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Dez anos sem a festa, laranja ameaçada por pragas e o FPM que não chega: a luta do ex-garçom que se tornou prefeito de Boquim e foi a Brasília cobrar um novo pacto federativo
Com 25 mil habitantes e uma das economias mais dependentes do Fundo de Participação dos Municípios em Sergipe, a cidade que já foi o segundo maior polo citrícola do Brasil enfrenta o encolhimento da produção, o avanço de pragas e a asfixia financeira imposta por leis federais sem lastro.

Brasília — A XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios reuniu na capital federal prefeitos de todos os partidos e regiões do país em torno de uma pauta que se repete há décadas, mas nunca foi tão urgente: a reforma do pacto federativo. Enquanto a União edita medidas provisórias, aprova pisos salariais e eleva alíquotas previdenciárias, as prefeituras recebem as contas sem ter de onde tirar o dinheiro para pagá-las.
Entre as lideranças que levaram esse diagnóstico ao centro do poder estava o prefeito de Boquim, em Sergipe, Jackson Costa Santos, 52 anos, mais conhecido como Jackson do Mangue Grande. Em segundo ano de mandato, ele participou do evento acompanhado de outros gestores sergipanos e do governador Fábio Mitidieri (PSD), em uma demonstração de união suprapartidária em torno das causas municipalistas.
O FPM que não sustenta e as leis que chegam sem recurso
Jackson foi direto ao ponto. Boquim, como a maioria dos pequenos municípios brasileiros, vive quase que exclusivamente do Fundo de Participação dos Municípios. Quando a receita própria é insuficiente para cobrir as despesas fixas, qualquer aumento de custo imposto por lei federal se transforma em crise.
"É muito complicado para o município que vive só do FPM. Cada dia que passa, os prefeitos é que pagam a conta. A União fica com a maior parte dos tributos, os estados também, e a menor parte vai para o município. Somos muito penalizados", afirmou.
O diagnóstico é corroborado por dados oficiais. Boquim tem 25.007 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, distribuídos em uma área de 205 km² no leste sergipano, com densidade demográfica de 119,92 habitantes por km². O PIB per capita é de R$ 13.520 (2021), e a arrecadação própria é insuficiente para sustentar a máquina pública sem os repasses constitucionais.
O prefeito denunciou o que chamou de "criação de leis sem estudo correto da realidade de cada município". A referência é direta aos pisos salariais nacionais e ao aumento progressivo da alíquota patronal do INSS sobre os servidores municipais — encargos que, segundo ele, são aprovados em Brasília sem a correspondente contrapartida financeira.
A cidade que já foi o segundo maior produtor de laranja do país
Boquim carrega no nome e na alma a marca da citricultura. Conhecida como a Terra da Laranja, a cidade viu a primeira muda de laranjeira da variedade "baía" chegar ainda na década de 1920, trazida por agricultores que encontraram no solo e no clima do leste sergipano as condições ideais para o cultivo. O que começou como uma alternativa ao algodão e à pecuária transformou-se, ao longo do século XX, em uma das mais pujantes economias citrícolas do Nordeste.
Boquim chegou a ser o segundo maior produtor de laranja do país, posição que sustentou por décadas. Segundo dados da Secretaria de Agricultura de Sergipe, a microrregião de Boquim ainda figura como a segunda maior fornecedora de laranja para as Centrais de Abastecimento (Ceasas) do Brasil, com volume superior a 5 mil toneladas mensais em safras regulares.
Mas o esplendor dos laranjais enfrenta hoje uma ameaça silenciosa e devastadora. Pragas como o greening (huanglongbing) — a doença mais destrutiva da citricultura mundial, para a qual não existe cura — avançam sobre os pomares, reduzindo a produtividade e obrigando produtores a arrancar pés centenários. Muitos agricultores estão migrando para o cultivo de milho e outras culturas de ciclo curto.
"A laranja é o nosso maior símbolo econômico. Mas hoje passamos por uma série de dificuldades por causa das pragas", reconheceu o prefeito.
A Festa da Laranja que renasceu depois de uma década
Se a praga ameaça o fruto, a cultura resiste. Em 2025, Jackson tomou uma decisão que mexeu com o orgulho do boquinense: resgatou a Festa da Laranja, tradicional celebração que estava há mais de dez anos sem ser realizada.
A festa, que teve sua primeira edição em 1956, idealizada por jovens estudantes locais, foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe em 2021 pela Assembleia Legislativa. A 47ª edição aconteceu entre 21 e 23 de novembro de 2025, com programação que incluiu a coroação da Rainha da Laranja, atrações musicais, feira de negócios e espaços dedicados à discussão técnica sobre a citricultura.
O evento representou mais do que nostalgia. A retomada da festa sinalizou aos produtores rurais que o poder público não abandonou o setor. Durante a programação técnica, o prefeito esteve ao lado do secretário estadual de Agricultura, Zeca da Silva, e de lideranças do setor produtivo para discutir saídas para a crise da laranja.
Além da citricultura, Boquim tem se diversificado. O município ganhou destaque na comercialização de plantas ornamentais e flores, cultivadas há mais de 26 anos na região, e o Mercado das Flores tornou-se ponto de referência para compradores de todo o estado.
O ex-garçom que chegou à prefeitura
A trajetória de Jackson do Mangue Grande até a cadeira de prefeito poderia render um livro. Aos sete anos, começou a trabalhar como carroceiro para ajudar a mãe e a família. Mais tarde, tornou-se garçom, profissão que, segundo ele, ensinou a verdadeira essência do serviço público: ouvir as pessoas, entender suas necessidades e servir com dedicação.
Foi eleito vereador por cinco mandatos consecutivos, tendo presidido a Câmara Municipal de Boquim por duas legislaturas. Em 2024, candidatou-se a prefeito pelo PSD e venceu a eleição no primeiro turno com 9.142 votos — 52,43% dos votos válidos, em uma disputa acirrada contra Juquinha das Plantas (47,57%).
O perfil humilde e a história de superação foram decisivos para a vitória. Em uma cidade onde a política sempre foi dominada por famílias tradicionais, a ascensão de um ex-carroceiro e ex-garçom representou uma ruptura simbólica.
A Marcha e o peso do municipalismo
Aos 52 anos, casado e pai de família, Jackson desembarcou em Brasília na companhia do governador Fábio Mitidieri e de dezenas de outros prefeitos sergipanos. A comitiva participou de reuniões com parlamentares, debates nas arenas temáticas e encontros com lideranças do Congresso Nacional.
"A Marcha é um momento único para reivindicar nossos direitos e mostrar a realidade de cada município", disse.
O evento deste ano teve como pano de fundo um cenário fiscal apertado para os municípios. Dados da Confederação Nacional de Municípios indicam que, para sete em cada dez prefeituras brasileiras, o FPM é a principal — quando não a única — fonte de receita. Enquanto isso, as despesas obrigatórias crescem em ritmo muito superior à inflação e ao crescimento da arrecadação.
Jackson defendeu que o Congresso Nacional e o Executivo federal precisam ouvir os prefeitos antes de aprovar novas leis que impactem as contas municipais. "São criadas muitas leis e não há um estudo correto da realidade de cada município. Somos penalizados", reforçou.
Um gestor que não esquece as origens
A marca pessoal de Jackson Costa Santos é a proximidade com as comunidades rurais e a linguagem simples, herdada dos tempos de garçom. Nas redes sociais, onde acumula mais de 15 mil seguidores, ele publica diariamente o trabalho de recuperação de estradas vicinais, a manutenção de escolas municipais e as ações emergenciais no combate às pragas da laranja.
Em maio de 2026, o governador Fábio Mitidieri reuniu 67 prefeitos sergipanos em um hotel de Brasília para reforçar a aliança municipalista e articular emendas parlamentares. Jackson esteve presente, ao lado de colegas de todas as regiões do estado.

Perfil | Jackson Costa Santos
Jackson Costa Santos, 52 anos, mais conhecido como Jackson do Mangue Grande, nasceu em Lagarto (SE) e construiu em Boquim uma trajetória política que impressiona pela origem humilde. Aos sete anos, trabalhou como carroceiro para ajudar no sustento da família. Mais tarde, foi garçom, profissão que define como sua grande escola de serviço público: "Aprendi a servir, ouvir e estar ao lado da comunidade." Foi eleito vereador por cinco mandatos consecutivos, tendo presidido a Câmara Municipal de Boquim por duas legislaturas. Em 2024, elegeu-se prefeito pelo PSD com 52,43% dos votos válidos no primeiro turno, derrotando adversários com maior tempo de exposição política. Em seu segundo ano de gestão, resgatou a tradicional Festa da Laranja, ausente havia mais de uma década, e reposicionou Boquim no mapa da citricultura nacional como a Capital Sergipana da Laranja. Filiado ao PSD, integra a base de apoio do governador Fábio Mitidieri e participou ativamente da XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios ao lado de outros 67 prefeitos sergipanos. Casado, construiu sua imagem pública em torno de três pilares: trabalho comunitário nas zonas rural e urbana, valorização da cultura local e defesa intransigente de um novo pacto federativo que alivie a pressão financeira sobre os pequenos municípios.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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