Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Dani Ezequiel engravidou de gêmeos como qualquer mãe: com sonhos, planejamentos e a expectativa de uma vida comum. "Quando eu estava grávida, eu estava preparada para ser mãe, apenas mãe normal.
"Nunca pensei que viria nos meus sonhos um autista", revelou. A sinceridade do relato desmonta qualquer romantização. Ela admite: nem sabia o que era autismo até a realidade bater à porta. Hoje, Thomas, seu filho de 8 anos, é autista severo não verbal. O outro gêmeo é típico.
O depoimento joga luz sobre uma estatística pouco discutida: o Brasil não tem um censo oficial de autistas, mas estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 1% da população mundial está no espectro.
No Rio de Janeiro, segundo dados mencionados por Dani, são aproximadamente 250 mil pessoas com deficiência registradas — número que não reflete a totalidade, já que muitas famílias sequer conseguem o diagnóstico.
A saúde mental da mãe antes da saúde da criança.
O momento mais contundente da entrevista veio quando Dani inverteu a lógica do cuidado. "Quando se cuida da mãe, se cuida da criança."
A saúde mental da mãe tem que ser cuidada antes mesmo da criança." A afirmação não é apenas percepção pessoal — é um alerta de saúde pública.
Estudos científicos corroboram o que Dani vive na pele. Pesquisas publicadas em revistas internacionais de psiquiatria indicam que mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam níveis significativamente mais elevados de estresse, ansiedade e depressão em comparação com mães de crianças típicas.
O Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência, reconhece a importância de oferecer serviços que atendam não apenas as pessoas com deficiência, mas também suas famílias e cuidadores, especialmente na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Dani foi além: "A saúde mental da mãe aumenta o suicídio todos os dias na sociedade, onde somos invisíveis." A fala ecoa dados alarmantes.
Levantamentos internacionais mostram que mães de crianças com autismo têm taxas de ideação suicida significativamente superiores à média da população feminina. O isolamento social, a sobrecarga financeira e a ausência de políticas públicas de acolhimento formam uma tempestade perfeita que raramente é discutida fora dos círculos de familiares atípicos.
O encontro com Romário e a virada de chave
Antes de ser assessora parlamentar, Dani foi candidata a deputada estadual em 2022. Na campanha, ouviu promessas de diversos políticos, mas quem a acolheu de fato foi o senador Romário.
"Eu vi nele a pessoa que ecoa pelo mundo, pelo Brasil inteiro, a palavra PCD", afirmou.
A escolha de Dani não foi aleatória. Romário (PL-RJ) construiu, ao longo de mais de uma década no Senado, uma atuação focada nos direitos das pessoas com deficiência.
Em abril de 2025, o senador subiu à tribuna para cobrar a aprovação do PL 3.749/2020, de sua autoria, que torna permanente o laudo de diagnóstico do TEA — uma das principais reivindicações das famílias atípicas, que precisam renovar periodicamente um documento muitas vezes obtido após longas filas no SUS ou consultas particulares onerosas.
Dados do portal de transparência do Senado mostram que Romário destinou, em 2026, parte expressiva de suas emendas parlamentares para ações voltadas a PCDs. Dani afirma que, em quatro anos, foram quase R$ 8 milhões enviados exclusivamente para o Rio de Janeiro. "Coisa que nenhum outro político fez", disse.
Thomas, o mestre não verbal de 8 anos
O filho de Dani, Thomas, é não verbal. Não fala. Mas isso não significa que não se comunique. A mãe desenvolveu uma habilidade que mães de crianças não verbais conhecem bem: a leitura corporal. "Você aprende a ler corporalmente a pessoa", ensina.
A comunicação alternativa é um campo em desenvolvimento no Brasil.
Estudos publicados na Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e na Research, Society and Development mostram que crianças autistas não verbais podem se comunicar por meio de sistemas de troca de figuras, dispositivos eletrônicos e, principalmente, pela linguagem corporal e expressões faciais.
Dani aprendeu na prática o que a ciência estuda em laboratório.
Ela também revela uma transformação pessoal provocada pela maternidade atípica. "O Thomas me deu paciência, muita paciência. Aprendi a lidar mais com as pessoas, aprendi como pensam as pessoas."
A maternidade a tornou, nas suas palavras, "muito mais que uma mãe — médica, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional". Uma realidade conhecida por milhares de mães no Brasil que, sem apoio do Estado, precisam se tornar especialistas para garantir o mínimo de qualidade de vida aos filhos.
O capacitismo como barreira invisível
Dani foi cirúrgica ao definir um dos maiores obstáculos enfrentados pelas famílias atípicas: "O autismo é uma disfunção neurológica que a sociedade poderia ter mais consciência e menos preconceito e capacitismo."
O capacitismo — discriminação estrutural contra pessoas com deficiência — é uma realidade pouco debatida no Brasil, mas que tem consequências concretas.
Estudos da área de direitos humanos mostram que famílias de crianças autistas relatam situações recorrentes de exclusão em escolas, constrangimento em espaços públicos e dificuldade de acesso a serviços básicos.
A fala de Dani, dentro do Palácio Tiradentes, em um evento que celebrava o empreendedorismo feminino, amplificou para um público diverso uma pauta que frequentemente fica restrita a grupos de apoio e consultórios.
Barbeiros que fazem a diferença.
Durante a entrevista, Dani fez questão de destacar um profissional que a marcou: Ezequiel, um barbeiro do Rio de Janeiro que também tem dois filhos no espectro autista.
Ele desenvolveu uma abordagem especializada para atender PCDs, criando um ambiente acolhedor para crianças e adultos que, em muitos casos, têm hipersensibilidade sensorial que torna uma ida ao barbeiro uma experiência traumática.
"Esse rapaz tem essa experiência, não só ele, como tantos outros", disse Dani. A menção ao barbeiro Ezequiel — que carrega o mesmo nome do sobrenome dela — revela uma rede de solidariedade que cresce silenciosamente entre famílias atípicas, onde profissionais se capacitaram para oferecer atendimento digno a quem muitas vezes é tratado como incapaz de participar de atividades cotidianas.
A mensagem que atravessa o palácio
Ao final da entrevista, Dani deixou um recado direto para os pais e mães atípicas que a ouviam: "Não desistam, não baixem a cabeça, levantem a voz. Vocês têm todo o direito de ir à justiça, de buscar o direito de vocês. Leiam, busquem, não deixem humilhar vocês nem o filho de vocês."
A mensagem não é apenas de acolhimento — é de empoderamento jurídico. Dani, que é advogada além de assessora parlamentar, conhece os caminhos legais que muitas famílias desconhecem.
O direito à educação inclusiva, ao tratamento multidisciplinar pelo SUS, à prioridade no atendimento e à isenção fiscal na compra de veículos são garantias legais que frequentemente dependem de ação judicial para serem efetivadas.
Se Deus escolheu você para ser pai deles, é porque essa é a sua missão. Não fraquejem.
"Vamos em frente", completou, antes de fazer um apelo simples e profundo: "O que mais uma mãe precisa, às vezes, é só um abraço. Se você chegar e abraçar uma mãe atípica, com certeza ela vai chorar no teu ombro."
O recado político que ecoa além da festa
O entrevistador, ao encerrar a participação, deixou um recado direto ao público: "A onda autista tá aí. Escolham bem o seu candidato. Vejam em 4 anos se ele falou pelo nome "autista" durante o mandato.
A fala ressalta a importância de o eleitor fiscalizar a atuação parlamentar em temas específicos — não bastam discursos genéricos sobre inclusão quando o que está em jogo são políticas públicas que afetam milhões de brasileiros.
O Senado Federal, em janeiro de 2026, votou uma pauta com projetos que beneficiavam crianças, idosos e PCDs, incluindo o PL 4.489/2024, que permite o ingresso de pessoas com deficiência acompanhadas de cão-guia em transportes coletivos.
A pauta avançou, mas a lentidão na tramitação de projetos como o laudo permanente do autista (PL 3.749/2020) mostra que a estrada ainda é longa.
Sobre Dani Ezequiel
Danielle Ezequiel, conhecida como Dani Ezequiel, é advogada, assessora parlamentar do senador Romário (PL-RJ) e mãe de gêmeos de 8 anos — um deles, Thomas, autista severo não verbal.
Candidata a deputada estadual em 2022, encontrou no senador Romário o apoio que outros políticos não ofereceram, passando a integrar sua equipe e a atuar na defesa dos direitos das pessoas com deficiência.
Dani é uma voz ativa na luta por políticas públicas de acolhimento às famílias atípicas, especialmente no que diz respeito à saúde mental das mães de autistas, tema que aborda com conhecimento de causa e propriedade jurídica. Seu trabalho parlamentar é focado em ampliar o acesso a direitos, tratamentos e inclusão para PCDs no estado do Rio de Janeiro.
Ela pode ser encontrada no Instagram: @DaniEzequielRJ (Ezequiel com Z).

Por Robson Talber, @robsontalber, repórter Henrique Pianta, @piantahp.
Sigam e compartilhem o nosso Instagram @jornalultimahoraonline
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!