O preço oculto da fertilidade brasileira

O preço oculto da fertilidade brasileira

O agronegócio continua sendo o eixo mais visível da economia brasileira. Representa cerca de 24% do PIB, quando se consideram insumos, produção, indústria e serviços, e quase metade das exportações nacionais. É um pilar real, mas também um mito reconfortante: o de que o país estaria protegido das turbulências externas por sua vocação produtiva. A verdade é menos épica. A fertilidade brasileira depende de cadeias globais que o país não controla.

Mais de 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados. Mais que um dado técnico, é um indicador de poder. A produtividade agrícola, que sustenta o superávit e ajuda a estabilizar o câmbio, repousa sobre matérias-primas que nascem em outras geografias e percorrem rotas vulneráveis. O tripé químico que alimenta o solo — nitrogênio, fósforo e potássio — vem, em sua maioria, de Rússia, Canadá, China, Irã e Marrocos. Esses países não apenas vendem insumos: administram o tempo da safra brasileira, o custo da exportação e, em certa medida, o equilíbrio macroeconômico do país.

O caso da China é emblemático. Seu posicionamento em relação às exportações de fertilizantes para o Brasil é intermitente, guiado por cálculos de abastecimento interno e estratégia comercial. Cada pausa, cada contingência, adiciona incerteza à cadeia e se transforma em risco precificado — custo invisível que, antes de chegar ao campo, já encarece a lavoura.

A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou o que antes parecia distante: o preço do milho em Goiás pode depender de um bloqueio naval no Mar Negro. Agora, as tensões no Oriente Médio produzem o mesmo eco. O risco crescente no Canal de Suez, os ataques próximos a rotas de gás e o aumento dos seguros marítimos mostram que a geopolítica da energia e a da alimentação voltaram a se cruzar. Quando o gás natural sobe, o fertilizante acompanha. E, quando o fertilizante encarece, o superávit brasileiro perde fôlego.

Esses choques revelam um paradoxo: a interdependência global é uma forma sofisticada de vulnerabilidade. O Brasil aprendeu a crescer em diálogo com o mundo, mas ainda não domina os meios da própria abundância. Enquanto o campo gera riqueza, a indústria química permanece atrofiada — e a dependência externa se consolida como traço estrutural.

O Plano Nacional de Fertilizantes 2050 tenta enfrentar esse impasse. Prevê diversificação de fornecedores, polos industriais e estímulos à produção local. Mas o intervalo entre diagnóstico e ação repete o padrão brasileiro: lucidez sem execução. O país sabe o que falta, mas hesita em fazer o que custa.

O entrave é estrutural. Produzir fertilizantes requer gás natural, amônia e rochas fosfatadas — insumos concentrados em poucos países e intensivos em energia. Onde o gás é abundante e barato, como no Oriente Médio, na Rússia ou nos Estados Unidos, a indústria floresce. No Brasil, o custo do gás chega a compor até 80% do preço final da amônia, tornando o produto inviável em escala. As reservas de fósforo são limitadas, o potássio enfrenta entraves ambientais, e a China, que alterna períodos de restrição e liberação de exportações, adiciona volatilidade à cadeia. Cada oscilação tem preço: o risco é precificado e repassado antes mesmo da semeadura.

Alguns setores compreenderam isso no tempo certo. Quando decidiu entrar no mercado de alumínio, Antônio Ermírio de Moraes percebeu cedo que o gargalo não estava no minério, mas na energia que o tornava possível. Verticalizou o negócio, investiu em geração própria e fechou o ciclo. Décadas depois, o grupo ainda opera hidrelétricas e parques eólicos que nasceram dessa visão. Foi um movimento de autodefesa industrial, feito sem esperar pelo Estado.

A lógica era simples: quem quer produzir não pode depender da hesitação pública. O agronegócio, com toda sua escala e influência, ainda não alcançou esse grau de autonomia. Produz em nível mundial, mas ainda depende de um elo fora do seu alcance. E, enquanto não dominar a base que o sustenta, continuará sujeito a forças que definem seus limites de prosperidade.

Enquanto isso, o mundo redesenha suas cadeias. O Cazaquistão constrói uma nova planta de fertilizantes voltada a mercados emergentes, para reduzir a influência russa e a instabilidade do Oriente Médio. Não é apenas investimento: é estratégia externa em forma de indústria. Quem controla os insumos controla fluxos, negociações e ritmos de crescimento. O Brasil, embora potência agrícola, continua dependente químico — exporta proteína e importa molécula.

Há um contraste evidente entre o avanço do agro e a lentidão da recomposição industrial. A Petrobras, em nova fase de investimentos, volta a ocupar espaço como instrumento de política industrial e de segurança energética. Seu papel no gás natural é decisivo: é desse insumo que nasce a amônia que alimenta a cadeia dos fertilizantes. O desafio, porém, é transformar o gás do pré-sal em matéria-prima competitiva — e não apenas em energia exportável.

O discurso da “potência verde” é legítimo, mas incompleto. O Brasil é grande em terras, energia e biodiversidade — e pequeno em autonomia tecnológica. A retórica da autossuficiência não resiste ao fato de que os insumos vitais continuam importados. O avanço em biofertilizantes, amônia verde e recuperação de nutrientes é promissor, mas ainda não altera o essencial.

O alerta sobre os fertilizantes não é pessimismo. É um lembrete de que o país ainda cresce com bases emprestadas. Exporta vigor, mas importa estrutura. E, enquanto não converter abundância em autonomia, o Brasil continuará próspero, mas vulnerável.

Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

 

Por Ultima Hora em 08/10/2025
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