O presidente da PortosRio, Flávio Vieira, e o desafio de ocupar um setor em que apenas 17,8% são mulheres

Enquanto o Brasil registra 1.568 feminicídios, uma estatal carioca aposta no protagonismo feminino como estratégia

Em evento sobre liderança e segurança feminina na Barra da Tijuca, Flávio Vieira da Silva anunciou que a Autoridade Portuária do Rio de Janeiro, que administra cinco portos e fatura R$ 1,5 bilhão por ano, tem priorizado o protagonismo feminino em cargos de confiança. O gesto ocorre em um ano em que o Brasil registrou 1.568 feminicídios.

O homem que comanda R$ 1,5 bilhão escolheu dar espaço a elas.

O salão nobre do Atlântico Sul, na Barra da Tijuca, estava lotado de mulheres quando o advogado Flávio Vieira da Silva subiu ao palco.

Não era o perfil tradicional de um evento sobre segurança feminina — geralmente frequentado por ativistas, psicólogas e assistentes sociais.

Ali estava o presidente de uma das maiores estatais do estado do Rio de Janeiro, a PortosRio, que administra cinco portos públicos e movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano.

"É um prazer participar de um evento que traduz o sentimento real da sociedade atual, que é dar protagonismo à mulher. Aqui, as mulheres são as protagonistas.

Elas falam, ouvem, aprendem, compartilham experiências", afirmou, em entrevista ao Jornal da República e Última Hora.

A fala de Flávio não foi retórica vazia. A PortosRio, sob sua gestão, vem implementando políticas de equidade de gênero em um dos setores mais masculinos da economia brasileira.

O retrato da exclusão nos portos brasileiros

Os números que Flávio Vieira enfrenta são desafiadores. A segunda edição da Pesquisa sobre Equidade de Gênero no Setor Aquaviário, realizada pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em parceria com a Wista Brazil, revelou que as mulheres ocupam apenas 17,8% dos postos de trabalho no setor portuário brasileiro. Nos cargos de liderança, o percentual cai para 16%.

Os dados representam um avanço de apenas 0,5 ponto percentual em relação a 2022 — um ritmo que, mantido, levaria décadas para atingir a paridade.

O presidente da PortosRio reconheceu o desafio e anunciou que a empresa tem trabalhado ativamente para mudar esse cenário. "A gente tem tentado dar protagonismo para as mulheres nas funções de liderança, nas funções de confiança dentro da empresa", afirmou.

O evento que une acolhimento e estratégia

A Rede de Liderança e Segurança Feminina, que promoveu o encontro no Atlântico Sul, nasceu da constatação de que a violência contra a mulher e a baixa representatividade nos espaços de poder são faces do mesmo problema.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025 — o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. O crescimento foi de 4,7% em relação ao ano anterior.

Em cerca de 80% dos casos, o agressor era parceiro ou ex-parceiro da vítima. Os dados evidenciam que a violência de gênero não é um problema de segurança pública apenas — é um problema estrutural que exige respostas coordenadas entre Estado, mercado e sociedade civil.

Eventos como o da Barra da Tijuca propõem exatamente essa integração: fóruns de debate que conectam lideranças empresariais, poder público e ativistas para construir redes de apoio e prevenção.

PortosRio: uma estatal de cinco portos e um novo rumo.

A PortosRio é uma empresa pública federal que administra os portos do Rio de Janeiro, Niterói, Itaguaí, Angra dos Reis e Arraial do Cabo.

Juntos, eles concentram praticamente toda a exportação de minério do estado e movimentam dezenas de milhões de toneladas por ano. Só o Porto do Rio registrou 15,5 milhões de toneladas movimentadas em 2024, com crescimento de 27% no primeiro quadrimestre de 2025.

Flávio Vieira assumiu a presidência em julho de 2025, substituindo o então presidente com a missão de modernizar a infraestrutura, aumentar a eficiência logística e atrair investimentos.

Sua trajetória inclui passagens pela presidência da Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL), pela Rioluz e pela CEHAB. No município de Belford Roxo, foi Secretário de Saúde, Secretário da Casa Civil e Procurador-Geral.

Entre as iniciativas de sua gestão, a participação no evento de liderança feminina e o apoio interno a programas de equidade de gênero indicam uma direção.

Em março de 2026, a PortosRio publicou uma série de conteúdos em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, destacando a "força da diversidade na liderança feminina".

O movimento que cresce dentro dos portos

A PortosRio não está sozinha nessa direção. O governo federal, por meio do Ministério de Portos e Aeroportos, lançou em março de 2026 um conjunto de ações pró-igualdade de gênero no setor.

Em 2025, 37 mulheres foram aprovadas em processo seletivo para funções operacionais como conferência, arrumação e estiva — áreas historicamente dominadas por homens.

O Porto de Santana (AP) passou a ser presidido por Oquerlina Costa, a primeira mulher a ocupar, de forma efetiva, o comando de um dos principais complexos logísticos do Arco Norte.

Em Santa Catarina, a Portonave elevou a participação feminina para 20% do quadro total. No Rio Grande do Sul, a Portos RS promove iniciativas de empreendedorismo feminino.

O movimento "Mulheres a Bordo", lançado em abril de 2026 pelo Grupo Tribuna, e o Instituto PORTa — primeira plataforma dedicada exclusivamente a mulheres do setor portuário — completam o ecossistema que começa a transformar a realidade dos portos brasileiros.

A fala que resume o momento

Durante a entrevista, Flávio Vieira fez questão de destacar o valor da participação feminina em todos os níveis. "As mulheres hoje em dia são empoderadas, são inteligentes, estudam, estão no mesmo patamar que os homens de importância. Isso é muito importante."

A declaração, vinda do presidente de uma estatal que fatura R$ 1,5 bilhão por ano e emprega milhares de pessoas, não é apenas simbólica.

Em um país onde a presença feminina nos portos não chega a 18%, cada gesto de abertura é um passo concreto na direção da equidade.

Os números que o evento não pode ignorar

  • 17,8% é o percentual de mulheres empregadas no setor portuário brasileiro (Antaq 2024)
  • 16% é a fatia de cargos de liderança ocupados por mulheres no setor
  • 1.568 feminicídios foram registrados no Brasil em 2025 (FBSP)
  • 4,7% foi o crescimento dos feminicídios em relação a 2024
  • 80% dos agressores são parceiros ou ex-parceiros das vítimas
  • 15,5 milhões de toneladas foram movimentadas pelo Porto do Rio em 2024
  • R$ 1,5 bilhão é o faturamento anual da PortosRio
  • 5 portos administrados pela PortosRio: Rio, Niterói, Itaguaí, Angra dos Reis e Arraial do Cabo

Bio: Flávio Vieira da Silva.

Flávio Vieira da Silva é advogado e atual presidente da PortosRio, autoridade portuária que administra os cinco portos públicos do estado do Rio de Janeiro.

Nomeado em julho de 2025, assumiu com a missão de modernizar a infraestrutura e aumentar a eficiência logística do complexo portuário fluminense.

Antes da PortosRio, foi presidente da Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL), além de ter passado pela Rioluz e pela CEHAB. No município de Belford Roxo, ocupou os cargos de Secretário de Saúde, Secretário da Casa Civil e Procurador-Geral.

Sob sua gestão, a PortosRio tem implementado políticas de equidade de gênero e participado ativamente de fóruns de liderança feminina.

A empresa tem sede na Rua Dom Gerardo, 35, no Centro do Rio de Janeiro, e pode ser contatada pelo site portosrio.gov.br.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Ultima Hora em 30/06/2026
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