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Operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público cumpre 14 mandados de busca e apreensão no Rio e no Espírito Santo contra agentes públicos suspeitos de integração com a segunda maior facção criminosa do estado
Ralph, do Jornalismo e Direito — Rio de Janeiro
22/06/2026 — Atualizado às 12h01
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O ex-vereador Ulisses Marins (União Brasil) e o deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, o Val Ceasa (PRD), são alvos de uma operação deflagrada na última quinta-feira (18) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro sob suspeita de integração com o Terceiro Comando Puro (TCP), facção criminosa que domina o chamado "Complexo de Israel", na Zona Norte da capital fluminense.
As investigações, autorizadas pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, apontam que os políticos teriam atuado para impedir a demolição de um "resort" de luxo pertencente a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão — um dos principais chefes do TCP — e que Ulisses Marins teria usado seu próprio comitê eleitoral para esconder armas e drogas da facção.
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A denúncia e o comitê eleitoral como depósito do tráfico
De acordo com um documento encaminhado pela Promotoria de Investigação Penal da Penha e Irajá à delegacia responsável, Ulisses Marins estaria utilizando um imóvel que funcionava como seu comitê eleitoral para armazenar material ilícito do grupo criminoso. A informação chegou às autoridades por meio de uma denúncia anônima ao Disque Denúncia.
O registro de ocorrência, feito em fevereiro de 2026 após requisição de uma promotora do MPRJ, também aponta que Peixão teria financiado a campanha eleitoral de Ulisses Marins para vereador — o que, se confirmado, acrescentaria à investigação uma frente de crime eleitoral (art. 41-A da Lei 9.504/97 — compra de votos, ou art. 350 do Código Eleitoral — falsidade documental eleitoral).
Análise jurídica: A ocultação de drogas em imóvel próprio pode configurar o crime do art. 33, §1º, I, da Lei 11.343/2006 (guardar ou ocultar drogas para fins de tráfico), com pena de 5 a 15 anos de reclusão. Já a ocultação de armas de fogo pode ser enquadrada no art. 12 da Lei 10.826/2003 (posse ou porte ilegal), com pena de 2 a 4 anos. A materialização de ambos, se somada ao vínculo com organização criminosa, agrava significativamente o quadro penal.
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A cronologia da interferência política que adiou a demolição por 15 meses
A investigação revela que a atuação dos políticos não se limitou à ocultação de materiais ilícitos. De acordo com o MPRJ, Val Ceasa e Ulisses Marins teriam interferido diretamente no curso de uma operação sigilosa da Polícia Militar para demolir o "resort" de Peixão.
29 de novembro de 2023 — Reuniões a portas fechadas entre PM, Prefeitura do Rio e MPRJ definem a demolição do imóvel de luxo construído pelo traficante no Complexo de Israel.
11 de dezembro de 2023 — Val Ceasa e Ulisses Marins se dirigem ao 16º BPM (Olaria) e solicitam ao comandante do batalhão informações sobre a operação sigilosa. Em depoimento, o comandante afirmou que Val Ceasa defendeu o local, alegando que era usado para "ações sociais".
12 de dezembro de 2023 — Um dia após a visita dos parlamentares, a PM esteve no local e constatou que uma faixa havia sido instalada — onde antes não existia nenhuma — com a inscrição: "Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids". Segundo o MP, nunca foi constatada qualquer ação social na região.
14 de dezembro de 2023 — A operação de demolição é cancelada. O motivo: o vazamento de informações tornou a ação inviável. As negociações entre a PM e a Prefeitura indicam que, após a interferência dos parlamentares, ficou claro que a operação já havia sido queimada.
Março de 2025 — Cerca de um ano e dois meses depois, uma nova operação policial finalmente demole o resort. O atraso de 15 meses entre o planejamento e a execução é o centro da apuração.
Implicação jurídica: A conduta de solicitar informações sobre operação sigilosa e atuar para seu cancelamento pode configurar o crime do art. 2º, §4º, da Lei 12.850/2013 — impedir ou embaraçar investigação de organização criminosa, com pena de 3 a 8 anos de reclusão, sem prejuízo de enquadramento por advocacia administrativa (art. 321 do CP) e violação de sigilo funcional (art. 325 do CP), este último imputável ao agente público que revelou a informação.
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O áudio de Peixão e a relação pessoal com o traficante
Outro elemento que ganhou relevo nas investigações foi o fato de Ulisses Marins ter repassado à Prefeitura do Rio um áudio do próprio Peixão em que o traficante negava ter ordenado o fechamento de igrejas no Complexo de Israel. O áudio foi apresentado ao então secretário municipal de Ordem Pública, Brenno Carnevale, enquanto ele apurava denúncias de proibição de festas juninas na região.
O episódio tem dupla leitura jurídica:
Para a acusação: Demonstra acesso direto e canal de comunicação pessoal com o chefe da facção, reforçando o vínculo subjetivo necessário para caracterizar integração com organização criminosa;
Para a defesa: Pode ser apresentado como mera intermediação de demanda comunitária — um parlamentar que leva ao poder público a versão de líderes locais sobre problemas na comunidade.
O material foi encaminhado pela Prefeitura do Rio à polícia e integra o conjunto probatório.
Val Ceasa: reincidência de conduta
O deputado estadual Val Ceasa não é alvo apenas desta investigação. De acordo com apurações do O Globo, um ex-assessor do deputado foi indiciado pela polícia em um caso de homicídio encomendado pelo TCP, ampliando o espectro da relação do parlamentar com a facção.
Além disso, o relatório da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), ao qual o g1 teve acesso, descreve em detalhes a pressão política exercida sobre o 16º BPM, o vazamento da operação e os sucessivos adiamentos da demolição.
O documento da Seop aponta que, após a ida dos políticos ao batalhão, foram realizadas alterações no "resort" com o objetivo de "disfarçar" o uso criminoso do espaço — elemento que, em Direito Penal, pode configurar fraude processual (art. 347 do CP) se houver alteração do local dos fatos para induzir a erro autoridade policial.
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O TCP e o "Complexo de Israel"
O Terceiro Comando Puro é a segunda maior facção criminosa do Rio de Janeiro, atrás apenas do Comando Vermelho. Fundado em 25 de fevereiro de 2002, a organização comanda cinco comunidades na Zona Norte da cidade, rebatizadas como "Complexo de Israel" — uma referência à simbologia evangélica adotada pela facção, que ostenta a bandeira de Israel e utiliza linguagem religiosa como marca identitária.
A presença de traficantes que se autointitulam "evangélicos" no comando do TCP tem gerado um fenômeno sociocriminal singular: a facção combina violência armada típica do narcotráfico com um discurso de proximidade com igrejas evangélicas, o que, segundo investigadores, dificulta a distinção entre ações sociais legítimas e fachadas para atividades criminosas — como, segundo a acusação, teria sido o "Projeto de Deus Kids".
Rivais e alianças:
Aliados: PCC (SP), BDM (MG)
Rivais: Comando Vermelho (CV), ADA, PCV
A operação e os próximos passos
Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Duas pessoas foram presas em flagrante durante o cumprimento dos mandados, embora as identidades e as circunstâncias ainda não tenham sido divulgadas oficialmente.
A defesa de Val Ceasa nega a existência de denúncia formal e afirma que o deputado sempre atuou dentro da legalidade. Já a defesa de Ulisses Marins não foi localizada para comentar as acusações até o fechamento desta edição.
O prefeito Eduardo Paes declarou, em nota, que "a Prefeitura do Rio cumpriu seu dever ao denunciar ao Ministério Público a tentativa de interferência na demolição de uma construção irregular erguida por criminosos".
O caso corre sob sigilo de justiça, e as investigações seguem em andamento, com a possibilidade de novos desdobramentos — incluindo a abertura de inquérito específico para apurar o financiamento eleitoral por recursos do tráfico.
Linha do tempo — Resumo
Data Evento
29/11/2023 PM, Prefeitura e MP alinham operação para demolir "resort" de Peixão
11/12/2023 Val Ceasa e Ulisses Marins vão ao 16º BPM pedir informações sobre a operação
12/12/2023 Faixa do "Projeto de Deus Kids" é instalada para disfarçar imóvel
14/12/2023 Operação é cancelada por vazamento
Fev/2025 Ocorrência é registrada sobre ocultação de armas e drogas em comitê eleitoral
Mar/2025 Resort de Peixão finalmente é demolido
18/06/2026 Operação é deflagrada contra os políticos
22/06/2026 Investigação segue em sigilo; novas frentes são apuradas
Fontes: O Globo, g1, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Estadão, MPRJ, Lei 12.850/2013, Código Penal Brasileiro.
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