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Renato Tirado Freire, gestor de Santana do Jacaré, critica repasses insuficientes para educação integral, segurança pública e disparidade na contribuição ao INSS — enquanto defende a gestão Zema como "exemplo cumprido"
Brasília — O prefeito de Santana do Jacaré, município de pouco mais de 3 mil habitantes no sul de Minas Gerais, aproveitou a presença em um evento que reuniu o governador Romeu Zema e presidenciáveis para expor a situação que classifica como "insustentável" para as pequenas cidades brasileiras. Em entrevista, Renato Tirado Freire, conhecido como Renato do Ló, advogado e gestor público eleito pelo MOBILIZA em 2024, não poupou críticas ao que chamou de "pacto federativo antigo" — um modelo que, segundo ele, concentra arrecadação na União e nos estados enquanto transfere obrigações aos municípios sem o correspondente repasse de recursos.
"Aqui que acontece tudo. Aqui que a gente vê todas as demandas acontecendo, tudo aquilo que a gente vê no nosso município que parece tão distante, é visto aqui, é lembrado aqui através das pautas das mais diversas", afirmou o prefeito, referindo-se ao ambiente do evento como um raro espaço onde as demandas reais dos pequenos municípios ganham visibilidade no debate nacional.
O elogio a Zema e a aposta na presidencial
A presença de Romeu Zema no evento ganha contornos ainda mais relevantes considerando que o governador de Minas Gerais formalizou sua renúncia ao cargo em 22 de março de 2026 — no mesmo dia da entrevista — para disputar a Presidência da República. Zema, que encerra uma gestão de duas décadas à frente do Executivo mineiro (com exceção de sua atuação como empresário e administrador à frente do Grupo Zema), deixa o estado com aprovação que oscilou entre 60% e 64%, segundo pesquisas de opinião divulgadas ao longo de 2025 e início de 2026.
Renato Tirado fez questão de diferenciar a experiência concreta com a gestão Zema das promessas de campanha que ouviu de outros presidenciáveis presentes no evento. "Eu vivi como prefeito, que não foi promessa, que foi cumprido mesmo o que ele falou e tudo foi um exemplo para nossa cidade, para o nosso estado de Minas Gerais", declarou.
A fala ecoa o discurso de gestão técnica e responsabilidade fiscal que marcou a administração Zema em Minas Gerais, onde o governo equilibrou as contas públicas após anos de crise financeira herdada de gestões anteriores. O estado, que enfrentou atrasos no pagamento de servidores em 2019, fechou 2025 com superávit primário e redução do endividamento.
O "nó" do pacto federativo e as pautas-bomba
O prefeito de Santana do Jacaré foi direto ao apontar o que considera o maior problema estrutural dos municípios brasileiros: a desproporção entre obrigações impostas por leis federais e a capacidade de custeio das prefeituras.
"A gente tem que vir aqui como prefeito para ver mesmo quais são as propostas, a mudança. Todo mundo fala do pacto federativo, mas fica tão longe da realidade", disse.
Tirado enumerou uma série de "pautas-bomba" — expressão usada no meio político para designar projetos de lei que criam despesas obrigatórias para os municípios sem indicar a fonte de custeio. Entre os exemplos citados, estão o piso salarial da enfermagem, o novo modelo de educação em tempo integral vinculado ao FUNDEB e as cobranças previdenciárias.
"Fazer política com dinheiro dos outros é muito fácil. Fazer política com balaio dos outros", afirmou, ecoando uma conhecida frase de Zema sobre responsabilidade fiscal.
A disparidade do INSS: 22% para prefeituras, 5% para clubes de futebol
Um dos pontos mais contundentes da entrevista foi a denúncia da disparidade na alíquota de contribuição patronal ao INSS. Enquanto as prefeituras brasileiras recolhem 22% sobre a folha de pagamento de seus servidores celetistas, clubes de futebol — entidades privadas — pagam alíquota de 5% sobre parte de sua receita.
A diferença foi objeto de intenso debate no Congresso Nacional ao longo de 2025, quando a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado discutiu a redução da alíquota patronal dos municípios mais pobres como forma de aliviar a crise financeira das pequenas cidades. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 25/2025, em tramitação, prevê a redução gradual da alíquota patronal para municípios com até 50 mil habitantes.
Para Santana do Jacaré, que tem cerca de 3 mil habitantes e economia baseada na agricultura familiar e na pecuária de leite, a diferença representa dezenas de milhares de reais anuais que poderiam ser reinvestidos em infraestrutura básica.
Educação em tempo integral: o custo não repassado
Outro ponto de tensão destacado pelo prefeito foi a política de ampliação do ensino em tempo integral, bandeira dos governos federal e estaduais, mas que, segundo Tirado, não veio acompanhada do acréscimo necessário de repasses.
"A gente vê a questão do FUNDEB agora da educação em tempo integral, onde não foi repassado nada para esse acréscimo", afirmou. O FUNDEB — Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica — teve seu novo marco regulatório implementado a partir de 2024, com aumento gradativo da complementação da União. Contudo, prefeitos de cidades pequenas relatam que os custos operacionais da jornada ampliada (merenda, transporte, material e contratação de professores) superam os repasses adicionais recebidos.
Segurança pública: "dever do estado, conta do prefeito"
Renato Tirado também trouxe à tona um dilema que aflige a maioria dos municípios do interior do Brasil: a segurança pública. Embora a Constituição Federal de 1988 atribua a responsabilidade pela segurança pública aos estados (artigo 144), a ausência de policiamento ostensivo em cidades pequenas força as prefeituras a criarem guardas municipais ou contratarem segurança privada com recursos próprios.
"Muitos prefeitos correndo atrás de guarda municipal, arcando com essa segurança que tá na constituição é um dever do estado, da União", declarou.
Em Minas Gerais, o governo Zema implementou o programa "Minas Consciente" e ampliou o efetivo da Polícia Militar, mas a capilaridade em municípios distantes dos grandes centros ainda é apontada como insuficiente por gestores locais.
Santana do Jacaré: tradição centenária e desafios contemporâneos
Localizada na região sul de Minas Gerais, a cerca de 280 km de Belo Horizonte, Santana do Jacaré é um típico município do interior mineiro. Com população estimada em 3.200 habitantes pelo Censo 2022, a cidade tem como principal atividade econômica a agricultura familiar e a pecuária leiteira.
Mas seu maior patrimônio é imaterial. A Cavalhada de Santana do Jacaré, tradição trazida pelo Padre Corrêa em 1906, é uma encenação teatral da Guerra dos Mouros e Cristãos — disputa medieval travada na Península Ibérica. A celebração, que completa 120 anos de tradição ininterrupta, é uma das mais antigas do Brasil e foi registrada como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A festa, realizada anualmente durante o carnaval, reúne 24 cavaleiros divididos em dois grupos — azuis (cristãos) e vermelhos (mouros) — que encenam batalhas, discursos e a conversão final dos mouros ao cristianismo. O evento atrai visitantes de toda a região e movimenta a economia local, em um contraste que o próprio prefeito reconhece: a cidade que preserva uma das mais antigas tradições do interior brasileiro enfrenta as mesmas dificuldades financeiras que ameaçam a sobrevivência de centenas de municípios similares em todo o país.
"Quem vai a Santana e bebe a água sempre volta", brinca o ditado local, citado por Tirado no encerramento da entrevista.
Reforma tributária: o ponto de convergência
O prefeito ainda apontou a reforma tributária como pauta urgente — tema que, segundo ele, foi abordado tanto por Zema quanto pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, durante o evento.
"Essa reforma tributária, como foi falado hoje mais cedo pelo Caiado, tem que ser revista", disse. "Se 90% da arrecadação do Brasil vem dos municípios, não é justo a gente ficar com esse pacto federativo antigo que cada vez mais ingesta os prefeitos das pequenas cidades."
A afirmação encontra respaldo em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Receita Federal: os municípios são responsáveis por grande parte da arrecadação de tributos como ISS e IPTU, além de participarem do bolo do ICMS e do IPVA — mas ficam com a menor fatia na partilha final dos recursos.
A voz que veio do interior
A entrevista de Renato Tirado reflete um sentimento difuso entre gestores de pequenos municípios brasileiros — que representam mais de 70% das cidades do país — de que são ignorados no debate nacional sobre o pacto federativo. Enquanto os holofotes se voltam para as grandes metrópoles e os estados, são as prefeituras do interior que executam, com orçamentos enxutos, políticas públicas de saúde básica, educação infantil, merenda escolar, transporte, iluminação pública e assistência social.
Entre as "pautas-bomba" que sufocam os pequenos municípios, o prefeito foi categórico: a cobrança dos parlamentares e a participação ativa no debate eleitoral são o caminho para reverter o quadro.
"Vamos cobrar os nossos parlamentares para que isso possa fluir. Em vez de mandar para o prefeito mais dívidas, mais compromisso, vamos mandar mais recurso para que possa ser aplicado no lugar onde acontece", concluiu.
Bio — Renato Tirado Freire (Renato do Ló)
Renato Tirado Freire, mais conhecido como Renato do Ló, é prefeito de Santana do Jacaré (MG) para a gestão 2025-2028, eleito pelo partido MOBILIZA. Advogado de formação, atuou no escritório Barbosa & Tirado antes de ingressar na vida pública. Sua trajetória política é marcada pela defesa da gestão municipalista e pelo combate ao que classifica como "assimetria do pacto federativo". Durante sua campanha em 2024, obteve registro deferido pelo Tribunal Superior Eleitoral e consolidou seu nome como liderança emergente no sul de Minas. É conhecido pelo perfil direto e pela disposição em levar as demandas de sua cidade aos grandes debates nacionais.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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Fontes: Entrevista exclusiva concedida ao Jornal da República (22/06/2026); Lei de Diretrizes Orçamentárias 2026 — Ministério do Planejamento; IBGE Censo 2022 — População de Santana do Jacaré/MG; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — Registro da Cavalhada; PEC 25/2025 — Proposta de redução de alíquota patronal do INSS; Agência Senado — Comissão de Assuntos Econômicos; Secretaria do Tesouro Nacional — Indicadores Fiscais dos Estados; DivulgaCandContas/TSE — Registro de candidatura de Renato Tirado Freire.
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