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Aos 85 Anos, Cineasta Censurado pela Ditadura Celebra Oscar e o Cannes Brasileiro

Pioneiro do cinema transgressor brasileiro revela como enfrentou a ditadura e abriu caminhos para o reconhecimento internacional
Aos 85 anos, Neville d'Almeida permanece como uma das figuras mais controversas e importantes do cinema brasileiro.
Em entrevista exclusiva no Solar das Palmeiras, na Ilha da Gigóia, o cineasta que teve seus dois primeiros filmes censurados pela ditadura militar reflete sobre resistência artística, liberdade criativa e o momento histórico que o Brasil vive com o reconhecimento internacional de sua cinematografia.
O Artista Mais Censurado do Brasil
Neville d'Almeida carrega o título de artista mais censurado do Brasil nos últimos 100 anos. Seus filmes "Jardim da Guerra" e "Piranhas do Asfalto" foram proibidos e jamais exibidos comercialmente durante a ditadura militar.
"Quando aparece a censura de forma tão brutal, as pessoas se acomodam. Não foi o que aconteceu comigo", relembra o cineasta.
O Departamento de Censura da Polícia Federal criou um código específico que limitava drasticamente a expressão artística. Para d'Almeida, essa repressão representava uma tragédia cultural.
"Como um artista pode sobreviver dentro do princípio do que não pode? Quando aparece o artista e dizem 'isso não pode', é o sinal da tragédia", afirma.
A Resistência Através da Arte
Diferentemente de muitos contemporâneos que recuaram diante da pressão, Neville escolheu o confronto direto. "Decidi fazer o que eu nunca tinha visto e o que não podia. Nunca aceitei o 'isso não pode'", declara. Essa postura custou caro: desemprego, dificuldades financeiras e ostracismo cultural.
O cineasta financiou seus próprios filmes, chegando a vender apartamentos para custear produções que seriam posteriormente proibidas.
"Peguei dinheiro no banco e perdi tudo porque o filme foi proibido. Tive que vender casa, morar num quarto", relembra.
"A Dama do Lotação": Revolução Disfarçada de Erotismo
O filme "A Dama do Lotação" (1978), baseado em Nelson Rodrigues, representa um marco na filmografia de d'Almeida. Mais que um drama erótico, a obra funcionou como manifesto político disfarçado. "Utilizamos o erotismo como ferramenta de crítica social e política", explica.
A narrativa de Solange, interpretada por Sônia Braga, que busca satisfação sexual com estranhos após trauma conjugal, serviu como metáfora para a opressão política. O filme antecipou movimentos sociais que só ganhariam força décadas depois, abordando questões feministas e raciais quando esses temas eram tabus.
Filosofia da Liberdade Criativa
Para d'Almeida, a arte possui conexão direta com o divino. "A arte existe porque a vida não é o bastante", cita, referenciando conceitos poéticos sobre a função da criação artística. Sua formação metodista influenciou sua visão de liberdade criativa como dádiva divina, rejeitando limitações ideológicas ou religiosas.
"Deus é fonte de liberdade. O verdadeiro artista não tem coleira, não tem mordaça", afirma, criticando tanto limitações políticas quanto religiosas impostas à criação artística.
O Reconhecimento Internacional do Cinema Brasileiro
Neville celebra o momento atual do cinema nacional, com vitórias em festivais internacionais e o primeiro Oscar brasileiro. "Estamos vivendo um período maravilhoso, um marco na história da cultura brasileira", comemora.
"Deus é Fonte de Liberdade": A Filosofia Espiritual de Neville d'Almeida
O cineasta atribui o reconhecimento tardio não apenas à ditadura, mas ao protecionismo do mercado americano. "O Brasil podia ter ganho o Oscar há 20, 30, 40 anos atrás com Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha", observa.
Parceria Revolucionária com Hélio Oiticica
Durante os anos 1970, em Nova York, d'Almeida desenvolveu uma das colaborações mais inovadoras da arte contemporânea brasileira ao lado de Hélio Oiticica.
Juntos criaram a série "Cosmococas", obras que combinavam projeções de slides, trilhas sonoras e performances participativas, antecipando em décadas o que hoje conhecemos como arte imersiva.
"Essa parceria representou a fusão entre cinema experimental e artes visuais", explica o cineasta. As "Cosmococas" hoje integram acervos de museus internacionais como Tate Modern, MoMA e Reina Sofía, consolidando o reconhecimento mundial da dupla como precursores da arte multimídia.
O Mito da "Pornochanchada"
Um dos maiores equívocos sobre a obra de d'Almeida é classificá-lo como diretor de pornochanchada. O cineasta rejeita veementemente essa categorização.
"Para mim, quando faço nu, penso em Courbet, que pintou 'A Origem do Mundo' há 100 anos. Penso em Praxíteles, o grande escultor grego de 2.400 anos atrás", argumenta.
"Transformei Sexo em Arma Política": Neville d'Almeida Revela Estratégia Contra Ditadura
Sua abordagem da nudez e sexualidade baseia-se em referências artísticas clássicas, não em exploração comercial.
"O crítico tem problema de afirmação sexual. Quando vê mulher nua, pensa na prostituição. Eu tenho cultura", critica, apontando o machismo estrutural da crítica cinematográfica da época.
Influência na Cultura Contemporânea
A obra de d'Almeida antecipou questões que só ganhariam relevância décadas depois. Em "Jardim da Guerra", já abordava movimento negro e feminismo quando esses temas eram impensáveis no cinema mainstream.
"Fizemos manifesto para o movimento negro que não tinha acontecido ainda. O movimento feminista também", relembra.
Essa capacidade visionária posiciona o cineasta como antropólogo cultural, documentando transformações sociais antes mesmo de sua consolidação. Seus filmes funcionam como cápsulas do tempo, revelando contradições e tensões da sociedade brasileira.
Presidência da Associação Brasileira de Cineastas
D'Almeida assumiu a presidência da Associação Brasileira de Cineastas durante um dos períodos mais críticos para o cinema nacional: o governo Collor, que extinguiu a Embrafilme e todos os incentivos ao setor.
"Qualquer governante que se volta contra a cultura vai acabar caindo no abismo", profetiza, referindo-se ao destino político de Fernando Collor.
Sua gestão focou na resistência e reorganização do setor cinematográfico, lutando pela sobrevivência da produção nacional durante a crise institucional. "A ligação da cultura com Deus é absolutamente total. Atacar a cultura é atacar a própria alma humana", filosofa.
Crítica ao Sistema de Distribuição
O cineasta analisa criticamente o atual cenário de distribuição audiovisual. Embora reconheça o streaming como democratização do acesso, alerta para seus limites. "O streaming é mais um braço da exibição, não a solução. Não pode tirar o espectador do cinema", pondera.
Para d'Almeida, a experiência cinematográfica coletiva possui valor insubstituível. "É muito melhor estar junto com outros vendo um filme do que ficar em casa consumindo produtos indicados pelo algoritmo", observa, criticando a personalização excessiva do consumo cultural.
Reflexões Sobre Extremismo Político
Apesar de ter sofrido perseguição política, o cineasta adota postura conciliadora em relação aos extremos ideológicos. "Nós temos que combater os extremos. Lula e Bolsonaro representam extremos", analisa, defendendo equilíbrio democrático.
Sua experiência com censura o fez valorizar a democracia acima de preferências partidárias. "O verdadeiro artista não tem coleira ideológica. Não acredito em artista que tem teoria política limitadora", declara, rejeitando tanto dogmatismo de esquerda quanto de direita.
O Brasil Como Paraíso Cultural
Neville enxerga o Brasil como laboratório cultural único no mundo. "Não existe nada parecido com o Brasil. Aqui tem negro, índio, selva, floresta, água, rio. Riqueza etnológica, cultural, social", enumera com entusiasmo.
Para ele, essa diversidade representa vantagem competitiva no cenário cultural global. "O Brasil é paraíso do mundo. Falta apenas distribuição mais justa dos recursos", conclui, apontando desigualdade social como principal obstáculo ao desenvolvimento pleno do potencial nacional.
Legado para Futuras Gerações
A trajetória de Neville d'Almeida oferece lições fundamentais sobre resistência artística e integridade criativa. Sua recusa em aceitar limitações, mesmo diante de consequências severas, estabelece paradigma para artistas contemporâneos.
"Todo esse sofrimento, essas perseguições me fortaleceram. Os que me atrapalharam acabaram. A verdade sempre aparece", reflete, demonstrando como a persistência na verdade artística supera obstáculos temporários.
Cineasta de 85 Anos Anuncia Novo Filme: "A Dama da Internet"
Mesmo aos 85 anos, d'Almeida mantém projetos ativos. Anuncia "A Dama da Internet", adaptação contemporânea de seus temas para o século XXI. "É um novo conceito, a dama do século XXI", revela.
O cineasta também reflete sobre streaming e novas plataformas como democratização do acesso, mas defende a experiência cinematográfica coletiva. "O cinema é arte do encontro. É muito melhor estar junto com outros vendo um filme", pondera.
Mensagem de Reconciliação
Surpreendentemente, o artista que sofreu perseguição defende o perdão como caminho para o país. Inspirado em Jesus Cristo e Juscelino Kubitschek, propõe reconciliação nacional. "A única forma de equilibrar a sociedade brasileira é o perdão", declara.
A Arte Como Resistência Permanente
Neville d'Almeida representa a resistência cultural brasileira em sua forma mais pura. Sua trajetória demonstra que a arte verdadeira não se dobra a pressões políticas ou sociais, mantendo-se como testemunha e crítica de seu tempo.
"O governo passa, a censura passa, mas a arte fica", resume o cineasta, sintetizando décadas de luta pela liberdade de expressão que hoje permite ao cinema brasileiro brilhar nos palcos internacionais.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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