Thaianne Moraes, pré-candidatura a vice-governadora na chapa de André Português (Republicanos)

A delegada que larga a cadeira de chefia para disputar o Palácio Guanabara: 'Se a gente não pega para ajudar a resolver, a gente acaba fazendo parte do problema.'

No primeiro Simpósio de Segurança Pública de Vassouras, a vice-presidente da Fundação de Apoio ao Ensino e Pesquisa da Polícia Civil (FAEPOL) e delegada da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Thaianne Moraes, confirmou ao Jornal da República sua pré-candidatura a vice-governadora na chapa de André Português (Republicanos).

Com 26 anos de experiência na segurança pública, ela defende que a legislação brasileira de proteção à mulher já está entre as mais avançadas do mundo — e que o problema hoje é de outra natureza.

"A violência que tira vidas"

O Centro de Convenções General Sombra, em Vassouras, foi palco de um dos debates mais aguardados do primeiro Simpósio de Segurança Pública da cidade.

No eixo dedicado à violência de gênero, a delegada Thaianne Moraes não poupou palavras ao descrever o cenário que enfrenta diariamente nas delegacias fluminenses.

"A questão da violência de gênero, a violência que a mulher ainda enfrenta, muitas vezes é uma violência que nem é sentida pelo agressor. Outras vezes é uma violência deliberada, uma violência que tira vidas. "O quadro da mulher ainda no Brasil é muito delicado", afirmou.

Os números que ela carrega na memória são corroborados por dados oficiais.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou cerca de 1.470 feminicídios no país — o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. No primeiro trimestre de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública contabilizou 399 mortes, uma alta de 7,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Os dados foram divulgados pelo G1 em maio e confirmam que uma mulher é morta a cada 5 horas e 25 minutos no Brasil.

A bandeira que não é de guerra

Thaianne fez questão de afastar uma interpretação que considera nociva ao movimento de proteção às mulheres. "Essa bandeira não é uma bandeira de ruptura, uma guerra entre homem e mulher, como algumas pessoas buscam enfraquecer, buscam difundir isso para enfraquecer essa movimentação", disse.

Para ela, a verdadeira pauta é de inclusão e equilíbrio. "É uma oportunidade para a mulher ter vez, ter voz, poder ocupar espaços de decisão e ter a liberdade, que é o bem mais moderno que a gente pode falar em sociedade."

A fala encontra eco em um momento histórico. Em 2026, a Lei Maria da Penha completou 20 anos de vigência, e o Pacote Antifeminicídio (Lei 14.994/2024) já está em plena aplicação.

Prefeita de Vassouras, Rosi Silva, e a delegada Thaianne Moraes,

Em maio deste ano, o presidente sancionou quatro novas leis de proteção à mulher, incluindo a Lei Bárbara Penna (Lei 15.410/2026), que agrava a pena de condenados por violência doméstica que continuarem a ameaçar ou se aproximar das vítimas durante o cumprimento da pena, e a Lei 15.409/2026, que cria o Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Violência contra a Mulher (CNVM).

"A lei não faz nada sozinha."

Quando questionada sobre a necessidade de mudanças na legislação, a delegada surpreendeu ao defender que o Brasil já tem um dos arcabouços legais mais modernos do mundo na proteção à mulher.

"A legislação de proteção à mulher no Brasil é uma das mais modernas do mundo. E, além de ser uma das mais modernas, ela segue em constante atualização. Nós temos um sistema muito bom de repressão."

O diagnóstico, no entanto, é de que a lei, sozinha, não transforma realidades. "A lei, as autoridades, ninguém faz nada sozinho. Quando a gente não consegue amadurecer enquanto sociedade, a gente ainda tem certos entraves.

Segurança pública é muito mais do que polícia, muito mais do que lei, muito mais do que julgamento e condenação criminal. Enquanto cada cidadão não chamar para si essa responsabilidade, a gente segue tendo entraves."

O Conselho Nacional de Justiça confirma a complexidade do problema: nos primeiros quatro meses de 2026, foram requeridas 159.990 medidas protetivas em todo o Brasil, das quais 104.401 foram concedidas.

No mesmo período, foram iniciados 74.261 processos por descumprimento de medida protetiva — um indicador de que a proteção legal, por si só, não basta se não houver fiscalização efetiva e mudança cultural.

O convite que veio do interior

No meio do debate sobre segurança pública, a entrevista ganhou um contorno político. Thaianne Moraes confirmou que aceitou o convite para ser pré-candidata a vice-governadora do Rio de Janeiro na chapa encabeçada por André Português, ex-prefeito de Miguel Pereira e pré-candidato ao Palácio Guanabara pelo Republicanos.

O convite chegou até a mim exatamente para que eu priorizasse a segurança pública.

É uma coisa muito feliz você ver que esse convite chega pelas mãos de um gestor com mais de 26 anos de carreira, que já fez gestões nas prefeituras de forma primorosa. Ele ter esse olhar e me fazer esse convite — pessoalmente, fiquei muito feliz, declarou.

André Português, de 51 anos, foi prefeito de Miguel Pereira de 2017 a 2024 e venceu a disputa interna do Republicanos contra Garotinho para ser o nome do partido na sucessão estadual.

A chapa foi apresentada oficialmente em 8 de maio de 2026 e é considerada "puro sangue" por ser composta integralmente por filiados do Republicanos.

A responsabilidade de quem aceita o desafio

Thaianne não tratou a pré-candidatura como realização pessoal, mas como dever profissional. "Profissionalmente, a gente da segurança pública está passando por um momento de tomada de decisão.

Quando a gente recebe esse tipo de convite, se a gente não pega para ajudar a resolver, a gente acaba fazendo parte de um problema.

Enquanto profissional da segurança pública qualificado, é responsabilidade nossa."

Ela também destacou que carrega consigo a representatividade feminina. "Sinto-me muito honrada e sinto que trago comigo todas as mulheres. No estado do Rio de Janeiro, a gente tem hoje um problema na pauta do dia, que é o da segurança pública a ser resolvido."

A segurança pública é, historicamente, um dos calcanhares de Aquiles da gestão fluminense.

O estado convive com disputas entre facções criminosas, milícias e uma letalidade policial que constantemente coloca o Rio no centro dos debates nacionais.

Ter uma delegada de carreira na vice-governança representa, na avaliação de analistas políticos, uma sinalização de que a pauta da segurança será tratada com prioridade técnica, não apenas política.

Debate qualificado em tempos de opinião fácil.

Ao encerrar a participação no simpósio, Thaianne Moraes deixou uma reflexão que transcende o evento. "Numa era em que todo mundo tem opinião sobre tudo, a gente precisa prestigiar as pessoas que se qualificam, estudam sobre o tema, para que elas possam, sim, difundir opiniões qualificadas."

A fala é um contraponto direto à era das redes sociais, em que o debate público sobre segurança é frequentemente tomado por simplificações e soluções mágicas.

A delegada aposta na formação técnica e na experiência de quem vive o sistema por dentro como antídoto para o discurso raso.

O Simpósio de Vassouras, realizado nos dias 11 e 12 de junho, foi promovido pela Prefeitura de Vassouras em conjunto com a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Defesa Civil, e contou com a participação das polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal e representantes do sistema de justiça criminal.

O evento discutiu também a integração dos municípios do interior a programas federais como o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), com foco na prevenção para evitar que o interior do estado repita os problemas crônicos da capital.

Biografia: Thaianne Moraes

Thaianne Moraes é delegada de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e vice-presidente da Fundação de Apoio ao Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa da Polícia Civil (FAEPOL), instituição sem fins lucrativos criada em 1999 que atua na capacitação e no desenvolvimento técnico-científico dos profissionais de segurança pública fluminenses.

Mestre em Direito e professora de Direito Constitucional, Thaianne construiu uma carreira marcada pela atuação no enfrentamento à violência de gênero e pela defesa de políticas públicas de segurança baseadas em evidências e qualificação técnica.

Ex-assessora jurídica do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, foi aprovada em concurso público para a carreira de delegada e, desde então, acumula mais de uma década de experiência na ponta do sistema de segurança.

Em maio de 2026, foi anunciada como pré-candidata a vice-governadora do Rio de Janeiro na chapa de André Português (Republicanos), tornando-se a primeira mulher delegada de carreira a compor uma chapa majoritária no estado.

Seu trabalho pode ser acompanhado pelo Instagram @thaianne_moraes.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber 

Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial

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Por Ultima Hora em 14/06/2026
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