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As chamadas “canetas emagrecedoras”, como Mounjaro, Wegovy, Ozempic e os mais recentes Poviztra e Ozivy, se tornaram uma das principais ferramentas no tratamento da obesidade e na promoção da saúde metabólica como um todo.
Mas o que muita gente esquece é que estamos falando de medicamentos. E medicamentos exigem acompanhamento médico especializado. No consultório, eu tenho visto cada vez mais pacientes que iniciaram essas medicações empolgados com a perda de peso, mas sem nenhum plano claro de acompanhamento, exames ou preservação de massa magra.
É a estratégia “Zeca Pagodinho” do “deixa a vida me levar” – o que geralmente não termina bem não...
O uso seguro dessas medicações depende de acompanhamento contínuo, porque o problema quase nunca é apenas perder peso. O objetivo é perder gordura, preservar massa magra e evitar deficiências nutricionais, tão comuns no dia a dia do consultório em pessoas que usam essas medicações por conta própria.
No dia a dia do consultório, o que observo é que a maior parte das pessoas que “passa mal” usando esses medicamentos não está necessariamente sofrendo por um efeito direto da medicação. Muitas vezes, a pessoa comeu pouco demais, bebeu pouca água, entrou em processo de desidratação ou deixou de ingerir nutrientes essenciais.
Muitos pacientes relatam uma diminuição da sede, que acompanha a saciedade precoce induzida por esses medicamentos. Isso, aliado à possibilidade de náuseas ou vômitos, pode favorecer a desidratação sem que a pessoa perceba.
Por isso, antes de começar e durante o tratamento, alguns exames ajudam muito a acompanhar se o organismo está caminhando na direção desejada: mais saúde, menos gordura e melhor composição corporal.
No dia a dia do meu consultório, acompanhando pacientes em uso de “canetas emagrecedoras”, existem alguns exames que considero essenciais.
1. Hemoglobina glicada e insulina
A maior parte dos pacientes vive a “cegueira da glicemia”. Acredita que a glicemia do sangue, isoladamente, é o fator mais importante quando falamos de metabolismo dos açúcares.
Mas não poderiam estar mais longe da verdade.
Para pessoas não diabéticas, ou seja, aquelas em que o organismo ainda consegue controlar a glicemia, a hemoglobina glicada e a insulina costumam ser muito mais importantes como indicadores metabólicos.
A insulina, quando alta, pode significar resistência insulínica. Isso acontece quando as células de gordura atrapalham o funcionamento normal da insulina, obrigando o organismo a produzir cada vez mais insulina para manter a glicose controlada.
Esse é frequentemente o primeiro passo em direção ao pré-diabetes.
Já a hemoglobina glicada mostra a média da glicemia dos últimos três meses, o que é muito mais relevante do que olhar apenas a glicemia de um dia ou a glicemia de ponta de dedo em pessoas não diabéticas.
Todos os dias chegam ao consultório pacientes em pré-diabetes, às vezes já avançado, com hemoglobina glicada elevada e sem saber. Estão lentamente caminhando para o diabetes sem ter consciência disso.
Por isso, esses exames são fundamentais e não podem faltar.
2. Função renal
As canetas promovem saciedade. Em alguns pacientes, como disse, também atrapalham a percepção da sede.
A pessoa passa a comer menos e beber menos água. Às vezes tem náusea, às vezes tem vômito, às vezes o intestino solta. Felizmente, isso não acontece com todos, mas acontece.
E, quando o paciente está passando mal, muitas vezes a culpa é da baixa ingestão desse precioso líquido: a água.
Por isso, exames como creatinina e ureia fazem sentido no acompanhamento de pacientes usando medicamentos da classe dos GLP-1, principalmente no começo do tratamento ou em pessoas idosas, hipertensas ou com maior risco de desidratação.
A verdade é que a maior parte das pessoas simplesmente não alcança a meta diária de água. Isso precisa ser aprendido.
E tem mais: tudo na nossa sociedade induz a gente a beber qualquer coisa, menos água. Já pararam para perceber isso?
3. Vitamina D
Hoje em dia, vivemos uma verdadeira epidemia de vitamina D baixa.
Quase todos os pacientes chegam ao consultório com vitamina D abaixo do ideal.
Existe aqui um engano muito comum: para o paciente obeso, a faixa ideal de vitamina D não é 20, nem “vinte e pouco”. O paciente obeso é grupo de risco, e o ideal costuma ser manter níveis entre 30 e 60 ng/mL.
Existe um agravante particular na obesidade: a própria gordura corporal absorve vitamina D, porque a vitamina D é solúvel em gordura. Então, o paciente obeso tem maior chance de hipovitaminose D do que uma pessoa não obesa.
Não basta fazer um exame, ver que está baixo e abandonar. É preciso examinar, repor o que está faltando e acompanhar periodicamente para ver se os níveis da vitamina estão de fato subindo.
4. Bioimpedância
Muitas pessoas ainda não fizeram a transição do peso da balança comum para a composição corporal. E isso é especialmente importante em quem está em uso das “canetas emagrecedoras”, porque perder peso rápido não significa, necessariamente, emagrecer bem.
Ou seja: diminuir percentual de gordura, preservar a quantidade de músculo, manter a água corporal total e assim por diante.
A verdade é que se pesar na balança de banheiro e fazer aeróbico para emagrecer é algo dos anos 70. Graças a Deus estamos no século 21, onde sabemos um pouquinho mais sobre o funcionamento do corpo humano.
O grande desafio em qualquer processo de emagrecimento, seja com dieta, cirurgia bariátrica, medicamento ou qualquer outro método, é preservar massa magra.
Isso só é obtido com treino de força, musculação, de preferência dentro de um ambiente controlado, como uma academia.
Não é à toa que as academias têm despertado um interesse crescente no Brasil. Benefícios corporativos como Gympass e TotalPass têm feito os olhos das empresas brilharem, porque cada vez mais pessoas estão entendendo que emagrecimento não é apenas baixar o número da balança.
É mudar a composição corporal.
5. Ultrassom abdominal
Outro ponto que muitas vezes fica esquecido no emagrecimento é o nosso amado fígado.
Em pacientes com grande concentração de gordura abdominal, especialmente gordura visceral — aquela gordura dentro do abdômen, que é a mais prejudicial para o nosso corpo — pode valer muito a pena fazer um ultrassom de abdômen total.
O objetivo é avaliar a presença de esteatose hepática, o famoso fígado gorduroso.
Muitas vezes o paciente conta, em tom de brincadeira, que já fez ultrassom e que o ultrassonografista disse que ele tinha “uma gordurinha leve”, a “gordurinha da picanha”.
Eu tenho uma reflexão pessoal sobre essa brincadeira, que provavelmente é feita com a melhor das intenções, para tranquilizar o paciente.
A esteatose hepática se tornou tão comum, tão comum, que virou quase uma banalidade.
De fato, hoje a maior causa de gordura no fígado não é mais o alcoolismo, mas sim a obesidade, disparadamente. Isso é uma mudança enorme, porque quando eu fiz faculdade, nos distantes anos 80, a principal causa de esteatose era o álcool. Eram raros os casos ligados à obesidade.
Isso mostra como a nossa alimentação e as nossas condições de vida pioraram nos últimos 30 anos.
Então pode valer a pena solicitar um ultrassom, pedindo ao colega ultrassonografista que avalie com carinho a presença de gordura no fígado.
A boa notícia é que o tratamento passa por perda de peso, melhora da alimentação, atividade física e, em alguns casos, medicamentos antiobesidade. Entre eles, a semaglutida — princípio ativo de medicamentos como Ozempic, Wegovy, Poviztra, Ozivy e outros — tem se mostrado útil no combate à gordura no fígado, sempre aliada à mudança do estilo de vida.
Para resumir
As canetas emagrecedoras são medicamentos maravilhosos, sem dúvida. Mas não são milagre.
São medicamentos potentes, que precisam de prescrição individualizada, acompanhamento médico e monitoramento de perto.
E mais: o tempo do medicamento precisa ser também o tempo de mudar hábitos.
Se a pessoa usa a medicação apenas para emagrecer para um evento, caber em um vestido ou resolver o problema de forma temporária, sem mudar nada no estilo de vida, sinto dizer: ela perdeu tempo e perdeu dinheiro.
Porque os quilos perdidos vão encontrá-la novamente ali na esquina.
Dr. Noé Alvarenga é médico nutrólogo (CRM 55524-5 RJ – RQE 33056), com atuação focada no tratamento da obesidade e sobrepeso, na nutrologia clínica e no manejo responsável de terapias metabólicas, incluindo agonistas de GLP-1 quando indicados. É fundador da Clínica Nutrobarra com unidades na Barra da Tijuca, no Shopping Downtown, e em Del Castilho, no Shopping Nova América, no Rio de Janeiro.
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