Tatiana Queiroz: a delegada que transforma 24 anos de combate à violência de gênero em protocolo para empresas e sociedade

Em evento que reuniu 70 mulheres influentes em Botafogo, uma das maiores autoridades do país no enfrentamento ao feminicídio revela por que o aumento de denúncias não significa aumento de crimes, e por que o silêncio corporativo ainda custa vidas

Rio de Janeiro. A enseada de Botafogo foi palco, nesta terça-feira (23), do encontro Entre Elas, que reuniu 70 mulheres de diferentes áreas, advogadas, médicas, empresárias, comunicadoras, em torno de um tema que atravessa todas as profissões e classes sociais: a violência de gênero.

O evento, realizado no hotel Yoo2, na Praia de Botafogo, teve como anfitriã a delegada Tatiana Queiroz, uma das maiores autoridades do Brasil no enfrentamento aos crimes contra a mulher.

Com 24 anos de carreira policial, sendo 18 deles dedicados exclusivamente à violência de gênero, Tatiana Queiroz acumula uma trajetória que poucas autoridades no país podem ostentar: passou por quatro Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM), duas Divisões de Homicídios e comandou operações que resultaram em cerca de 1.500 prisões de agressores.

Hoje, como Ouvidora-Geral da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, ela leva para dentro das empresas o que aprendeu, onde erro custa vidas.

O paradoxo do aumento de denúncias

Se a Lei Maria da Penha completa 19 anos em 2026 e o feminicídio foi tipificado como crime hediondo em 2015, por que os números continuam subindo?

Tatiana Queiroz oferece uma leitura.

O crescimento dos registros, explica, não significa necessariamente que mais mulheres estão sendo agredidas. Significa que mais mulheres estão denunciando.

Hoje as mulheres são informadas. Conseguimos educar para que procurem atendimento, para que procurem denunciar.

E não só nas delegacias, o acolhimento hoje é feito em vários equipamentos estatais, municipais e, principalmente, as empresas estão abrindo espaço para esse acolhimento.

A explicação encontra respaldo nos números oficiais.

O canal Ligue 180 registrou crescimento de 45% nos atendimentos e 17% nas denúncias em 2025, segundo o Ministério das Mulheres.

O percentual de feminicídios corretamente identificados entre os homicídios dolosos femininos saltou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024 — o que indica melhora na capacidade institucional de classificar e notificar os crimes.

O custo silencioso da violência no ambiente corporativo

Se a violência doméstica fosse apenas um problema de segurança pública, os números já seriam alarmantes o bastante.

Mas Tatiana Queiroz trouxe ao evento Entre Elas uma camada adicional que atinge diretamente o mundo corporativo: o impacto econômico e produtivo da violência contra a mulher.

A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, revelou que 46% das mulheres que sofreram violência doméstica tiveram o trabalho diretamente impactado.

São cerca de 24 milhões de brasileiras que tiveram a rotina profissional alterada pela violência, queda de produtividade, faltas recorrentes, dificuldade de concentração e, em muitos casos, abandono do emprego.

Os números do Judiciário também impressionam.

O Tribunal Superior do Trabalho recebeu 142,8 mil novos processos por assédio moral apenas em 2025, um salto de 22,3% em relação ao ano anterior. O Ministério Público do Trabalho registrou mais de 18 mil denúncias no mesmo período.

"A empresa que não tem protocolo para isso acumula passivo jurídico, perda de produtividade e risco de imagem — em silêncio", alerta a delegada.

Protocolo Não é Não e SER H: as ferramentas que salvam vidas.

Tatiana Queiroz é coautora de duas iniciativas que se tornaram referência nacional no enfrentamento à violência de gênero. O Protocolo Não é Não, que estabelece diretrizes claras para o acolhimento de vítimas e a responsabilização de agressores, e o SER H — Serviço de Responsabilização do Homem, programa inovador da Secretaria de Estado da Mulher do Rio de Janeiro, que atua com homens autores de violência, interrompendo o ciclo antes que ele se repita.

O SER H representa uma mudança de paradigma no combate à violência de gênero.

Em vez de focar apenas na punição após o crime, o serviço trabalha a responsabilização e a reeducação de agressores, reduzindo a reincidência e, consequentemente, salvando vidas que ainda não foram perdidas.

A responsabilidade social que vai além do relatório ESG

O evento Entre Elas não foi apenas uma roda de conversa. Foi um chamado à ação para mulheres que ocupam posições de liderança na sociedade civil e na iniciativa privada.

Tatiana Queiroz deixou claro que o enfrentamento à violência de gênero não é responsabilidade exclusiva do Estado, é uma obrigação compartilhada por todos os setores.

"Quando a gente traz mulheres que trabalham na sociedade civil e em empresas privadas, a gente mostra que o enfrentamento à violência contra a mulher é uma responsabilidade de todos", afirmou.

A delegada tem levado essa mensagem a empresas de todo o país por meio da TransformaMente Consultoria e Treinamentos, sua plataforma de palestras e capacitação corporativa.

Os temas vão desde a criação de canais de escuta e protocolos de encaminhamento até a construção de uma cultura organizacional psicologicamente segura para as mulheres.

Os números que ela apresenta são um alerta: 76% das brasileiras já sofreram violência e assédio no trabalho, segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e Locomotiva. E uma em cada seis mulheres pede demissão após sofrer assédio no ambiente corporativo, de acordo com o Instituto Ethos.

O Rio de Janeiro é o futuro da segurança pública.

Questionada sobre os caminhos para reduzir a violência no estado do Rio de Janeiro, Tatiana Queiroz foi direta: todas as forças de segurança pública estão mobilizadas em operações de inteligência e gestão.

"Estamos fazendo o nosso melhor pelo Rio de Janeiro. Acredito que em breve teremos bons resultados e os números com certeza cairão de diversos crimes."

A confiança da delegada não é gratuita.

Sua trajetória inclui a liderança do Grupo Especial de Local de Crime da Divisão de Homicídios da Capital, a passagem pela Secretaria de Assistência à Vítima do Estado do Rio de Janeiro e o comando do Departamento-Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM). Foram 23 anos de atuação em campo antes de assumir a Ouvidoria-Geral da PCERJ.

Perfil: Tatiana Queiroz

Tatiana Queiroz é delegada de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e Ouvidora-Geral da PCERJ — uma das maiores autoridades do Brasil em violência de gênero.

São 24 anos de carreira policial, com passagem por quatro Delegacias de Atendimento à Mulher e duas Divisões de Homicídios.

Formada em Direito pela PUC-Rio e pós-graduada, comandou o Grupo Especial de Local de Crime da Divisão de Homicídios da Capital e foi Secretária de Assistência à Vítima do Estado do Rio de Janeiro.

Liderou operações que resultaram na prisão de mais de 1.500 agressores e apoiou mais de 500 famílias durante a Tragédia de Petrópolis, ação reconhecida com a Medalha Tiradentes.

Como Superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria de Estado da Mulher, impactou mais de 2.800 pessoas com programas de capacitação e acolhimento.

É coautora do Protocolo Não é Não e do SER H — Serviço de Responsabilização do Homem.

Hoje, como palestrante e founder da TransformaMente Consultoria e Treinamentos, leva para empresas dados, legislação e protocolos de campo para criar ambientes corporativos seguros e construir responsabilidade social que vai além do relatório ESG.

Por Robson Talber

 

Por Ultima Hora em 25/06/2026
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