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Em 23 de abril, o Rio celebra São Jorge. No mercado, porém, não há feriado para a verdade. A era da sustentabilidade decorativa acabou. O problema é que muitas empresas ainda se comportam como se fosse possível trocar prova por narrativa, controle por estética e governança por apresentação.
É aí que o risco começa a sorrir para a foto.
Sustentabilidade não é fantasia institucional. Compliance não é figurino corporativo. Governança não é maquiagem para reunião com investidor. Tudo isso só existe de verdade quando aparece no processo, no fluxo, no documento, no controle, na rastreabilidade e na capacidade de explicar, sem fumaça, onde está o risco e quem responde por ele.
Muita empresa, porém, ainda aposta no truque antigo. Empilha boas intenções em vídeo, publica “stories” de responsabilidade, espalha siglas em inglês, contrata uma linguagem de virtude e segue operando com informação opaca, conflito mal tratado e responsabilidade pulverizada. Em resumo: ainda acredita que consegue enganar com historinha de faz de conta.
Só que o mercado já começou a cobrar a diferença entre pose e estrutura.
A imagem de São Jorge ajuda a iluminar o mecanismo. O dragão, nas relações empresariais, não é folclore. O dragão é a incoerência entre o que se promete e o que se entrega. É o abismo entre a fala institucional e a estrutura real. É a empresa que diz ter compromisso ambiental, mas não controla a cadeia. A que fala em ética, mas não documenta a decisão. A que vende governança, mas não consegue mostrar quem manda, quem recebe, quem decide e quem suporta o passivo quando a engrenagem falha.
Nesse cenário, a lança tem nome: prova.
O escudo também: controle.
E o cavalo: execução.
Sem isso, o resto é iconografia corporativa.
O escândalo do Banco Master jogou luz sobre esse problema com a brutalidade pedagógica dos fatos. Quando uma estrutura financeira entra em colapso e, ao redor dela, surgem suspeitas de assimetria informacional, falhas de conformidade, uso de veículos complexos e operações que exigem apuração institucional pesada, o dano deixa de ser localizado. Ele atravessa o caso e contamina o ambiente. O que se rompe não é só uma instituição. É um pedaço da confiança que sustenta o sistema.
E confiança, no mercado, não é sentimento. É infraestrutura.
Essa mesma lógica aparece nas operações de CRI. O instrumento, por si, não é o vilão. Pode ser legítimo, útil e sofisticado. O problema começa quando a sofisticação da embalagem tenta substituir a clareza do conteúdo. Quando a estrutura deixa de servir ao ativo e passa a servir à névoa. Quando o papel parece mais sólido que o lastro, quando a narrativa é melhor que a explicação, quando a engenharia financeira é usada para embelezar percepção, diluir responsabilidade e empurrar risco para fora do campo de visão.
Aí o mercado deixa de precificar valor. Passa a precificar opacidade.
E opacidade custa caro.
A multipropriedade também entra nessa equação. O instituto não nasceu defeituoso. Ao contrário: pode ampliar acesso, racionalizar uso, organizar ativos e gerar circulação econômica legítima no turismo e no mercado imobiliário. O problema, outra vez, não está na ferramenta. Está no comportamento de quem a opera.
Quando a multipropriedade vem acompanhada de promessa demais e transparência de menos, de publicidade sedutora e governança confusa, de mistura de chapéus empresariais, de fluxo pouco inteligível, de fruição frustrada, de taxas crescentes e de responsabilidades dispersas, ela deixa de ser solução de mercado e começa a funcionar como máquina de assimetria.
O adquirente entra comprando descanso e previsibilidade. Pode sair carregando regulamento obscuro, conflito de interesses, custos inesperados e um labirinto institucional em que todos participam da receita, mas ninguém aparece inteiro na hora da obrigação.
Esse é o centro nervoso da coluna.
Em muitas relações empresariais contemporâneas, o prestígio é privatizado e o risco é socializado. A imagem positiva fica com a empresa. O teste de realidade vai para o consumidor, para o investidor, para o parceiro contratual e, no limite, para o próprio mercado. Enquanto a vitrine sorri, alguém assina a conta no escuro.
Quando isso acontece no discurso ambiental, chama-se greenwashing.
Quando acontece na governança, chama-se compliance de fachada.
Quando acontece em estruturas imobiliárias e turísticas, pode receber nomes mais elegantes. Mas o mecanismo é o mesmo: aparência na frente, custo deslocado atrás.
O impacto sobre o mercado é direto. O crédito encarece. A auditoria endurece. A diligência se alonga. O investidor pede desconto. O parceiro contratual reforça garantia. O consumidor passa a desconfiar até de quem faz certo. E a empresa séria acaba pagando pedágio reputacional pelos truques das que escolheram vender verniz como se fosse estrutura.
A consequência sistêmica é pior: consolida-se a ideia de que vale a pena administrar percepção antes de administrar risco. Isso corrói a concorrência honesta, enfraquece a disciplina do mercado e transforma governança em peça de publicidade, quando deveria ser peça de contenção.
A ordem econômica não vive só de liberdade para empreender. Vive também de boa-fé, informação confiável e previsibilidade mínima. Sem isso, o mercado deixa de funcionar como ambiente de coordenação e começa a se parecer com um salão de apostas embalado por power point.
No fim, quem paga a conta?
Paga o consumidor, que compra confiando em compromissos que talvez não existam na prática.
Paga o investidor, que precifica com base em informação defeituosa, incompleta ou embelezada.
Paga o mercado, que perde confiança, encarece capital e aumenta o custo de transação para todos.
E paga, por último, a própria empresa que resolveu trocar estrutura por encenação: em reputação destruída, litigiosidade, deságio, crédito mais caro, vigilância regulatória e dificuldade de continuar de pé.
São Jorge continua atual porque o dragão também continua. Só mudou de roupa. Hoje ele pode aparecer em relatório vistoso, em sustentabilidade de estúdio, em compliance decorativo, em CRI mal explicado ou em multipropriedade vendida como sonho sem governança compatível.
A diferença entre proteção e fantasia permanece a mesma: quem enfrenta o risco com prova constrói escudo; quem tenta vencê-lo com storytelling apenas empurra a fumaça para dentro da própria casa.
No mercado, o dragão moderno não cospe fogo. Cospe opacidade. E toda vez que a empresa troca prova por performance, a conta sai do palco e procura uma vítima.
Jorge Tardin
Advogado e curador de engenharia jurídica da Coalizão Veredicto do Capital
Autor da coluna Quem Paga a Conta
Análises sobre consumo, mercado, governança e responsabilidade institucional
LinkedIn: Jorge Tardin
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