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Prepare-se para mais um episódio da série “Brasília, o país das maravilhas”. Enquanto milhões de brasileiros ralam de sol a sol e mal conseguem pagar o PF da esquina, o Senado resolveu abrir uma consulta pública sobre uma ideia que parece ter saído da cabeça de algum humorista em crise criativa: criar auxílio-alimentação para servidores públicos aposentados. É isso mesmo. Aposentados. Com vale-marmita. Em pleno 2025.
Segundo a proposta, quem já pendurou o crachá e está curtindo a aposentadoria poderia receber um valor extra, todo mês, pra custear a alimentação. Tudo isso bancado com dinheiro público, claro. Só que o detalhe que ninguém gosta de lembrar é que esse tipo de benefício já foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (Súmula Vinculante 55), justamente porque é um benefício indenizatório — ou seja, só vale pra quem tá trabalhando.
Mas quando se trata de privilégio, Brasília dá um jeitinho. A proposta, apresentada por um servidor municipal de Praia Grande (SP), tá rolando no portal Cidadania e, se bater 20 mil apoios até o dia 26 de julho, pode virar sugestão legislativa e entrar de vez na fila pra ser votada pelo Congresso. A cereja do bolo? Já tem gente dentro do próprio funcionalismo mobilizando campanha pra isso acontecer.
Enquanto isso, o trabalhador comum, aquele que sustenta o sistema e recebe um salário mínimo de R$ 1.412, precisa se virar pra alimentar a família com arroz a R$ 5 o quilo, ovo a preço de carne e gás a quase R$ 130 o botijão. E ainda escuta o governo dizendo que “não tem orçamento” pra reajustar benefício social ou melhorar a merenda escolar.
Já os servidores ativos de elite, como os do Senado e do TCU, embolsam R$ 1.784,42 de auxílio-alimentação. Isso mesmo: quase dois salários mínimos só pra bancar o rango. Já no Executivo federal, onde o povão do serviço público trabalha com estrutura precária, o valor gira em torno de R$ 1.000 — e ainda tá congelado há anos.
Ou seja: quem trabalha ganha um pouco. Quem manda, ganha mais. E agora, quem já se aposentou e tá em casa de pijama, quer também.
“É no mínimo indecoroso, uma falta de respeito com a classe trabalhadora e os aposentados que realmente precisam”, desabafou um servidor aposentado do INSS que recebe menos que o próprio auxílio-alimentação proposto. “Parece piada de péssimo gosto. A gente trabalhou a vida toda pra ver o Senado criar mimo pra quem já tem estabilidade e aposentadoria integral?”
As entidades que apoiam a proposta — como a Fenajufe, MOSAP e ASSEJUS — alegam que os aposentados sofrem perda de renda ao sair da ativa e que o vale-marmita seria uma forma de garantir a “segurança alimentar” da categoria. Segurança alimentar. Sim. Num país onde o povo tá voltando pra fila do osso.
A pergunta que não quer calar:
Se o país já não consegue garantir comida na mesa de quem TRABALHA ou tá DESEMPREGADO, que lógica é essa de querer dar vale-refeição pra quem já garantiu a aposentadoria integral e está fora da ativa?
Pra muitos, a resposta é simples: é mais um episódio do eterno paternalismo de casta, onde os de cima se protegem, criam penduricalhos, reajustam seus próprios auxílios e deixam o povo que se vire com o que sobra.
Se quiser rir pra não chorar, é só acompanhar a consulta aberta até o dia 26 de julho no site do Senado. Mas cuidado: esse tipo de piada, quando vira lei, é o povo que paga a conta no final.
Por: Arinos Monge.
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