Quando a tecnologia vira forma de poder

O motorista assume o carro. O anfitrião assume o imóvel. A cidade assume os impactos. A plataforma captura a intermediação.

Quando a tecnologia vira forma de poder

Por Jorge Tardin
Engenharia Jurídica

Em 2025, o Airbnb registrou receita anual superior a US$ 12 bilhões e lucro líquido de aproximadamente US$ 2,5 bilhões. No mesmo ciclo, a Uber também divulgou resultado positivo bilionário, embora parte relevante desse resultado tenha sido influenciada por efeitos financeiros e contábeis extraordinários.

O dado econômico revela algo maior do que desempenho empresarial.

Revela uma mudança na forma de organização da vida econômica.

Durante anos, o mercado aplaudiu startups bilionárias sem lucro sustentável. Cresciam rápido, queimavam caixa, deslocavam concorrentes e prometiam que o futuro compensaria o prejuízo do presente.

Chamaram esse modelo de inovação.

Mas, em muitos casos, ele era também uma nova ontologia do intermediário.

O aplicativo não aboliu o intermediário.

Apenas transformou o intermediário em infraestrutura indispensável.

Essa é a mutação central.

Antes, o intermediário era visível: corretor, central, agência, despachante, operadora, empresa local. Podia ser questionado, substituído, comparado ou dispensado.

Agora, o intermediário se tornou ambiente.

Ele não aparece apenas como alguém que participa da transação. Ele organiza a própria possibilidade da transação.

No transporte por aplicativo, a empresa aproxima motorista e passageiro. Mas não compra o carro, não paga combustível, seguro, pneu, manutenção, financiamento ou depreciação. Esses custos ficam com o motorista.

Na hospedagem digital, o sistema aproxima hóspede e anfitrião. Mas não compra o imóvel, não paga IPTU, condomínio, energia, mobília, limpeza, desgaste, risco urbanístico ou conflito com vizinhança. Esses custos ficam com o proprietário e, muitas vezes, com a cidade.

A plataforma captura o fluxo.

O usuário carrega o custo.

O trabalhador absorve o risco.

A cidade administra a consequência.

Aqui está o núcleo ontológico do problema: a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser condição de existência econômica. Quem não está no aplicativo deixa de ser apenas menos competitivo. Passa a ser menos visível. Às vezes, quase inexistente.

Esse é o novo poder.

Não é apenas mandar.

É fazer existir.

É ordenar quem aparece, quem recebe demanda, quem paga taxa, quem assume risco, quem será comparado, quem será ranqueado e quem desaparecerá da tela.

Por isso, a pergunta central não é se a tecnologia é boa ou ruim. A tecnologia é necessária, útil e muitas vezes libertadora. A pergunta correta é outra: quando uma ferramenta se transforma em ambiente indispensável, que tipo de governança ela deve suportar?

Toda infraestrutura indispensável exige alguma forma de governança pública, social ou concorrencial.

Sem isso, a inovação vira pedágio.

O discurso é inovação.
O incentivo é intermediação rentável.
A estrutura é transferência de risco.
A consequência é dependência.

A antiga figura do unicórnio representava a fantasia do crescimento infinito: raro, brilhante, quase mágico. Prometia futuro, mesmo quando não demonstrava sustentabilidade presente.

Mas a economia real não vive de magia.

Com juros mais altos, capital mais caro e investidores menos pacientes, muitos modelos começaram a revelar o que antes ficava escondido: o crescimento acelerado tinha uma conta. E essa conta era paga por alguém.

É aqui que a metáfora do canguru ganha densidade.

O canguru não é fantasia. É adaptação. Salta, mas não perde contato com o chão. Carrega consigo aquilo que precisa proteger. Não vive da promessa de encantamento; vive da resistência.

No campo econômico, o “canguru” representa plataformas cooperativas, redes comunitárias, negócios locais digitalizados, aplicativos regionais, sistemas cooperativos financeiros e modelos em que trabalhadores, pequenos empreendedores e usuários não são apenas peças dispersas do sistema, mas participantes da governança.

Não é romantismo contra tecnologia.

É tecnologia com enraizamento econômico.

Toda escolha recorrente de consumo desloca renda, poder e dependência. O consumidor não vota apenas de quatro em quatro anos. Também escolhe, no cotidiano, quais estruturas fortalece e quais estruturas ajuda a naturalizar.

Esse voto não aparece na urna eleitoral.

Mas aparece no extrato bancário, no preço final, na renda do trabalhador, na arrecadação da cidade e na sobrevivência dos pequenos negócios.

A consequência institucional é profunda.

Se a sociedade naturaliza aplicativos que funcionam como pedágios privados sobre mercados essenciais, reduz concorrência real, precariza relações econômicas, enfraquece operadores locais e transfere decisões relevantes para algoritmos sediados longe do território afetado.

O direito do consumidor precisa enxergar a assimetria algorítmica.
A defesa da concorrência precisa olhar para dependência econômica, não apenas para preço baixo inicial.
O direito do trabalho precisa enfrentar formas de dependência econômica sem proteção equivalente.
O direito urbanístico precisa medir impactos sobre moradia, turismo, vizinhança e arrecadação.

E a ordem econômica constitucional precisa lembrar que livre iniciativa não é licença para concentrar ganhos e espalhar custos.

No fim, a pergunta permanece.

Quem paga a conta?

Pagam os motoristas, quando financiam o instrumento de trabalho e ainda cedem parte relevante da corrida.
Pagam os anfitriões, quando assumem o ativo e o risco enquanto o intermediário captura a transação.
Pagam os consumidores, quando a conveniência inicial vira dependência e tarifa dinâmica.
Pagam as cidades, quando moradia, trânsito, turismo e fiscalização passam a sofrer efeitos de decisões tomadas por sistemas privados.
E paga a sociedade, quando chama de inovação aquilo que, no fundo, apenas sofisticou o pedágio.

O unicórnio vendia futuro.

O canguru revela quem carregava o peso.

O problema nunca foi a tecnologia.

O problema é quando a tecnologia deixa de ser ferramenta, vira ambiente e passa a cobrar aluguel para que a vida econômica exista.

Jorge Tardin
Engenharia Jurídica

Por Ultima Hora em 09/06/2026
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