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O policial que trocou o fuzil pela urna
Aos 47 anos, o subtenente André Monteiro conhece como poucos a linha tênue entre a lei e o abismo. Durante 28 dos seus mais de 30 anos de Polícia Militar, serviu no Batalhão de Operações Policiais Especiais — o BOPE —, unidade de elite que opera onde o Estado muitas vezes recua.
Agora, reformado e bacharel em Direito com pós-graduações, troca o fuzil pela tribuna e se lança pré-candidato ao Senado pelo Democratas 35, em chapa encabeçada por Wilson Witzel ao governo do estado.
"Eu não vivo de política. "Eu me dou para a política", afirma Monteiro, em entrevista ao Jornal da República, direto da sede do Democratas no centro do Rio. "Quando uma pessoa se doa para a política, não interessada naquilo que a política pode dar de volta, com certeza será um bom mandatário."
A fala carrega o peso de quem já experimentou o descaso do sistema. Em 2018, Monteiro foi candidato ao governo do Rio pelo PRTB. Era para ser o vice na chapa de Wilson Witzel, mas uma articulação interna do partido desfez o acordo.
"O presidente do meu partido achou que ele deveria ser o vice-governador e acabou melando toda uma articulação. Aí entrou Cláudio Castro aos 50 minutos do segundo tempo. Deu no que deu: esse horror de corrupção no estado do Rio de Janeiro", dispara.
O desfecho é conhecido: Witzel foi eleito, depois afastado e impeachmentado em 2021 sob acusações de desvio de recursos da saúde durante a pandemia.
Castro, que herdou o cargo, viu seu governo marcado por sucessivas denúncias de corrupção — incluindo a Operação Placebo, que em 2024 mirou desvios na Secretaria de Saúde, e a Operação Sétimo Céu, que investigou propinas em contratos públicos.
1,6 milhão de votos: a força de uma candidatura barrada.
Em 2022, Monteiro foi primeiro suplente na chapa de Daniel Silveira ao Senado. Ambos foram declarados inelegíveis pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Silveira após condenação pelo Supremo Tribunal Federal por ataques à democracia. Mas o dado que impressiona é outro: mesmo com a inelegibilidade já declarada, a chapa obteve mais de 1,6 milhão de votos, segundo dados oficiais do TSE.
"A população acreditava no nosso potencial, na nossa promessa, no nosso projeto", afirma Monteiro. O número equivale a cerca de 22% dos votos válidos para o Senado no Rio naquele pleito — volume que, em condições normais, elegeria qualquer candidato.
O episódio revela um fenômeno político que se repete no estado: a rejeição ao STF como motor de mobilização eleitoral. "Continuaremos sendo reféns do STF, que vem tomando decisões esdrúxulas, arrepio da Constituição." "E nada é feito pelo Senado", critica Monteiro, ecoando o sentimento de parte expressiva do eleitorado fluminense.
Pesquisa Datafolha de maio de 2026 confirma o cenário: 67% dos brasileiros acreditam que a maioria dos políticos promete e não cumpre, e a segurança pública desponta como prioridade para 73% da população — índice que supera saúde e educação nas intenções de voto.
"A criminalidade tomou conta de tudo": o diagnóstico da segurança.
Monteiro não poupa palavras ao descrever o estado do Rio de Janeiro. "Hoje nós estamos vivendo uma situação muito difícil no nosso estado, em que a criminalidade tomou conta de todas as regiões — Baixada, norte-fluminense, região litorânea, serrana", enumera.
"A população está refém da criminalidade enquanto os bandidos estão soltos nas ruas."
O diagnóstico encontra eco em dados oficiais. Em dezembro de 2025, o governo do estado apresentou ao STF um plano de recuperação para combater o crime organizado, que incluía ações integradas entre polícias e investimentos em inteligência. Em maio de 2026, o Ministério da Justiça lançou programa de R$ 11 bilhões contra o crime organizado, com o Rio de Janeiro como prioridade absoluta.
Para Monteiro, porém, o problema é mais profundo que a falta de recursos. "Não entram fuzis e drogas pelas nossas fronteiras se não tiver anuência, a complacência dos nossos políticos que estão lá com a caneta na mão", afirma.
"Precisamos combater não somente a criminalidade comum — milícia, Comando Vermelho, PCC —, mas também as facções criminosas na política. São elas que dão força a essas outras facções."
A tese encontra ressonância em relatórios recentes do Ministério Público Federal, que apontam a infiltração de organizações criminosas em estruturas de poder municipal e estadual.
O SBT Brasil, em série especial de dezembro de 2025, já alertava para o "avanço do crime organizado, falhas no modelo atual e os desafios para mudar esse cenário".
O criador do modelo cívico-militar: escolas que lideram o IDEB.
Se a segurança é o carro-chefe da campanha, a educação é o orgulho pessoal. Monteiro reivindica a paternidade do Programa das Escolas Cívico-Militares no estado do Rio. "Fui eu o criador." "Foi um projeto que o Wilson me deu para desenvolver", revela. "Conseguimos criar as melhores escolas do estado do Rio de Janeiro, com índice no IDEB lá em cima — segundo, primeiro e terceiro lugar."
Os números confirmam. Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Educação mostram que, em 2024, o ensino cívico-militar ocupou cinco das dez melhores posições da rede estadual no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
Escolas como o Colégio Estadual Cívico-Militar Carlos Campos Sobrinho lideraram rankings, superando instituições tradicionais.
"Essas escolas proporcionam aos alunos passar no vestibular sem precisar fazer curso preparatório." Dão a possibilidade de fazer concurso público no final do ensino médio e ser aprovado", afirma Monteiro.
A declaração se alinha a estudos acadêmicos que apontam correlação positiva entre disciplina estruturada e desempenho escolar, embora o debate sobre militarização do ensino ainda divida especialistas.
A chapa com Witzel: segundo tempo de uma parceria interrompida.
A aliança com Wilson Witzel representa, para Monteiro, um reencontro com o destino. O que a articulação partidária impediu em 2018 — a chapa Witzel-Monteiro — agora se concretiza, ainda que com papéis invertidos: Witzel candidato a governador, Monteiro ao Senado.
Witzel, que teve os direitos políticos suspensos após o impeachment, conseguiu reverter parte das restrições junto ao Tribunal Regional Eleitoral e viabilizou sua candidatura pelo Democratas 35. "É com muita alegria, muita fé e determinação que eu encaro essa missão."
"Para nós, missão dada é missão cumprida", afirma o ex-BOPE.
Democratas 35: a legenda que quer furar a polarização.
O Democratas 35 — antigo Partido da Mulher Brasileira (PMB), rebatizado em dezembro de 2025 com aprovação do TSE — aposta em candidaturas com perfil técnico e de segurança pública para furar a bolha PT-PL no Rio.
Presidido nacionalmente por Suêd Haidar Nogueira, o partido de centro a centro-direita busca se posicionar como alternativa ao que chama de "embate ideológico contínuo".
Com mais de uma dezena de pré-candidatos ao Senado no Rio, Monteiro aposta na biografia como diferencial. "Estamos trazendo pessoas que realmente queiram se doar para a política e fazer aquilo que tem que ser feito. Estamos vindo com bons candidatos, candidatos que nunca foram candidatos."
As consequências econômicas da insegurança
Monteiro traça uma linha direta entre criminalidade e crise econômica no estado. "Estamos vendo muitas empresas saindo do Rio de Janeiro pela falta de segurança." Empregos sendo cerceados.
"O índice de desemprego tem aumentado por causa dessa falta de segurança", afirma.
O diagnóstico é compartilhado por economistas. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) já alertou que o ambiente de insegurança jurídica e física afugenta investimentos.
O estado perdeu participação no PIB nacional nas últimas duas décadas, caindo de 12% para cerca de 10%, enquanto estados do Sul e Centro-Oeste expandiram sua relevância econômica.
"O comércio está fechando." Estamos vendo o crescimento do número de moradores em situação de rua porque perderam seus empregos. "A nossa cidade — não apenas a cidade, mas todo o estado do Rio de Janeiro — vem mergulhando no lamaçal", conclui Monteiro.
Sobre André Monteiro
André Monteiro é subtenente reformado da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com mais de 30 anos de serviço dedicados ao combate à criminalidade, sendo 28 deles no Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE).
Bacharel em Direito com pós-graduações na área de segurança pública e gestão, acumulou experiência operacional como comandante de equipes táticas e atuou em operações de alta complexidade no estado.
Foi candidato ao governo do Rio em 2018 pelo PRTB e primeiro suplente ao Senado na chapa de Daniel Silveira em 2022, obtendo mais de 1,6 milhão de votos, mesmo com a candidatura inelegível.
É reconhecido como criador do Programa das Escolas Cívico-Militares no estado, cujas unidades alcançaram o topo do ranking do IDEB da rede estadual.
Atualmente é pré-candidato ao Senado Federal pelo Democratas 35, compondo chapa com Wilson Witzel ao governo, com foco em pautas de segurança pública, combate à corrupção e educação disciplinar.
Sua trajetória combina experiência operacional de elite com formação acadêmica, consolidando perfil que transita entre o conhecimento de campo e a técnica jurídica.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Antonio Lemos @djportugues
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