda que de forma indireta, que o salário pago a parte dos responsáveis pela defesa nacional não está sendo suficiente.

A cena é forte porque quebra uma imagem tradicional da carreira militar. O mesmo profissional treinado para operar equipamentos, planejar deslocamentos, cuidar de logística, manter comunicações ou atuar em missões estratégicas pode agora passar a depender de corridas, entregas ou vigilância para fechar o orçamento doméstico.

É esse contraste que torna a notícia tão sensível. A medida não apenas flexibiliza regras. Ela expõe uma tensão entre missão, remuneração e dignidade profissional.

Retenção de pessoal especializado preocupa a defesa

O problema não se resume ao contracheque do fim do mês. Há um efeito estrutural que preocupa ainda mais: a retenção de pessoal qualificado.

Nos últimos anos, cresceram os alertas sobre a saída de oficiais, suboficiais e profissionais especializados que encontram no setor privado oportunidades mais vantajosas. Entre os perfis mais difíceis de reter estão pilotos, engenheiros, médicos, técnicos em comunicações, especialistas em logística e profissionais de áreas estratégicas.

Esse tipo de evasão pesa muito para qualquer força armada. Formar um militar especializado leva anos, exige treinamento contínuo e consome recursos públicos consideráveis.

Quando esse profissional decide deixar a carreira ou precisa dividir energia entre a farda e um segundo emprego, a instituição perde rendimento, continuidade e, em alguns casos, capacidade operacional.

Ajuste não afeta só salário

A autorização para o segundo emprego também aparece em um cenário maior de restrições orçamentárias. Segundo o material divulgado na imprensa argentina, os cortes e limitações não atingem apenas as remunerações.

A pressão também alcança programas de equipagem, manutenção operacional e serviços ligados ao sistema de saúde militar. Isso ajuda a explicar por que a discussão ultrapassa a folha salarial e se transforma em debate sobre o próprio funcionamento da estrutura de defesa.

Quando faltam recursos para pagar melhor, manter meios, renovar equipamentos e preservar serviços essenciais, o desgaste não fica restrito ao bolso do militar. Ele atinge moral, permanência e capacidade de recrutamento.

Em outras palavras, a crise salarial passa a ser também crise de atratividade da carreira.

Medida pragmática, mas com custo institucional

Do ponto de vista imediato, a decisão é pragmática. Isso pode reduzir irregularidades e dar algum fôlego financeiro a quem precisa complementar a renda. Mas essa saída não elimina o problema original.

Se o segundo emprego deixa de ser exceção e vira necessidade comum, a política pública muda de natureza. O foco sai da valorização da carreira e passa para a adaptação do militar à perda de poder de compra.

Há ainda um risco funcional. Um profissional submetido a jornadas acumuladas pode ter menos descanso, menor disponibilidade física e menor foco para treinamentos, escalas e missões. Isso exige cuidado para que a solução econômica não produza efeitos colaterais sobre prontidão e desempenho.

O que a decisão revela sobre as Forças Armadas argentinas

Como no Brasil ainda é, na Argentina os militares até então eram proibidos de possuir outra renda oficial. Não há detalhes sobre como o processo se dará. Mas, o que se sabe é que a atividade extra quartel já era realizada de forma informal e discreta por muitos integrantes das Forças Armadas.

O que por muito tempo foi restrito ou excepcional se converte agora em possibilidade formal para milhares de integrantes das Forças Armadas.

Ela também revela que a questão salarial se transformou em um dos principais desafios da defesa nacional argentina. Não por acaso, o debate já não se limita a aumento ou reajuste. Ele passa a envolver retenção de quadros, qualidade de vida, moral da tropa e preservação de capacidades estratégicas.

No discurso oficial, a liberação pode soar como flexibilização. Na leitura prática, porém, a mensagem é mais dura: o Estado está autorizando seus militares a buscar fora do quartel a renda que a carreira, sozinha, já não garante.

Por Ultima Hora em 10/06/2026
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