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Gordo Jasper, Prefeito de Araquari (SC), cidade que sedia fábrica da BMW e tem PIB de R$ 9,9 bilhões, alerta que apenas 6% da arrecadação federal retorna ao município
A Marcha dos Prefeitos chegou a Brasília nesta semana com uma pauta clara e urgente: a reforma do pacto federativo. Gestores de todo o país ocuparam a capital federal para cobrar do Congresso e do governo uma redistribuição mais justa dos recursos públicos. A insatisfação é unânime — prefeitos de cidades grandes, médias e pequenas relatam o mesmo problema: os municípios arrecadam, mas o dinheiro fica em Brasília.
Entre os líderes do movimento está Ludgero Jasper Junior, o Gordo Jasper (PSD), prefeito de Araquari, no norte de Santa Catarina. Em entrevista, ele resumiu o sentimento da categoria com números que chamam a atenção.
O desequilíbrio do pacto federativo
Gordo Jasper foi direto ao ponto. "De cada R$ 100 que vão para Brasília, apenas R$ 6 voltam para o nosso município", afirmou. O dado ilustra uma distorção histórica no modelo de distribuição de receitas do país. Embora a maior parte dos serviços públicos — saúde, educação, infraestrutura urbana, transporte — seja executada pelos municípios, o bolo tributário continua fortemente concentrado nas mãos da União.
O prefeito defendeu que a arrecadação federal seja melhor distribuída entre os entes federativos. "É preciso menos Brasília e mais município. É por isso que a gente está aqui. A gente acredita que é nos municípios que as coisas acontecem", disse.
Araquari: crescimento acelerado e desafios proporcionais
A situação de Araquari ilustra bem o paradoxo vivido por cidades em franca expansão. O município catarinense é sede da fábrica do BMW Group no Brasil, inaugurada em 2014 e que já produziu mais de 100 mil veículos. A presença da montadora alemã transformou a economia local.
Entre 2022 e 2023, o PIB de Araquari saltou de R$ 7,9 bilhões para R$ 9,9 bilhões — um crescimento de 25% em um único ano. Em uma década, o avanço foi de quase 900%, colocando a cidade no top 50 do PIB per capita do país. Entre os 295 municípios de Santa Catarina, Araquari ocupa a 11ª posição em geração de riqueza.
A cidade se tornou um polo de atração de mão de obra. "Lá não falta emprego. É uma cidade que mais cresce em Santa Catarina e uma das que mais crescem no Brasil. Estamos recebendo imigrantes do Brasil todo", afirmou o prefeito.
Mas o crescimento acelerado tem um custo. "Vêm primeiro os desafios, vêm primeiro as demandas, para depois vir a arrecadação", explicou Gordo Jasper. A frase sintetiza a realidade de prefeitos que precisam investir em infraestrutura, saúde, educação e habitação muito antes de verem o retorno fiscal dos novos empreendimentos e moradores.
A conta que não fecha
O prefeito de Araquari não está sozinho na defesa de um novo modelo. A pesquisa mencionada por ele durante a entrevista aponta que 80% dos brasileiros nascem e morrem na mesma cidade. O dado reforça o argumento municipalista: a vida real acontece nos municípios, mas o dinheiro fica concentrado no governo federal.
"A arrecadação só volta 17%. Isso não pode mais acontecer. A gente não tem mais o que correr atrás de fazer, de buscar financiamento para conseguir fazer as coisas para o povo", completou.
Para ele, a solução passa necessariamente por uma mudança na política nacional. "O primeiro passo é a questão política nacional. Criou-se essa polarização, essa briga toda", afirmou. "Todo mundo precisa passar a eleição e pensar realmente no Brasil, nos estados e nos municípios."
Pressão sobre o governo e o Congresso
A Marcha dos Prefeitos ocorre em um momento político sensível. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou recentemente que pretende colocar em pauta pautas municipalistas e tentar destravar a polarização que tem travado o Legislativo. A declaração foi recebida com otimismo cauteloso pelos gestores municipais.
"É isso que a gente acredita e é isso que a gente está aqui cobrando. Eles estão vendo a pressão dos prefeitos, que estão sufocados e precisam da ajuda do governo federal", disse Gordo Jasper.
O movimento desta semana em Brasília reúne prefeitos de todos os partidos e regiões, unidos em torno de uma pauta que transcende a polarização política. O objetivo imediato é conseguir avanços concretos na tramitação da Proposta de Emenda à Constituição que trata da reforma tributária e na regulamentação de dispositivos que ampliem o repasse de recursos aos municípios.
A força do municipalismo como pauta nacional
Especialistas apontam que a pressão municipalista ganhou força nos últimos anos justamente porque prefeitos de diferentes espectros políticos enfrentam os mesmos problemas concretos. Diferentemente do debate nacional, marcado por polarização, a gestão municipal exige resultados práticos — coleta de lixo, asfalto, postos de saúde, creches, transporte público.
A fala de Gordo Jasper reflete essa percepção. Para ele, a polarização política nacional prejudica justamente quem está na ponta, executando políticas públicas. "Acaba esse monte de briga, esse monte de coisa, e todo mundo passa a eleição para pensar realmente no Brasil", defendeu.
O recado dos prefeitos é claro: não há desenvolvimento nacional sem desenvolvimento municipal. A conta atual, com menos de 20% de retorno da arrecadação federal para as cidades, é insustentável no longo prazo.
Perfil — Ludgero Jasper Junior, o Gordo Jasper
Ludgero Jasper Junior, 37 anos, é prefeito de Araquari (SC) pelo PSD, eleito no primeiro turno em 2024 com 9.931 votos — 48% dos votos válidos. Empresário do setor hoteleiro, foi proprietário do primeiro hotel do município e atuou como vice-prefeito na gestão anterior antes de concorrer ao cargo majoritário.
Formado em Direito, construiu a carreira entre o empreendedorismo privado e o serviço público. Como gestor municipal, comanda uma cidade que vive transformação econômica acelerada desde a instalação da fábrica da BMW, maior investimento industrial da história da região. Nos primeiros meses de mandato, já sancionou projetos de lei voltados ao planejamento urbano e ao desenvolvimento ordenado do município.
Conhecido pelo apelido de Gordo Jasper, construiu uma base de mais de 6 mil seguidores no Facebook e forte presença nas redes sociais, onde combina prestação de contas da gestão com o diálogo direto com a população. É casado e reside em Araquari.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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Fontes
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