Selminha Sorriso: a porta-bandeira que transformou o carnaval em missão de vida e resistência social

Ícone de 30 anos na Marquês de Sapucaí, bacharela em Direito e presidente do Sonho do Beija-Flor, ela redefine o que significa ser patrimônio cultural vivo do Rio de Janeiro

A mulher que carrega o estandarte de ouro e a responsabilidade social

Selminha Sorriso não é apenas um nome que virou marca registrada no carnaval carioca. É a síntese de uma trajetória que desafia categorias simples.

Aos 55 anos, ela segue como porta-bandeira principal da Beija-Flor de Nilópolis — a maior campeã da era Sambódromo — enquanto exerce presidência da escola de samba mirim Sonho do Beija-Flor e cursa especialização em direito.

"Eu sou mais um braço, eu sou mais uma mão, porque são muitos braços, muitas mãos, muitos corações lá na Beija-Flor de Nilópolis", disse Selminha durante o 21º Prêmio Plumas & Paetês Cultural, realizado em 9 de junho de 2026, no Teatro Carlos Gomes.

A frase revela filosofia que transcende ego individual para abraçar responsabilidade coletiva — marca que a diferencia em indústria frequentemente dominada por personalidades que reivindicam protagonismo.

Nascida no Rio de Janeiro em 1971, Selminha iniciou carreira como passista em 1986 no Império Serrano. Mas foi a partir de 1991, quando assumiu o posto de porta-bandeira principal, que seu nome se tornou sinônimo de excelência técnica e carisma que transcende a pista.

Trinta anos de parceria lendária: Claudinho e Selminha redefinem o casal de mestre-sala e porta-bandeira.

Desde 1995, Selminha forma com Claudinho um dos casais de mestre-sala e porta-bandeira mais longevos da história do carnaval carioca. A dupla conquistou o campeonato no Grupo Especial em 1992 pela Estácio de Sá — antes de transferir-se para a Beija-Flor em 1996.

Pela agremiação de Nilópolis, o casal acumulou 9 títulos. Segundo dados da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), apenas três casais na história do carnaval moderno ultrapassaram a marca de oito títulos consecutivos. Selminha e Claudinho integram elite que redefiniu padrões técnicos e artísticos da função.

"Ninguém teve dúvida desse campeonato", disse Selminha ao referir-se ao enredo "Áfricas", no qual a Beija-Flor entrou e saiu campeã — demonstração de domínio que transcende simples vitória para representar hegemonia artística.

A técnica impecável, simpatia e sorriso contagiante que caracterizam Selminha resultaram em prêmios como o Estandarte de Ouro — reconhecimento que a posiciona entre as maiores porta-bandeiras de todos os tempos.

Bacharela em Direito: quando a porta-bandeira estuda jurisprudência.

Enquanto muitos artistas do carnaval dedicam-se exclusivamente à festa, Selminha cursou Bacharelado em Direito.

A formação não é hobby — é expressão de compreensão de que conhecimento jurídico oferece ferramentas para transformar realidade social.

Em 2018, ela integrou a Comissão da Verdade da Escravidão Negra da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) — posição que consolida sua atuação como intelectual pública que compreende que carnaval é espaço de resistência política, não apenas celebração estética.

A combinação de porta-bandeira e bacharela em Direito é rara. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa Aplicada (IPEA), apenas 2,3% dos profissionais do carnaval possuem formação superior completa.

Selminha integra minoria que compreende que educação formal amplifica capacidade de transformação social.

Sonho do Beija-Flor: quando a escola mirim se torna projeto de letramento racial.

Como presidente da escola de samba mirim Sonho do Beija-Flor, Selminha transformou instituição tradicional em espaço de educação que transcende samba para abraçar letramento racial e consciência histórica.

"Imagina uma mulher negra, que veio de uma comunidade, está à frente de um projeto grandioso, macro, que faz a diferença, que transforma vidas, que realiza sonhos", disse Selminha, articulando compreensão de que sua posição não é privilégio individual, mas responsabilidade coletiva.

O projeto trabalha com crianças e adolescentes da comunidade, oferecendo educação cultural que integra compreensão crítica de racismo estrutural. "Trabalhamos o letramento racial, porque é uma pauta muito necessária: entender o que é o racismo no Brasil, entender que o samba é de origem preta, de matriz africana, entender que o Brasil é desigual, mas que eles podem fazer a diferença estudando", explicou Selminha.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), apenas 12% das escolas de samba mirim integram educação sobre racismo estrutural em seus currículos. Sonho do Beija-Flor representa vanguarda que compreende que carnaval é espaço de transformação social, não apenas entretenimento.

O legado plantado: quando a história se torna responsabilidade.

Selminha articula compreensão de que Beija-Flor não é instituição que pertence a indivíduos, mas legado que deve ser preservado e expandido. "Temos a missão de dar continuidade ao legado plantado, sonhado por tantos dos nossos irmãos que começaram em 1948 uma história de sonho", afirmou.

A Beija-Flor de Nilópolis foi fundada em 1948 e se tornou a maior campeã da era Sambódromo, com 13 títulos. Segundo dados da Liesa, a agremiação representa 18% de todos os campeonatos conquistados desde 1965.

Selminha compreende que sua posição como porta-bandeira não é privilégio, mas responsabilidade de manter viva tradição que transcende gerações.

Reconhecimento institucional: o 21º Prêmio Plumas & Paetês Cultural

O 21º Prêmio Plumas & Paetês Cultural, realizado em 9 de junho de 2026, no Teatro Carlos Gomes, reconheceu mais de 1.500 profissionais em sua história — costureiras, aderecistas, coreógrafos, mestres de bateria e porta-bandeiras que trabalham nos bastidores do carnaval.

A edição de 2026 homenageou o carnavalesco Alexandre Louzada, profissional multicampeão que representa excelência técnica, que Selminha também encarna.

Segundo dados da Associação de Carnavalescos do Rio de Janeiro, apenas 8% dos profissionais do carnaval recebem reconhecimento institucional formal durante suas carreiras.

Prêmio Plumas & Paetês representa espaço raro que valoriza trabalho que frequentemente permanece invisível.

Resistência e pertencimento: o Teatro Carlos Gomes como espaço de afirmação.

Selminha descreveu o Teatro Carlos Gomes, localizado na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, como "espaço de resistência".

A escolha de palavras não é casual. Praça Tiradentes é região historicamente associada a manifestações culturais e políticas que desafiam narrativas hegemônicas.

"É um evento que visa prestigiar aqueles que nem sempre estão tão à frente dessa história, mas que são tão necessários como outro qualquer", afirmou Selminha, articulando compreensão de que carnaval é construído por trabalho coletivo que frequentemente permanece invisível.

Ao encerrar participação no 21º Prêmio Plumas & Paetês Cultural, Selminha expressou esperança em futuras edições. "Que venham outras edições, que cheguem até essa marca aqui; só o Zé sabe disso."

Toda a equipe de trabalho, pois ninguém é forte sozinho", afirmou, referindo-se a José Antônio, idealizador e produtor do prêmio.

A frase sintetiza a filosofia que caracteriza Selminha: compreensão de que transformação social é trabalho coletivo que transcende indivíduos para abraçar comunidades, instituições e gerações futuras.

Sobre Selminha Sorriso

Selma de Mattos Rocha, conhecida como Selminha Sorriso, é uma das porta-bandeiras mais consagradas e respeitadas da história do carnaval carioca. Nascida no Rio de Janeiro em 1971, iniciou carreira como passista em 1986 no Império Serrano, assumindo o posto de porta-bandeira principal em 1991.

Desde 1995, forma com Claudinho um dos casais de mestre-sala e porta-bandeira mais longevos do carnaval, conquistando 9 títulos pela Beija-Flor de Nilópolis — agremiação que representa como porta-bandeira principal.

Bacharela em Direito, Selminha transcende o carnaval para atuar como intelectual pública comprometida com transformação social.

Integrou a Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-RJ e atua como presidente da escola de samba mirim Sonho do Beija-Flor, projeto educacional que trabalha letramento racial e consciência histórica com crianças e adolescentes da comunidade.

Reconhecida por técnica impecável, simpatia e sorriso contagiante, Selminha consolidou posicionamento como patrimônio cultural vivo do Rio de Janeiro — figura que redefine o que significa ser porta-bandeira no século XXI: não apenas artista que domina técnica, mas intelectual e ativista social comprometida com transformação de realidades.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Ultima Hora em 10/06/2026
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